Numa das primeiras imagens mais memoráveis de Esoteric Ebb, encontramos um baú escondido numa sala recôndita, com um aviso por cima a dizer Não é um mimic. A piada escreve-se praticamente sozinha. Num universo de fantasia, um baú suspeito com uma mensagem destas é quase um convite à desconfiança, e o jogo sabe-o perfeitamente. Essa pequena cena funciona como uma apresentação brilhante daquilo que Esoteric Ebb realmente é: um RPG que parece familiar à primeira vista, mas que encontra prazer em brincar com as expectativas do jogador a cada esquina.
À superfície, é fácil catalogá-lo. Vista isométrica, protagonista desastrado, mistério para resolver, diálogos extensos, escolhas ideológicas, testes de perícia e um tom que oscila entre o absurdo e o filosófico. Tudo isso remete imediatamente para referências muito claras dentro do género. No entanto, Esoteric Ebb não vive apenas da comparação. O que faz é pegar nessa estrutura conhecida e injectar-lhe uma identidade própria, muito marcada por um sentido de humor irreverente, por uma construção de mundo invulgarmente viva e por uma escrita que nunca parece estar apenas a imitar o que veio antes.
A história coloca-nos na pele de The Cleric, uma figura simultaneamente brilhante e patética, enviada pelo magistrado para investigar a explosão de uma casa de chá na cidade de Norvik. A premissa já seria interessante por si só, mas o jogo rapidamente a complica com tensões políticas, conflitos sociais, facções ideológicas e uma galeria de personagens tão estranhas quanto memoráveis. O resultado é uma aventura narrativa que consegue ser cómica, inteligente e surpreendentemente densa sem cair no erro de se tornar pesada.
Esoteric Ebb é um jogo que, apesar da sua excentricidade, sabe exatamente o que quer ser. E o mais impressionante é que quase sempre consegue lá chegar.
Jogabilidade
A base jogável de Esoteric Ebb assenta sobretudo em exploração, diálogo e interpretação de personagem. Não é um RPG de ação tradicional, nem tenta sê-lo. O seu verdadeiro campo de batalha é a conversa, a observação e a forma como escolhemos moldar a identidade de The Cleric ao longo de dezenas de interações.
Logo desde cedo, o jogo deixa claro que o protagonista não é uma personagem fixa. Há uma origem ou contexto inicial que ajuda a definir os seus contornos, mas a verdadeira construção da personagem acontece aos poucos, através das respostas que escolhemos, das posições que assumimos e da forma como reagimos ao mundo. O alinhamento moral, os pontos fortes, as fragilidades e até a direção mágica ou vocacional da personagem vão sendo desenhados em tempo real. Podemos encaminhá-lo para algo mais próximo de um clérigo tradicional, mas também desviá-lo para outras possibilidades, quase como se estivéssemos a reconstruir uma pessoa perdida a partir dos seus cacos.
Essa ideia funciona especialmente bem porque The Cleric é um protagonista deliciosamente falível. O jogo não o apresenta como um herói em ascensão, mas como alguém profundamente desorientado, que já passou por demasiado e precisa urgentemente de rumo. O simples facto de o conhecermos depois de ter sido encontrado morto no fundo de um rio e ressuscitado por uma combinação improvável de mortuário e dentista dá logo o tom de absurdo controlado que domina toda a experiência.
Os testes de perícia são uma parte central da jogabilidade e surgem constantemente nos diálogos e nas situações mais tensas. À semelhança de RPGs de mesa, muitas decisões dependem do lançamento de dados e da forma como os nossos atributos, equipamento ou feitiços influenciam as probabilidades. Magias inspiradas em sistemas clássicos de fantasia, como efeitos equivalentes a Enhance Ability ou Charm Person, ajudam a inclinar a balança a nosso favor, tornando cada preparação tão importante quanto a escolha em si.
O mais divertido é que o jogo não usa estes sistemas apenas como ferramenta mecânica. Muitas vezes, os próprios atributos ganham voz ou presença nas conversas, como se fossem partes da mente de The Cleric a disputar espaço. Isso cria diálogos mais ricos e imprevisíveis, além de reforçar a ideia de que estamos a habitar uma mente fragmentada, cheia de impulsos contraditórios.
O combate, quando surge, não é o foco, mas também não é ignorado. Em vez de grandes sequências visuais ou sistemas de ação complexos, Esoteric Ebb apresenta os confrontos de forma mais textual e interpretativa, apostando no suspense dos lançamentos de dados e nas consequências narrativas. É um sistema coerente com o resto da experiência e, felizmente, o jogo sabe que o seu verdadeiro poder está na escrita, não em tentar competir com RPGs mais tradicionais neste campo.
Há ainda espaço para missões secundárias peculiares e pequenos desvios que enriquecem a experiência. Algumas resolvem-se de forma quase invisível, passando a oferecer benefícios passivos ou vantagens contextuais em futuras interações. Outras são simplesmente bizarras, como o envolvimento numa espécie de esquema em pirâmide relacionado com venda de leite. Esse tipo de humor nunca parece gratuito, porque está sempre ligado à forma como o mundo é construído.

Mundo e história
Se a jogabilidade dá corpo a Esoteric Ebb, é o seu universo que lhe dá alma. Norvik é uma cidade pequena em escala, mas enorme em densidade. Cada rua, cada personagem e cada conversa parecem carregar história, tensão e intenção. O jogo não se limita a usar o cenário como pano de fundo para um mistério. Pelo contrário, faz dele o verdadeiro centro da experiência.
A investigação da explosão na casa de chá é apenas a porta de entrada para algo maior. Norvik encontra-se num momento politicamente explosivo, prestes a votar num referendo que poderá definir o futuro da cidade. O jogo coloca em cima da mesa várias correntes ideológicas e fá-lo com uma confiança rara. De um lado, há os Nacionalistas devotos de Urth, ligados à fundação e à identidade tradicional da cidade. Do outro, surgem os Freestriders, com os seus bolsos fundos e estratégias de influência mais agressivas. E pelo meio aparece ainda a proposta igualitária do Azgalismo, com origem anã, como alternativa disruptiva ao equilíbrio estabelecido.
O mais interessante é que Esoteric Ebb não transforma estas facções em caricaturas vazias. Há sátira, claro, mas também há reflexão genuína. O jogo quer mesmo que perguntemos às pessoas em quem vão votar e porquê. E quer que façamos isso não apenas às personagens centrais, mas também aos figurantes, às vozes marginais, aos excêntricos que vivem nas franjas da cidade. Essa insistência transforma a política em algo vivido, não em mero pano de fundo temático.
As personagens que vamos encontrando ajudam a tornar tudo ainda mais memorável. Snell, o companheiro goblin, é uma presença deliciosa, mas está longe de ser o único destaque. Há um celestial chamado Ettir, uma formiga telepática e muitas outras figuras que parecem saídas de um universo onde a fantasia foi escrita por alguém com demasiado café, demasiado talento e um gosto muito particular pelo ridículo. E ainda assim, quase milagrosamente, tudo faz sentido dentro da lógica interna do jogo.
O mundo da Costa Esotérica é talvez o maior triunfo do jogo. É um cenário de fantasia que recusa a reverência excessiva ao género e prefere tratá-lo como matéria maleável. Aqui, clérigos andam de bicicleta, esfinges bebem vinho de rio no centro de tabernas e existe uma língua dos gatos que é literalmente espanhol. Estas ideias podiam ser apenas piadas descartáveis, mas são apresentadas com convicção suficiente para parecerem parte orgânica de uma cultura maior.
Mais importante ainda, a escrita nunca se perde em exposição cansativa. Há muito worldbuilding, sem dúvida, mas ele surge sempre de forma viva, embutido em conversas, insultos, comentários laterais e situações absurdas. É um mundo rico sem ser maçador, e isso é muito mais raro do que devia.
Grafismo
Visualmente, Esoteric Ebb não tenta competir com os gigantes do género em escala ou detalhe técnico, mas compensa isso com uma direção artística muito forte. A apresentação isométrica encaixa perfeitamente no tipo de experiência que o jogo quer proporcionar e oferece uma leitura clara dos espaços, ao mesmo tempo que reforça aquele charme de CRPG clássico reinterpretado com mais cor e irreverência.
O uso de um estilo visual com shading mais estilizado ajuda bastante a dar personalidade ao universo. Norvik não é apenas funcional enquanto espaço de jogo; é um lugar com identidade. As ruas, os interiores, os subterrâneos e as personagens contribuem todos para uma estética que parece simultaneamente acolhedora e ligeiramente torta. Há sempre qualquer coisa um pouco errada, um pouco deslocada, o que combina na perfeição com o tom do jogo.
O design das personagens merece destaque especial. Muitas das figuras que encontramos são visualmente distintas o suficiente para ficarem na memória, e isso é crucial num jogo tão dependente de diálogo e interação. Quando um universo vive tanto das suas vozes e das suas ideias, é importante que os rostos também tenham presença. Felizmente, Esoteric Ebb consegue isso.
Se há uma limitação mais evidente, ela surge na encenação de certas situações, sobretudo quando o jogo precisa de transmitir impacto através de sistemas menos visuais. Como muito do seu drama e do seu humor vive na escrita, há momentos em que o grafismo funciona mais como suporte do que como força principal. Mas isso não é tanto uma falha como uma consequência da prioridade criativa do projeto. E, sinceramente, raramente se sente como problema.

Som
O trabalho sonoro em Esoteric Ebb serve muito bem o tipo de experiência que o jogo quer construir. Não é uma banda sonora feita para dominar a cena ou para procurar protagonismo, mas antes para criar ambiente, reforçar o humor e acompanhar as mudanças de tom entre o absurdo, o melancólico e o politicamente inflamado.
Há uma sensibilidade interessante na forma como a música e os efeitos ajudam a vender o mundo. Norvik soa habitada. Há uma textura sonora que ajuda a dar peso aos espaços e que contribui para a imersão, sobretudo em momentos mais contemplativos ou mais estranhos. Sendo um jogo onde passamos tanto tempo a conversar, pensar e decidir, o som tem um papel silenciosamente essencial na manutenção do ritmo.
Também se nota que há uma preocupação em não quebrar a identidade tonal do jogo. Esoteric Ebb pode passar de uma piada ridícula para uma reflexão séria sobre poder, moralidade ou fascismo com uma rapidez impressionante, e o trabalho sonoro acompanha essa elasticidade com competência. Nunca parece deslocado, nunca exagera, e isso é fundamental num jogo que vive tanto da escrita.
Talvez não seja uma banda sonora que vá imediatamente para playlists pessoais de muitos jogadores, mas dentro da obra cumpre muito bem a sua função. E, num jogo tão fortemente apoiado em atmosfera e personalidade, isso vale bastante.
Conclusão
Esoteric Ebb é um daqueles jogos que seria muito fácil reduzir a uma comparação rápida. Bastaria apontar as suas influências mais evidentes e seguir caminho. Mas isso seria profundamente injusto. Sim, é um jogo que bebe claramente de obras muito específicas e nem sequer tenta esconder isso. E sim, algumas das suas mecânicas parecem por vezes demasiado próximas dessas referências, sem grandes reinvenções estruturais. Essa talvez seja a crítica mais justa que se lhe pode fazer.
Mas tudo o resto compensa largamente essa familiaridade.
O que Esoteric Ebb faz bem, faz com convicção rara. A escrita é afiada, o humor é genuinamente engraçado, a construção do mundo é excelente e a sua abordagem à política, à identidade e à fantasia consegue ser ao mesmo tempo satírica e surpreendentemente séria. É um jogo que tanto nos faz rir como nos obriga a pensar, e fá-lo sem nunca parecer pretensioso ou perdido em si mesmo.
Mais impressionante ainda é o facto de conseguir oferecer tudo isto num formato relativamente contido. Em menos de 30 horas, constrói um universo rico, dá-nos espaço para roleplay significativo, apresenta personagens memoráveis e ainda deixa vontade de voltar para experimentar outras escolhas, outros alinhamentos e outras formas de atravessar a história. Isso é sinal de um RPG bem desenhado e, sobretudo, de um mundo que apetece revisitar.
Esoteric Ebb não é apenas uma boa homenagem a um certo tipo de RPG narrativo. É também uma afirmação segura de identidade própria. Tal como aquele baú suspeito no início, parece uma coisa à distância, mas esconde muito mais dentes do que se imagina.
Se gostam de RPGs densos, bem escritos e com um sentido de humor fora da caixa, este é um jogo que merece mesmo atenção.