Lançado originalmente em 1988 pela Taito, The New Zealand Story ficou gravado na memória de muitos jogadores como um dos mais curiosos e enganadores jogos arcade da sua época. À primeira vista parecia um jogo de plataformas colorido, simpático e acessível, daqueles que convidavam qualquer criança a aproximar-se da máquina arcade apenas pela aparência. O pequeno kiwi Tiki, protagonista da aventura, transmitia uma sensação de inocência e leveza que fazia pensar num passatempo descontraído. No entanto, bastava inserir uma moeda e começar a jogar para perceber que a realidade era bastante diferente.
Aquilo que parecia um simples jogo de plataformas rapidamente se revelava uma experiência extremamente exigente. A dificuldade elevada, os inimigos constantes e o design labiríntico dos níveis transformavam cada partida num verdadeiro teste de paciência e habilidade. Para muitos jogadores da época, The New Zealand Story tornou-se um daqueles títulos que tanto fascinavam quanto frustravam, consumindo moedas atrás de moedas enquanto os jogadores tentavam avançar apenas mais um nível.
Apesar disso, o jogo acabou por conquistar um lugar especial na história dos videojogos. Ao longo de décadas manteve uma reputação curiosa: um clássico arcade muito querido, mas também recordado pela sua dificuldade implacável. Agora, muitos anos depois, surge The NewZealand Story: Untold Adventure, um remake desenvolvido pelo estúdio italiano Bitobit que tenta trazer essa experiência para o presente. A ideia parece simples à partida: preservar o jogo original, modernizar os gráficos e introduzir algumas melhorias que tornem a experiência mais acessível para novos jogadores.
Mas como acontece frequentemente com remakes de clássicos retro, a execução levanta algumas questões interessantes. Será que atualizar apenas o aspeto visual é suficiente para revitalizar um jogo com quase quatro décadas? Ou será que essa fidelidade ao original acaba por revelar limitações que antes passavam despercebidas?
Jogabilidade
A jogabilidade de The NewZealand Story: Untold Adventure mantém-se extremamente fiel ao clássico original. No centro da experiência está Tiki, um pequeno kiwi armado com um arco que precisa de percorrer uma série de níveis labirínticos repletos de inimigos, obstáculos e segredos. O objetivo em cada nível é simples: encontrar a saída e sobreviver até lá.
No entanto, a forma como se chega a essa saída é o que torna o jogo interessante. Os níveis são construídos de forma bastante vertical, com plataformas espalhadas em várias alturas e caminhos alternativos que incentivam a exploração. Esta verticalidade foi uma das características mais inovadoras do jogo original e continua a ser um elemento distintivo nesta versão moderna.
Durante o percurso, Tiki pode recolher diferentes tipos de veículos voadores que pertencem aos inimigos. Estes meios de transporte, que vão desde balões a outros dispositivos flutuantes, permitem deslocar-se com maior liberdade pelo cenário e evitar zonas perigosas cheias de adversários. Saber quando usar esses veículos e quando abandoná-los torna-se parte fundamental da estratégia.
Outro elemento clássico é o sistema de recompensas deixadas pelos inimigos derrotados. Frutas e power-ups aparecem com frequência após eliminar adversários. Enquanto as frutas servem principalmente para acumular pontos, os power-ups oferecem vantagens importantes que aumentam as hipóteses de sobrevivência do jogador. Uma das principais alterações introduzidas neste remake é a inclusão de um sistema de três corações que funciona como barra de vida. No jogo original bastava um erro para perder uma vida, algo típico das arcades da época. Aqui, essa abordagem foi suavizada, permitindo ao jogador aguentar alguns golpes antes de morrer. Além disso, o jogo permite continuar o nível após perder todas as vidas, uma filosofia semelhante à adoptada por vários jogos de plataformas modernos.
Estas mudanças tornam a experiência significativamente mais acessível. O jogo continua difícil, mas deixa de ser tão punitivo como a versão arcade original. Ainda assim, a dificuldade permanece um elemento central da experiência, e muitos níveis continuam a exigir precisão e reflexos rápidos.
Infelizmente, nem tudo corre da melhor forma. Alguns níveis apresentam problemas técnicos que podem interferir com a jogabilidade. Existem situações em que o personagem é subitamente transportado para outra zona do nível devido a falhas ou glitches, criando momentos confusos e potencialmente frustrantes. Em certos casos, estes erros podem mesmo obrigar o jogador a atravessar rapidamente determinadas áreas para evitar ficar preso nessas situações.

Mundo e história
Tal como no original, a narrativa de The NewZealand Story: Untold Adventure é simples, mas eficaz. A história gira em torno de Tiki, um pequeno kiwi que precisa de resgatar os seus amigos capturados por Wally, uma morsa tirânica que aterroriza a região.
Esta premissa básica serve essencialmente como ponto de partida para a aventura, levando o jogador a atravessar diferentes ambientes enquanto tenta salvar os restantes kiwis. Embora a narrativa nunca seja particularmente profunda, o tom leve e a estética colorida ajudam a criar uma atmosfera divertida.
Os níveis apresentam uma variedade de cenários que incluem cavernas, paisagens naturais e estruturas labirínticas cheias de inimigos. Cada área tem os seus próprios desafios e padrões de inimigos, mantendo a experiência variada ao longo da progressão. Um dos aspetos mais interessantes do design original, que continua presente neste remake, é a forma como os níveis incentivam a curiosidade. Muitos caminhos alternativos e atalhos podem ser descobertos explorando cuidadosamente o cenário. Por vezes é possível encontrar rotas mais rápidas ou zonas secretas que recompensam jogadores mais atentos.
Este tipo de design era relativamente inovador na época em que o jogo original foi lançado. Em vez de seguir uma progressão linear simples, os níveis apresentam uma estrutura mais aberta que permite experimentar diferentes abordagens.
Mesmo hoje, essa filosofia continua a dar algum charme ao jogo. Embora o enredo em si seja mínimo, a sensação de aventura e descoberta mantém-se presente ao longo da campanha.
Grafismo
Uma das principais promessas deste remake é a atualização visual. O objetivo da Bitobit foi essencialmente aplicar uma nova camada gráfica sobre a base do jogo original, mantendo intacta a estrutura e o funcionamento do clássico de 1988.
Esta abordagem é semelhante à utilizada noutros remakes retro, onde os gráficos modernos funcionam quase como uma espécie de revestimento aplicado ao motor original. A jogabilidade, as animações e até os movimentos dos inimigos seguem fielmente o comportamento do jogo antigo.
No entanto, o resultado visual acaba por ser algo inconsistente. Embora os gráficos estejam tecnicamente mais limpos e detalhados, falta-lhes personalidade. Em vez de reinventar ou reinterpretar o estilo visual do original, o remake limita-se muitas vezes a redesenhar os sprites existentes com maior resolução. Isto cria uma sensação estranha, como se o jogo fosse apenas uma versão polida de algo antigo, mas sem o charme artístico que muitos remakes modernos conseguem atingir. Em alguns momentos, o resultado até lembra projetos feitos em ferramentas simples de desenvolvimento.
Outro problema evidente é a falta de animações mais elaboradas. Vários inimigos e elementos do cenário apresentam animações mínimas ou inexistentes, algo que se torna ainda mais evidente quando os gráficos são atualizados para padrões modernos. Curiosamente, o próprio Tiki parece ter recebido mais atenção do que o resto do jogo. A sua representação em sprite tridimensional funciona relativamente bem e apresenta algumas melhorias na animação, o que ajuda a manter o protagonista visualmente apelativo.
No entanto, os cenários e plataformas acabam por parecer bastante simples e pouco inspirados. Ao atualizar os gráficos sem alterar significativamente o design artístico, o remake acaba por destacar ainda mais as limitações visuais do jogo original.

Som
No departamento sonoro, The NewZealand Story: Untold Adventure mantém-se relativamente fiel às raízes arcade. A banda sonora acompanha a estética leve e colorida do jogo, com melodias animadas que procuram transmitir uma sensação de aventura e dinamismo.
Tal como acontece com muitos jogos inspirados em clássicos retro, as músicas funcionam bem dentro do contexto da experiência, mesmo que não sejam particularmente memoráveis. Servem sobretudo para reforçar o ritmo da jogabilidade e manter o ambiente descontraído. Os efeitos sonoros seguem a mesma filosofia. Saltos, disparos e colisões são acompanhados por efeitos simples que remetem diretamente para a era dos arcades. Embora não sejam particularmente sofisticados, cumprem a sua função e ajudam a manter a identidade retro do jogo. No geral, o som consegue complementar a experiência sem se destacar demasiado. Não há grandes momentos musicais memoráveis, mas também não existem falhas graves neste departamento.
Conclusão
The NewZealand Story: Untold Adventure é um remake curioso de um clássico arcade que marcou muitos jogadores no final dos anos 80. A decisão de preservar quase integralmente o design original demonstra respeito pela obra original, mas também acaba por expor algumas das suas limitações.
Por um lado, o jogo continua a apresentar um design de níveis interessante, com exploração vertical e mecânicas que eram bastante criativas para a época. As alterações introduzidas, como o sistema de três corações e a possibilidade de continuar os níveis, tornam a experiência muito mais acessível do que o original.
Por outro lado, a fidelidade extrema ao material de origem acaba por evidenciar problemas que talvez passassem despercebidos no passado. Os controlos algo rígidos, a deteção de colisões inconsistente e a falta de animações tornam-se mais evidentes quando o jogo é apresentado com gráficos modernos. A situação é agravada por alguns problemas técnicos que podem interferir com a jogabilidade, criando momentos frustrantes em determinados níveis. No final, este remake acaba por oferecer uma forma de redescobrir um clássico que durante muitos anos esteve escondido atrás da dificuldade brutal da versão arcade. No entanto, ao remover parte da nostalgia e olhar para o jogo com olhos modernos, também se tornam visíveis algumas falhas estruturais que o tempo não conseguiu esconder.
Para fãs do original e colecionadores de experiências retro, The NewZealand Story: Untold Adventure pode ter algum valor pela curiosidade histórica. Para novos jogadores, no entanto, é possível que a experiência pareça mais um projeto interessante mas imperfeito, que acaba por soar mais a um protótipo ainda em desenvolvimento do que a um remake totalmente polido.