Lançado em Acesso Antecipado a 9 de março de 2026, Hive Blight é o mais recente projeto do estúdio indie belga OptizOnion. Depois do sucesso de Bounty of One, a equipa decidiu afastar-se da fórmula bullet-hell survival para explorar um terreno bastante diferente, mas igualmente viciante: um roguelite tático com estrutura de autobattler. O resultado é um jogo que troca reflexos rápidos por planeamento cuidadoso, mas sem perder aquele apelo imediato que faz com que seja fácil entrar em mais uma run sem dar pelo tempo passar.
À primeira vista, Hive Blight destaca-se de imediato pela sua identidade visual muito própria. Há aqui um charme quase artesanal, como se estivéssemos a olhar para um pequeno teatro de guerra montado com recortes de papel, miniaturas e criaturas desenhadas à mão. Essa abordagem dá-lhe uma personalidade fortíssima e ajuda-o a destacar-se num género que, apesar de popular, começa também a sofrer com alguma repetição estética e estrutural.
Mais importante ainda, o jogo consegue fazer algo que muitos títulos deste tipo tentam, mas poucos alcançam com consistência: ser simultaneamente relaxante e desafiante. Como as unidades atacam de forma automática, a pressão não vem da execução, mas sim da preparação. Cada erro é teu. Cada vitória também. E é precisamente aí que Hive Blight encontra a sua força. Mesmo estando ainda em Acesso Antecipado, já existe aqui uma base muito sólida, com ideias bem definidas, sistemas interessantes e uma direção criativa clara. Falta-lhe mais conteúdo, sim, mas o que já está disponível mostra um jogo com bastante potencial.
Jogabilidade
A estrutura de Hive Blight gira em torno de combates automáticos em arenas organizadas por grelhas hexagonais. Antes de cada batalha, o jogador escolhe e posiciona unidades, gere recursos e tenta construir uma composição capaz de resistir ao encontro seguinte. Depois disso, a ação decorre sozinha. Mas isso não significa que o jogo seja passivo ou simples. Pelo contrário. Tudo o que importa acontece antes do combate começar.
A colocação das unidades é essencial. A posição de cada guerreiro pode significar a diferença entre um início de combate dominador ou uma derrota quase imediata. Há um prazer muito próprio em ajustar uma linha da frente, proteger as unidades mais frágeis e preparar o terreno para que as habilidades certas sejam ativadas no momento ideal. Esse tipo de preparação transforma cada batalha numa espécie de puzzle tático.
O grande trunfo do jogo está, no entanto, no seu sistema de sinergias. Hive Blight entende muito bem que um autobattler vive ou morre pela qualidade das suas combinações, e é precisamente aí que se destaca. O jogo incentiva constantemente a experimentar interações entre clãs, efeitos, debuffs e objetos. Em vez de seguir uma rota demasiado rígida, o jogador é recompensado por adaptar a sua estratégia ao que o jogo lhe oferece em cada run.
A variedade disponível ajuda bastante nesse aspeto. Com mais de 30 unidades únicas e mais de 40 bugigangas e itens passivos, existe margem suficiente para criar builds bastante distintas entre si. Algumas runs assentam numa pressão ofensiva constante, outras vivem de veneno, controlo de grupo ou reforço das tropas. Mesmo quando a base estrutural se mantém igual, a forma como cada partida se desenrola tende a mudar o suficiente para manter o interesse.
Outro sistema muito importante é o da vida partilhada da colmeia. Em vez de perderes unidades de forma permanente sempre que elas caem em combate, existe uma reserva global de saúde chamada Hive Health. Se uma unidade for derrotada, ela regressa depois da batalha, desde que essa reserva comum ainda não tenha chegado ao zero. Esta escolha muda bastante o ritmo do jogo. Permite assumir riscos, testar posicionamentos mais agressivos e aceitar algumas perdas temporárias sem que a run seja imediatamente arruinada. É uma mecânica inteligente, porque reduz a frustração típica de certos roguelites mais punitivos sem sacrificar tensão.
Ainda assim, nem tudo é perfeito. Em combates mais avançados, quando o ecrã começa a encher-se de efeitos, projéteis e estados alterados, a leitura da ação pode tornar-se algo confusa. Como o jogador não controla diretamente o combate, a clareza visual torna-se ainda mais importante. Quando essa clareza falha, pode ser difícil perceber com exatidão porque é que uma estratégia correu mal. Não chega a comprometer a experiência, mas é uma área que beneficiaria de algum refinamento adicional.

Mundo e história
A premissa de Hive Blight é simples, mas eficaz. O reino está a ser consumido por uma praga parasitária espalhada por uma entidade conhecida como Fungomancer, uma figura vilanesca que funciona como catalisador do conflito. Cabe ao jogador reunir clãs rivais de insetos para travar a infeção e restaurar o equilíbrio daquele mundo subterrâneo em colapso.
Não estamos perante uma narrativa densa ou particularmente elaborada, mas o universo é suficientemente interessante para dar contexto e identidade ao jogo. A ideia de uma guerra biológica entre facções de insetos funciona muito bem dentro do tom geral da obra. Há uma criatividade genuína na forma como o jogo constrói o seu cenário, aproveitando características biológicas e comportamentais dos insetos para definir facções, estilos de combate e personalidade.
Atualmente, o jogo conta com três clãs principais, e cada um deles ajuda a dar cor ao mundo. Os Vespada representam a vertente mais ofensiva e direta, apostando em força bruta e efeitos destrutivos. A Silent Cabbale inclina-se para o veneno, desgaste e manipulação mais metódica do campo de batalha. Já a Sweet Symphoney assume um papel de suporte, oferecendo utilidade, reforços e estabilidade tática. Só esta divisão já cria um ecossistema interessante, e o mais curioso é que o jogo não trata estas facções apenas como estilos de jogo, mas também como identidades distintas dentro do seu pequeno universo.
A história, no estado atual, ainda parece mais uma moldura do que um verdadeiro foco narrativo. Funciona bem para sustentar a progressão, mas ainda não há profundidade suficiente para criar grande ligação emocional com o conflito ou com as facções envolvidas. Isso não é necessariamente um problema, porque Hive Blight claramente coloca o peso principal na jogabilidade. Ainda assim, é fácil imaginar que futuras atualizações possam expandir este mundo de forma muito interessante, sobretudo se o jogo decidir explorar melhor a rivalidade entre clãs, o avanço da corrupção do Fungomancer e as implicações da guerra sobre este reino em miniatura.
Grafismo
Se existe uma área onde Hive Blight impressiona de forma imediata, é no grafismo. A direção artística é, sem exagero, uma das suas maiores armas. O estilo visual assente numa estética de recortes de papel e ilustração manual dá ao jogo uma identidade muito forte, e isso tem um valor enorme num mercado onde tantos indies acabam por parecer visualmente intercambiáveis.
Cada inseto tem personalidade. Cada unidade parece ter sido desenhada com intenção, com silhuetas distintas e animações suficientemente expressivas para comunicar função e carácter sem precisar de grandes exageros. Há uma sensação quase de livro ilustrado interativo, mas com energia suficiente para que os combates não percam impacto. O jogo consegue ser adorável e ameaçador ao mesmo tempo, o que encaixa muito bem na ideia de um mundo pequeno envolvido numa guerra de sobrevivência.
Os cenários, embora menos chamativos do que as personagens, ajudam bastante a reforçar a atmosfera. O mundo de Hive Blight parece vivo dentro da sua própria escala, e a utilização de cor e composição visual contribui para essa sensação. Mesmo quando a ação se torna mais intensa, há sempre uma coerência estética que mantém o jogo apelativo.
O problema surge quando essa mesma riqueza visual começa a jogar contra a legibilidade. Nas fases mais avançadas, com múltiplos efeitos ativos, projéteis a cruzar o ecrã e vários estados aplicados em simultâneo, o campo de batalha pode tornar-se demasiado carregado. Não é uma falha de direção artística, mas sim uma questão de apresentação funcional. O jogo é bonito, mas por vezes bonito demais para o seu próprio bem.
Também existem pequenas limitações de interface, sobretudo em ecrãs menores. Em dispositivos como a Steam Deck, alguns elementos de texto e do interface parecem demasiado pequenos, o que prejudica a leitura e a navegação. Sendo este um género que exige atenção a detalhes estatísticos, descrições e sinergias, esse tipo de problema torna-se mais relevante do que pareceria à primeira vista.

Som
Uma das melhorias mais notórias de Hive Blight em relação à sua fase beta está precisamente no departamento sonoro. Segundo o feedback inicial da comunidade, a ausência de música era uma das queixas mais recorrentes, e felizmente essa falha foi corrigida. O resultado é um jogo que agora se sente muito mais completo e coeso.
A banda sonora encaixa muito bem no tom da experiência. Existe aqui uma abordagem orquestral leve e fantasiosa que combina perfeitamente com a ideia de um conflito épico à escala de insetos. A música não tenta impor-se demasiado, mas acompanha a ação com a dose certa de energia, ajudando a elevar os momentos mais intensos e a dar algum encanto às fases de preparação.
Os efeitos sonoros também cumprem bem a sua função. Os ataques, impactos e ativações de habilidades têm peso suficiente para tornar os combates satisfatórios, mesmo sendo automáticos. Isso é importante, porque num autobattler a sensação de recompensa visual e sonora precisa de compensar a falta de controlo direto. Hive Blight percebe isso e consegue, na maioria das vezes, fazer com que os confrontos pareçam vivos e envolventes.
Não é, ainda assim, um jogo cujo som vá ficar gravado na memória durante anos. A componente áudio serve muito bem a experiência, melhora significativamente a imersão e resolve uma lacuna importante da versão inicial, mas não se destaca ao ponto de se tornar memorável por si só. É competente, apropriada e bastante eficaz, que neste caso já é mais do que suficiente.
Conclusão
Hive Blight é uma surpresa muito agradável e um dos projetos indie mais promissores dentro do espaço roguelite neste momento. A mudança de direção da OptizOnion foi arriscada, mas acabou por resultar. Em vez de tentar repetir a fórmula de sucesso anterior, o estúdio optou por construir algo diferente, mais metódico e estratégico, mas sem perder acessibilidade nem identidade.
O mais impressionante é a forma como o jogo equilibra serenidade e exigência mental. É fácil sentarmo-nos a jogar Hive Blight ao fim do dia e entrar no seu ritmo quase contemplativo, mas ao mesmo tempo cada decisão importa. Cada unidade escolhida, cada posição ajustada, cada sinergia explorada tem peso real. E essa combinação entre conforto e profundidade é rara.
Ainda há arestas para limar. O conteúdo disponível é, para já, algo limitado, com apenas três capítulos, o que significa que jogadores mais dedicados poderão esgotar relativamente depressa aquilo que o jogo tem para oferecer nesta fase. Também há questões de legibilidade visual e de escalamento do interface que merecem atenção. Mas nenhuma dessas limitações apaga a qualidade do núcleo da experiência.
O que Hive Blight já oferece em Acesso Antecipado é mais do que uma promessa vaga. É uma base genuinamente forte. A direção artística é excelente, o sistema de sinergias é envolvente, a rejogabilidade está bem assegurada e o mundo tem personalidade suficiente para deixar vontade de ver mais. Se a OptizOnion conseguir expandir o conteúdo sem perder o foco e o refinamento que já demonstrou aqui, este pequeno conflito entre insetos pode muito bem crescer até se tornar um dos nomes mais interessantes do género.