Nos últimos anos, o género roguelike e as suas muitas variações tornaram-se presença constante no panorama dos videojogos independentes. Entre roguelikes mais tradicionais e os chamados rogue-lite, onde existe uma progressão persistente entre partidas, surgem cada vez mais títulos que procuram destacar-se através de ideias criativas ou conceitos inesperados. Chickenauts, publicado pela Untold Tales, encaixa precisamente nesse grupo. À primeira vista pode parecer apenas mais um jogo de ação com geração procedural e mortes frequentes, mas basta jogar alguns minutos para perceber que existe aqui um loop de jogo surpreendentemente viciante.
Em Chickenauts assumimos o papel de um agricultor que vive tranquilamente com as suas galinhas, até ao momento em que uma invasão extraterrestre muda tudo. Subitamente, as suas aves começam a ser raptadas por alienígenas e o protagonista decide agir. O que torna esta premissa particularmente absurda é que os responsáveis pelos raptos são, na verdade, galinhas alienígenas. Em vez de aceitar o destino das suas aves, o agricultor entra numa nave espacial e acaba por descer para um complexo labiríntico repleto de inimigos.
Apesar do tom humorístico e da estética leve, Chickenauts é essencialmente um shooter de ação rápida visto de cima, com mecânicas típicas de twin-stick shooter e uma estrutura roguelike baseada em arenas sucessivas. O resultado é um jogo que combina combates intensos, progressão gradual e uma dose saudável de absurdo temático. A sua fórmula não é revolucionária, mas executa muito bem aquilo que se propõe fazer.
Jogabilidade
A base da jogabilidade de Chickenauts assenta em combates rápidos dentro de pequenas arenas. Cada área coloca o jogador contra várias ondas de inimigos, maioritariamente galinhas hostis ou criaturas relacionadas com o estranho ecossistema alienígena do jogo. O controlo segue o modelo clássico dos twin-stick shooters: movimentação constante pelo cenário enquanto se dispara em todas as direções.
O protagonista move-se com bastante fluidez, algo essencial num jogo onde a sobrevivência depende frequentemente de reflexos rápidos. Existe também uma manobra de esquiva que permite evitar projéteis ou escapar de situações perigosas. Esta mobilidade contribui para tornar os confrontos mais dinâmicos e evita que o ritmo abrande.
Depois de completar cada arena, o jogador escolhe o próximo caminho num pequeno mapa ramificado. Estas escolhas determinam o tipo de desafio seguinte. Algumas rotas conduzem a combates contra inimigos de elite, enquanto outras permitem visitar lojas, obter recompensas ou encontrar eventos especiais. No início, os símbolos utilizados para representar cada opção podem não ser imediatamente intuitivos, mas após algumas partidas tornam-se fáceis de reconhecer.
O sistema de saúde é relativamente restritivo. O personagem começa com apenas três pontos de vida, representados simbolicamente por galinhas. Este limite torna os primeiros momentos do jogo bastante desafiantes, especialmente porque muitos inimigos utilizam padrões de projéteis típicos do estilo bullet hell. Basta um pequeno erro de posicionamento para perder um ponto de vida.
Durante as partidas é possível recuperar saúde através de itens que surgem ocasionalmente após derrotar inimigos ou através de poções. As lojas espalhadas pelos níveis também permitem comprar melhorias, comida ou outros consumíveis. No entanto, o verdadeiro incentivo para gastar dinheiro prende-se com o facto de as moedas não serem mantidas após a morte. Isso significa que o jogador deve aproveitar cada oportunidade para investir nas vantagens disponíveis antes de terminar uma tentativa.

Mundo e história
Embora a narrativa não seja o foco principal de Chickenauts, o jogo apresenta um mundo repleto de humor e ideias absurdas que ajudam a criar uma identidade própria. A premissa de galinhas alienígenas que raptam outras galinhas já é, por si só, suficientemente peculiar para despertar curiosidade.
O protagonista é um simples agricultor que decide enfrentar uma ameaça extraterrestre para salvar o seu rebanho. Esta motivação simples serve como ponto de partida para uma aventura que rapidamente se transforma numa sequência de batalhas dentro de uma nave cheia de corredores, arenas e personagens estranhas.
Ao longo das partidas surgem várias figuras curiosas que contribuem para expandir ligeiramente o universo do jogo. Uma delas é um cientista excêntrico que aparece ocasionalmente durante os níveis e oferece melhorias para os companheiros do jogador. Estes encontros funcionam mais como elementos de progressão mecânica do que como momentos narrativos, mas ajudam a criar alguma variedade. A exploração do laboratório alienígena revela também que o local está repleto de sobreviventes e aliados potenciais. Durante as corridas é possível libertar personagens que desbloqueiam novas funcionalidades, como alterar armas, trocar companheiros ou modificar certas características da partida. Estes elementos funcionam como uma espécie de hub expandido que cresce gradualmente à medida que o jogador avança.
No centro de tudo está a quinta do protagonista, que funciona como base entre partidas. É aqui que se utilizam certos recursos obtidos durante as corridas para desbloquear melhorias permanentes. Esta estrutura reforça a componente rogue-lite do jogo e cria uma sensação constante de progresso, mesmo quando uma tentativa termina prematuramente.
Grafismo
Visualmente, Chickenauts aposta num estilo pixel art colorido e bastante expressivo. As personagens e inimigos são desenhados com um tom caricatural que encaixa perfeitamente na natureza absurda do jogo. Galinhas armadas, cientistas excêntricos e criaturas alienígenas convivem num mundo que mistura humor e ação frenética.
Apesar da simplicidade técnica, o design das arenas é eficaz. Cada espaço é suficientemente aberto para permitir mobilidade durante os combates, mas contém também elementos que obrigam o jogador a adaptar a sua posição. Esta combinação ajuda a manter o ritmo dos confrontos e evita que as batalhas se tornem repetitivas.
As animações são simples, mas funcionais. Os ataques, esquivas e efeitos de impacto são claros o suficiente para transmitir informação importante durante os momentos mais caóticos. Isto é particularmente importante num jogo onde múltiplos projéteis podem encher o ecrã. Outro destaque visual são os companheiros de galinheiro que acompanham o jogador. Estes aliados têm designs distintos e muitas vezes inspirados em referências culturais ou personagens reconhecíveis. Um exemplo é John Chick, que possui uma estética inspirada em figuras clássicas do cinema e da cultura popular. Outro caso curioso é Gojo Chicku, claramente pensado para fãs de anime.
Embora o estilo gráfico não seja revolucionário, consegue transmitir personalidade e humor. Mais importante ainda, mantém a clareza visual necessária para um jogo de ação rápida.

Som
A componente sonora de Chickenauts cumpre bem o seu papel, mesmo que não seja particularmente memorável. A banda sonora acompanha o ritmo acelerado da ação com temas energéticos que ajudam a manter a intensidade das batalhas.
Durante os confrontos, os efeitos sonoros tornam-se um elemento fundamental para reforçar a sensação de impacto. Disparos, explosões e golpes produzem sons satisfatórios que ajudam a transmitir feedback imediato ao jogador. Este tipo de resposta auditiva é essencial em jogos de ação rápida, onde cada fração de segundo conta. Os efeitos associados aos inimigos e aos companheiros também contribuem para criar identidade. As galinhas possuem vocalizações exageradas e cómicas que reforçam o tom humorístico do jogo. Estes pequenos detalhes ajudam a evitar que o ambiente sonoro se torne demasiado genérico.
Embora não existam temas particularmente memoráveis, a música consegue manter o ritmo adequado e nunca se torna intrusiva. Funciona como um pano de fundo eficaz para a ação constante que define o jogo.
Conclusão
Chickenauts é mais um exemplo de como o género roguelike continua a oferecer espaço para ideias criativas, mesmo quando a fórmula base já é bastante conhecida. O conceito de um agricultor a lutar contra galinhas alienígenas pode parecer apenas uma piada visual, mas o jogo consegue transformar essa premissa absurda numa experiência surpreendentemente sólida.
A jogabilidade rápida, o controlo fluido e o sistema de progressão constante criam um loop de jogo difícil de largar. Cada partida oferece novas oportunidades para melhorar o personagem, desbloquear companheiros ou experimentar armas diferentes. Mesmo quando uma tentativa termina em fracasso, existe quase sempre algum progresso que incentiva a tentar novamente.
Os companheiros galináceos são talvez o elemento mais distintivo da experiência. Estes aliados acrescentam variedade estratégica às partidas e criam momentos caóticos e divertidos durante os combates. Juntamente com o sistema de melhorias permanentes através dos ovos recolhidos, ajudam a dar profundidade ao jogo.
Apesar de não reinventar o género, Chickenauts destaca-se pela sua personalidade e ritmo. O combate é rápido, as partidas são relativamente curtas e a progressão constante mantém o jogador envolvido. Para quem aprecia roguelikes de ação com um toque de humor absurdo, esta é uma proposta que merece atenção.
No meio de tantos jogos semelhantes, Chickenauts prova que, por vezes, basta uma boa execução e uma ideia suficientemente peculiar para criar algo memorável. E neste caso, salvar galinhas de galinhas alienígenas acaba por ser mais divertido do que parece à primeira vista.