Cursed Blood parte de uma premissa curiosa que mistura macacos guerreiros com samurais, uma combinação que à partida parece demasiado absurda para resultar, mas que tem um certo charme imediato. A ideia de controlar primatas armados com katanas num cenário violento e estilizado é suficientemente invulgar para captar atenção. No entanto, aquilo que parece uma proposta leve e até algo caricata rapidamente revela uma experiência bem mais exigente e implacável do que se poderia antecipar.
Desenvolvido pela David Marquardt Studios, responsáveis por Dust & Neon, este título aposta numa abordagem rogue-like carregada de ação e dificuldade. Logo desde o início, fica claro que não estamos perante um jogo indulgente. Há aqui uma identidade muito própria, tanto na forma como apresenta o seu mundo como na forma como desafia o jogador a dominar os seus sistemas. O resultado é um jogo que tanto pode fascinar como frustrar, dependendo da tolerância de cada um para experiências exigentes.
Jogabilidade
A base da jogabilidade assenta numa perspetiva isométrica com controlo twin-stick, onde escolhemos entre quatro macacos samurais distintos e avançamos por cenários repletos de inimigos. O combate é predominantemente corpo a corpo, com ataques rápidos que permitem encadear combos e finalizações, mas também há espaço para o uso de armas secundárias como kunai, que adicionam alguma variedade às abordagens.
Existe uma sensação inicial de acessibilidade. Os primeiros momentos dão a ideia de que estamos perante um jogo relativamente permissivo, onde é possível eliminar inimigos com facilidade, especialmente recorrendo a eliminações furtivas. No entanto, essa perceção rapidamente se desfaz. À medida que avançamos, os inimigos tornam-se mais resistentes, mais agressivos e até capazes de recuperar após aparentes execuções fatais, transformando encontros simples em situações caóticas.
Apesar de não atingir o nível técnico de precisão de títulos mais exigentes dentro do género, há uma clara necessidade de dominar mecânicas como bloquear e desviar ataques. O botão de ataque rápido pode induzir uma tendência para o button mashing, mas isso rapidamente se revela insuficiente. Saber quando defender, contra-atacar ou criar espaço é essencial para sobreviver.
Outro elemento interessante é o sistema de investidas, que permite atordoar inimigos e criar oportunidades para execuções que regeneram vida. Este detalhe torna-se crucial, especialmente porque a recuperação de saúde é limitada e raramente encontrada no ambiente.

Mundo e história
O mundo de Cursed Blood é sombrio, violento e carregado de uma estranheza quase surreal. Assumimos o papel de guerreiros que percorrem zonas decadentes, como docas sujas e ambientes industriais, enfrentando criaturas antropomórficas com personalidades agressivas e linguagem rude. Há uma sensação constante de caos e brutalidade que define o tom do jogo.
A narrativa não é o foco principal, mas existe um enquadramento que justifica a violência constante. O jogador está a realizar sacrifícios para um altar conhecido como Shrine of Vermillion, recolhendo orbes de sangue a cada inimigo derrotado. Estes orbes servem como moeda de progressão, mas também reforçam a ideia de um ciclo ritualístico de destruição.
Este loop de sacrifício e progressão encaixa bem na estrutura rogue-like. Cada tentativa representa mais uma incursão num mundo hostil, onde a morte é inevitável, mas também uma oportunidade de crescimento. A ausência de uma narrativa mais desenvolvida pode afastar quem procura uma história envolvente, mas o ambiente e o contexto são suficientes para sustentar a experiência.
Grafismo
Visualmente, Cursed Blood apresenta um estilo limpo e funcional, com uma direção artística que privilegia a clareza da ação. A perspetiva isométrica permite uma boa leitura geral do campo de batalha, embora nem sempre seja perfeita. Existem momentos em que objetos destrutíveis não são facilmente identificáveis, ou em que o caminho a seguir não é imediatamente evidente.
Os cenários, embora não extremamente variados, conseguem transmitir bem a sensação de decadência e perigo. As docas, em particular, destacam-se pela sua atmosfera suja e opressiva. As personagens e inimigos têm designs distintos, com um toque caricatural que contrasta com a violência gráfica presente nos combates.
Os efeitos de sangue e impacto são um dos pontos mais marcantes, contribuindo para a sensação de brutalidade. Cada golpe tem peso, e isso reflete-se visualmente de forma satisfatória. No entanto, não é um jogo que impressione pelo detalhe técnico, mas sim pela consistência e legibilidade.

Som
O design de som acompanha bem a intensidade da ação. Os efeitos das armas, impactos e execuções são fortes e ajudam a reforçar a sensação de poder em combate. Há uma crueza sonora que combina com o tom violento do jogo.
A banda sonora cumpre o seu papel ao manter um ritmo adequado à ação, embora não se destaque particularmente. Funciona mais como um suporte do que como um elemento memorável. Ainda assim, contribui para manter a tensão e o dinamismo das sessões.
Um detalhe curioso é a forma como os inimigos comunicam, com vozes marcadas por um sotaque cockney e linguagem rude. Este elemento adiciona personalidade ao jogo e reforça o seu carácter irreverente, mesmo que não seja algo central à experiência.
Conclusão
Cursed Blood é um jogo que vive do contraste entre acessibilidade inicial e dificuldade crescente. É fácil pegar nele e começar a jogar, mas dominar os seus sistemas exige dedicação, paciência e alguma resiliência. A estrutura rogue-like incentiva a repetição, com progressão baseada na recolha de orbes de sangue que permitem melhorar armas e desbloquear novas opções.
No entanto, essa progressão pode tornar-se um dos pontos mais frustrantes. A quantidade de tempo necessária para evoluir equipamento é significativa, e pode dar a sensação de um grind excessivo. Ainda assim, há uma recompensa implícita no facto de o jogador melhorar as suas próprias habilidades ao longo do tempo, tornando cada tentativa mais eficiente.
O sistema de perks e maldições acrescenta uma camada estratégica interessante, obrigando a equilibrar vantagens e desvantagens. Esta gestão constante contribui para a profundidade do jogo, mas também aumenta a sua complexidade.
Um dos pontos positivos é a inclusão de cooperação local para até quatro jogadores, algo cada vez mais raro. Esta vertente pode transformar completamente a experiência, tornando-a mais caótica, mas também mais divertida.
No final, Cursed Blood é uma experiência sólida dentro do género rogue-like, marcada por combates fluidos, dificuldade elevada e um loop de progressão viciante. Não é um jogo para todos, especialmente para quem não aprecia desafios exigentes ou sistemas punitivos, mas para aqueles que procuram uma experiência intensa e recompensadora, há aqui muito para explorar.