Durante décadas, os videojogos colocaram-nos quase sempre no mesmo papel: o herói improvável que empunha uma espada, derrota monstros e salva o reino da destruição iminente. É uma fantasia confortável, repetida vezes sem conta, mas que continua a funcionar. Be My Horde decide virar essa lógica do avesso e fazer uma pergunta simples, mas deliciosamente perversa: e se fosses tu o pesadelo? E se, em vez de destruir os mortos-vivos, fosses o necromante responsável por os erguer da terra?
Em Be My Horde, um roguelite de sobrevivência desenvolvido pela Polished Games, assumimos o papel de Moriana, uma necromante poderosa, carismática e perigosamente confiante, cujo objectivo não passa por salvar o mundo, mas sim afogá-lo em morte, caos e servidão eterna. A premissa pode soar simples, mas a execução é tudo menos óbvia. Aqui, cada inimigo derrotado não é apenas um obstáculo ultrapassado, mas uma oportunidade. Cada corpo no chão é um potencial aliado, cada campo de batalha um viveiro para fazer crescer a tua horda.
O resultado é um jogo que reconhece as suas influências no género, claramente inspirado na vaga de roguelites de sobrevivência em vista superior, mas que encontra identidade própria ao colocar o jogador no centro da vilania. Be My Horde não quer que te sintas culpado. Pelo contrário, quer que te divirtas com isso.
Jogabilidade
A jogabilidade de Be My Horde assenta numa ideia central extremamente bem conseguida: a morte é o teu principal recurso. Moriana é fisicamente frágil, incapaz de enfrentar grandes grupos de inimigos sozinha, e por isso depende quase totalmente da sua horda de mortos-vivos para sobreviver. Cada camponês, soldado, cavaleiro ou criatura demoníaca que cai em combate pode ser ressuscitado e integrado no teu exército. Até ovelhas entram nesta equação macabra, sendo devoradas, reanimadas e transformadas em ferramentas de destruição grotescamente cómicas.
Este sistema altera completamente a forma como encaras cada confronto. Não se trata apenas de sobreviver ou de limpar o ecrã de ameaças, mas de escolher cuidadosamente quem matar e quando. Perseguir inimigos fracos permite aumentar rapidamente os números da horda, mas enfrentar adversários mais perigosos pode resultar em aliados muito mais poderosos. Esta gestão constante de risco e recompensa dá ao jogo uma profundidade estratégica que vai muito além do caos aparente.
Entre partidas, o típico loop roguelite entra em acção. As almas recolhidas servem para desbloquear melhorias permanentes, novas habilidades e opções que expandem o leque de estratégias disponíveis. Mesmo quando falhas, há sempre progresso, o que torna cada derrota mais fácil de aceitar e cada nova tentativa mais entusiasmante. O crescimento de Moriana não é apenas quantitativo, mas qualitativo, oferecendo novas formas de interagir com o campo de batalha. Os próprios cenários têm um papel activo na jogabilidade. Árvores que aumentam a velocidade, urnas que concedem almas e bónus temporários, campos de lava e chuvas de meteoros que castigam tanto a heroína como os seus lacaios. O posicionamento e o movimento são cruciais, obrigando o jogador a estar constantemente atento ao espaço e ao comportamento da sua horda.

Mundo e história
Apesar de não ser um jogo fortemente narrativo no sentido tradicional, Be My Horde constrói o seu mundo através de contexto, humor e pequenas interacções. Moriana não é uma vilã silenciosa ou genérica. Pelo contrário, tem personalidade, opiniões e uma presença constante que molda a experiência. O tom é assumidamente irreverente, brincando com clichés de fantasia sombria e subvertendo expectativas sempre que possível. Há momentos particularmente memoráveis, como o primeiro grande boss, um rei com uma estranha obsessão por ovelhas, que estabelece desde cedo o tipo de humor que o jogo pretende explorar. Mais à frente, a descida literal ao inferno culmina num confronto com o Diabo, apresentado com um estilo de combate dançante tão absurdo quanto desafiante. É este contraste entre o grotesco e o cómico que dá identidade ao mundo de Be My Horde.
Cada corrida acaba por se tornar uma pequena história emergente. Umas vezes morres cedo, esmagado por uma combinação infeliz de inimigos e terreno. Outras, sobrevives tempo suficiente para transformar o mapa num verdadeiro mar de cadáveres ambulantes sob o teu controlo. O jogo não precisa de longas cutscenes para contar histórias; fá-lo através do caos que tu próprio crias.
Grafismo
Visualmente, Be My Horde aposta numa estética gótica exagerada, quase caricatural, que evita o realismo em favor de uma identidade forte e imediata. As cores são escuras, os cenários estão carregados de sombras e o sangue surge em jorros quase cómicos. Não é terror puro, mas também não é leveza inocente. É uma fantasia sombria com um sorriso perverso no rosto.
Os inimigos têm um design deliberadamente expressivo. Os camponeses parecem condenados desde o primeiro segundo, os cavaleiros impõem respeito e as criaturas demoníacas são grotescas de forma assumida. Há um prazer estranho em ver um inimigo cair e levantar-se segundos depois, agora como parte da tua horda. O mundo reage à presença de Moriana, ficando progressivamente mais corrompido à medida que avanças, o que ajuda a dar a sensação de impacto e progressão.
Este estilo visual não só distingue o jogo de outros títulos do género, como também reforça o tom humorístico. Ver uma ovelha explodir em gore ou um nobre orgulhoso regressar como servo obediente é simultaneamente absurdo e satisfatório. Be My Horde sabe exactamente o que quer ser e nunca pede desculpa por isso.

Som
A componente sonora acompanha perfeitamente o tom do jogo. A banda sonora, composta por Davi Vasc, mistura riffs de heavy metal com uma atmosfera carregada de doom e grandiosidade clássica. A música adapta-se à intensidade das batalhas, aumentando a pressão à medida que a horda cresce e os inimigos se tornam mais perigosos. É uma banda sonora que não tenta passar despercebida; quer ser sentida, quase física.
Um destaque especial vai para a interpretação vocal de Moriana, feita por Amber Lee Connors. A sua performance é venenosa, sedutora e cheia de personalidade. Cada comentário sarcástico, cada provocação lançada aos inimigos, ajuda a construir uma protagonista memorável, algo raro num género onde muitas vezes o personagem principal é apenas um avatar silencioso.
Os efeitos sonoros também cumprem bem o seu papel. O som de corpos a cair, feitiços a serem lançados e hordas a movimentarem-se cria uma paisagem sonora densa que reforça a sensação de caos controlado. Tudo contribui para uma experiência coesa e envolvente.
Conclusão
Be My Horde é um jogo que sabe exactamente qual é a sua proposta e executa-a com confiança. Ao colocar o jogador no papel do vilão e transformar os inimigos em recursos, consegue destacar-se num género cada vez mais saturado. A combinação de humor negro, jogabilidade estratégica e progressão constante torna-o viciante e surpreendentemente satisfatório.
Há repetição, como em qualquer roguelite, mas é uma repetição que se reinventa graças à variedade de builds, perks e situações emergentes. Mesmo após várias horas, continua a haver espaço para experimentar novas abordagens e rir com situações inesperadas. Sendo ainda um título em Early Access, há margem para crescer, mas o que já está presente demonstra uma visão clara e um design bem afinado.
Para quem aprecia comentários sarcásticos, estética gótica carregada de gore estilizado e a ideia de construir um exército a partir dos próprios inimigos, Be My Horde é uma proposta difícil de ignorar. Moriana não quer salvar ninguém. Quer apenas que te juntes a ela, levantes os mortos e abraces o caos. E, surpreendentemente, é muito difícil resistir a esse convite.