Análise: Starship Troopers Ultimate Bug War

A licença de Starship Troopers é uma daquelas propriedades que, olhando para o seu impacto cultural, devia ter tido uma presença muito mais forte nos videojogos. O romance original continua a ser uma obra de referência da ficção científica militar e o filme de Paul Verhoeven permanece como um clássico absoluto, sobretudo pela forma como satiriza propaganda, militarismo, xenofobia e a transformação da guerra em espetáculo. Mesmo tantos anos depois, continua desconfortavelmente atual. Ainda assim, tirando algumas sequelas menores e várias tentativas pouco memoráveis no mundo dos videojogos, esta série nunca conseguiu construir uma linhagem verdadeiramente sólida.

É precisamente nesse espaço que surge Starship Troopers Ultimate Bug War, um jogo que parece querer recuperar o espírito da franquia e oferecer aos fãs uma fantasia de combate contra enxames intermináveis de aracnídeos alienígenas. A ideia, à partida, tem potencial mais do que suficiente. Afinal, poucos universos parecem tão naturalmente adequados a um shooter frenético e exagerado. O problema é que, apesar da base ser forte, Ultimate Bug War raramente consegue transformar essa promessa em algo realmente memorável.

Desenvolvido pela Auroch Digital, estúdio que recentemente ganhou atenção pelo competente Warhammer 40,000: Boltgun, este novo projeto traz consigo algumas semelhanças evidentes com esse jogo. Há uma energia de shooter retro, uma tentativa de recuperar a simplicidade mais crua do género e um foco constante na ação. No entanto, onde Boltgun tinha identidade, brutalidade e um sentido de poder constante, Ultimate Bug War parece sempre preso entre aquilo que quer ser e aquilo que realmente consegue entregar. O resultado é um jogo que vive muito da nostalgia, da licença que carrega e de alguns momentos pontuais de fan service, mas que raramente se afirma como algo verdadeiramente forte por mérito próprio.

Jogabilidade

A estrutura jogável de Starship Troopers Ultimate Bug War assenta num formato de shooter na primeira pessoa com missões relativamente curtas, normalmente a rondar os 30 minutos, em que o objetivo passa por atravessar zonas infestadas, completar tarefas e sobreviver a vagas constantes de inimigos. Na prática, a fórmula é simples e até funcional, mas a sua execução deixa bastante a desejar.

A primeira sensação que o jogo transmite é a de vulnerabilidade. Ao contrário de tantos shooters modernos, ou até do já referido Boltgun, aqui não encarnamos uma máquina imparável de destruição. Somos um soldado humano relativamente frágil, facilmente cercado, rapidamente esmagado por números e constantemente pressionado pela escassez de recursos. Em teoria, isto até podia funcionar como elemento diferenciador. Há uma lógica interessante em fazer-nos sentir como mais um corpo descartável numa guerra desumana. O problema é que essa fragilidade raramente se traduz em tensão estratégica; muitas vezes apenas se sente como frustração.

O arsenal inclui as armas esperadas para este tipo de cenário: espingardas de assalto, lança-foguetes e outras ferramentas de destruição mais pesadas. No entanto, o gunplay nunca tem o impacto que devia. Falta peso aos disparos, falta satisfação ao contacto e falta aquela sensação de poder que ajuda este género a funcionar. Trocar de arma acaba por ser, na maioria das vezes, menos uma decisão tática e mais uma necessidade imposta pela falta de munições, algo que acontece com demasiada frequência.

O jogo tenta também expandir a experiência com habilidades de apoio, como ataques aéreos, drops de abastecimento e até a possibilidade de chamar um mech. À primeira vista, são elementos promissores. Na prática, voltam a cair na mesma armadilha: parecem mais interessantes no papel do que na execução. Os mechs, por exemplo, deviam ser momentos de puro caos glorioso, mas acabam por saber a pouco, sobretudo porque a sua autonomia é tão limitada que mal há tempo para aproveitar a fantasia de poder.

Outro problema relevante está no design das missões. Apesar do número elevado de insetos inimigos e da pressão constante que exercem, a melhor estratégia em muitos momentos não é resistir, limpar a área e dominar o campo de batalha. É simplesmente correr até ao próximo objetivo. Isso retira muito da identidade que se esperaria de um shooter deste tipo. Há algo de profundamente errado quando enfrentar o combate de frente parece menos eficaz do que ignorá-lo quase por completo.

Como se isso não bastasse, o jogo inclui ainda missões em que controlamos os próprios bugs, vendidas como uma das suas grandes novidades. Infelizmente, estas acabam por ser, sem grande exagero, uma das piores partes da experiência. A ideia de inverter perspetivas e jogar do lado dos inimigos podia ter sido excelente, mas o resultado é um conjunto de níveis com controlos pouco agradáveis, quase nenhuma variedade e uma componente tática extremamente superficial. Controlamos um assassin bug com algumas transformações e a possibilidade de reunir mais unidades, mas tudo se resume a avançar, atacar e repetir. Não há profundidade suficiente para justificar a mudança de formato, nem diversão suficiente para a tornar memorável.

Mundo e história

Se há uma área onde Starship Troopers Ultimate Bug War consegue manter algum interesse, é na forma como procura recriar o universo da série. Não porque conte uma grande história, mas porque entende razoavelmente bem a iconografia e a linguagem deste mundo.

A campanha coloca-nos num simulador de treino militar baseado na carreira do Major Sammy Dietz, uma personagem nova criada para esta aventura. Este enquadramento funciona como desculpa para revisitar vários cenários e momentos inspirados na mitologia da franquia, quase como uma viagem guiada pelos maiores destaques de Starship Troopers. Não é propriamente uma narrativa profunda ou especialmente ambiciosa, mas serve o seu propósito dentro da proposta do jogo.

O grande destaque está claramente na presença de Casper Van Dien, que regressa ao papel de Johnny Rico, agora numa versão mais endurecida, transformada num general marcado pela guerra. É um daqueles detalhes que não muda a qualidade estrutural do jogo, mas ajuda bastante a vender a autenticidade da experiência. Há um prazer imediato em ouvir e ver uma figura tão associada ao imaginário da série regressar ao ativo, e isso dá algum peso emocional a uma campanha que, de outra forma, poderia parecer demasiado descartável.

Também merece menção a tentativa de recuperar o tom propagandístico do filme original, através de segmentos intermédios que imitam o tipo de comunicação militarista e publicitária que ajudou a definir a identidade satírica de Starship Troopers. Infelizmente, mais uma vez, a ideia é melhor do que o resultado. Esses momentos existem, e a sua inclusão é bem-vinda, mas falta-lhes mordacidade, produção e confiança. Em vez de parecerem uma extensão inteligente do universo, acabam muitas vezes por soar a paródia tímida de algo que já era, por si só, uma sátira.

Ainda assim, o jogo pelo menos entende que Starship Troopers não é apenas sobre disparar contra monstros. Há uma tentativa, ainda que superficial, de lembrar o jogador que este universo sempre viveu da relação entre espetáculo militar e crítica social. O problema é que essa dimensão nunca é verdadeiramente explorada. Está presente como decoração, não como substância.

Grafismo

Visualmente, Starship Troopers Ultimate Bug War é um jogo inconsistente. Há algumas escolhas estilísticas interessantes, mas o resultado final raramente impressiona.

Uma das decisões mais distintivas é o contraste entre os soldados humanos, representados em sprites 2D, e os bugs, modelados em 3D. Essa mistura cria uma identidade visual própria e até ajuda a reforçar um certo sabor retro que combina bem com a proposta geral do jogo. No entanto, essa mesma personalidade visual perde-se rapidamente quando começamos a olhar para os cenários e para a construção do mundo.

Grande parte das áreas é genérica, vazia e pouco memorável. Existem alguns momentos em estruturas maiores e secções mais verticais que ajudam a quebrar a monotonia, mas a maioria da campanha decorre em espaços abertos pouco inspirados, com demasiado vazio entre objetivos. Isso não só prejudica o ritmo como enfraquece a sensação de estar num universo militar futurista cheio de identidade. Faltam ambientes que contem histórias, falta arquitetura marcante e falta uma visão artística mais consistente.

Os bugs, por outro lado, acabam por ser o elemento visual mais interessante. Há cerca de uma dúzia de tipos diferentes, e embora nem todos sejam visualmente extraordinários, existe variedade suficiente para manter a ação minimamente fresca. Algumas criaturas maiores, como os Tankers e Titans, conseguem impor-se no ecrã e criar momentos de maior intensidade, especialmente quando surgem em conjunto com enxames de inimigos menores.

Ainda assim, o jogo sofre com uma apresentação global que parece um passo atrás face ao trabalho anterior do estúdio. Em vez de evoluir, parece por vezes um projeto mais modesto, mais apressado e menos polido. Não é um desastre visual, mas também nunca se aproxima do tipo de espetáculo que esta licença merecia.

Som

O trabalho sonoro de Starship Troopers Ultimate Bug War é funcional, mas raramente memorável. Cumpre a sua função básica de apoiar a ação, reforçar a presença dos inimigos e manter a fantasia militar em andamento, mas dificilmente se destaca como um dos pontos fortes da experiência.

Os efeitos sonoros das armas fazem o suficiente para transmitir o caos do combate, embora sofram do mesmo problema do gunplay em geral: faltam impacto e personalidade. Disparar devia soar mais agressivo, mais brutal, mais satisfatório. Em vez disso, há uma certa neutralidade sonora que enfraquece o prazer imediato do combate.

Os bugs, por sua vez, ajudam um pouco mais a vender o ambiente, com ruídos e gritos que criam alguma pressão durante os confrontos mais intensos. Quando o ecrã se enche de inimigos e a ação acelera, o som consegue contribuir para a sensação de cerco e desespero, mesmo que o resto do jogo nem sempre capitalize isso da melhor forma.

Na vertente musical, a banda sonora acompanha a ação sem grande protagonismo. Está lá para sublinhar momentos de tensão e urgência, mas nunca se afirma como um elemento verdadeiramente marcante. Fica-se com a sensação de que faltou uma abordagem mais ousada, mais militarista ou até mais satírica, algo que ajudasse a reforçar a identidade da série.

Onde o som ganha mais valor é precisamente na componente de fan service. O regresso de Casper Van Dien traz consigo uma camada adicional de autenticidade, e a sua presença vocal ajuda a ligar esta experiência ao imaginário clássico da franquia. Não salva o conjunto, mas sem dúvida acrescenta-lhe algum carisma.

Conclusão

Starship Troopers Ultimate Bug War é um jogo frustrante, não porque seja completamente desastroso, mas porque deixa constantemente a sensação de que podia ter sido muito mais. A base está lá: uma licença fortíssima, um universo com identidade própria, uma proposta de shooter de enxames que faz sentido e alguns detalhes de apresentação capazes de entusiasmar qualquer fã da série. Mas quase tudo o que faz acaba por ficar a meio caminho.

O combate não tem o impacto necessário, as missões tornam-se repetitivas depressa, os níveis carecem de inspiração e as secções em que controlamos os bugs são genuinamente fracas. Mesmo a campanha principal, sendo relativamente curta, nunca atinge o nível de espetáculo ou intensidade que a premissa prometia. É um jogo que parece montado com competência suficiente para existir, mas não com ambição suficiente para se destacar.

Isso não significa que não exista aqui algum valor para fãs dedicados de Starship Troopers. Há prazer em revisitar este universo, em enfrentar vagas intermináveis de aracnídeos e em ver certas referências tratadas com algum respeito. O problema é que isso não chega para sustentar a experiência durante muito tempo, nem para a transformar em algo recomendável fora de um nicho muito específico.

No fim, Ultimate Bug War acaba por soar menos a grande regresso de uma franquia adormecida e mais a um projeto de transição, quase como um desvio de produção entre ideias mais fortes. Tem momentos competentes, alguns apontamentos simpáticos e uma camada de autenticidade que ajuda a mantê-lo de pé, mas nunca consegue escapar à sensação de produto menor. Para um universo tão rico em potencial, isso sabe inevitavelmente a pouco.

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