Análise: Sunken Sky

Num passado marcado por um conflito interminável, o mundo de Sunken Sky foi moldado por decisões desesperadas. A guerra terminou, mas não sem consequências profundas, deixando um rasto de destruição e um legado emocional difícil de ignorar. É neste cenário que acompanhamos um trio improvável de protagonistas: uma rapariga sem nome em busca de atravessar reinos, um sobrevivente atormentado pela culpa e um nobre com algo a provar. As suas jornadas cruzam-se lentamente, num enredo que tenta equilibrar leveza com temas mais introspectivos como redenção, identidade e esperança.

Sunken Sky apresenta-se como uma mistura de metroidvania com elementos de JRPG, prometendo exploração, progressão de personagens e uma narrativa envolvente. No entanto, essa ambição nem sempre se traduz numa experiência coesa. Apesar de um mundo visualmente apelativo e de uma premissa interessante, o jogo revela algumas fragilidades que afetam o ritmo e o envolvimento do jogador.

Jogabilidade

A jogabilidade assenta sobretudo na alternância entre personagens com habilidades distintas. Sol, a primeira personagem, combate de perto com uma espada e possui um dash versátil que permite movimentação em várias direções. Mona, por outro lado, oferece uma abordagem mais estratégica, atacando à distância com arco e podendo invocar uma rocha que serve tanto de defesa como de plataforma. A sua capacidade de escalar paredes livremente torna-a especialmente útil na exploração.

Inicialmente separadas, as personagens avançam em lados opostos do mapa até se encontrarem, momento a partir do qual o jogador pode alternar entre elas livremente. Esta mecânica introduz variedade, tanto no combate como na navegação, mas nunca atinge o nível de profundidade esperado num metroidvania mais robusto.

O combate, curiosamente, acaba por ser secundário. Muitos inimigos podem ser evitados e derrotá-los raramente traz recompensas. Não há dinheiro, itens ou progressão direta associada aos combates, o que reduz drasticamente o incentivo para enfrentar inimigos. Além disso, não existe dano por contacto, apenas durante animações de ataque, o que torna muitos encontros pouco desafiantes ou até irrelevantes.

A escolha de dificuldade existe, com um modo fácil mais permissivo, mas o modo normal já oferece um equilíbrio aceitável. Importa referir que o conteúdo é o mesmo em ambas as opções, o que é positivo para quem procura ajustar a experiência sem perder nada.

Mundo e história

O mundo de Sunken Sky é composto por várias áreas interligadas, seguindo uma estrutura típica do género. Montanhas perigosas, florestas encantadas e cavernas profundas oferecem diversidade visual e potencial para exploração. O mapa expande-se gradualmente à medida que descobrimos novas salas, com indicadores visuais que mostram caminhos ainda por explorar.

A narrativa tem um papel relevante, com muitos diálogos e cenas apresentadas através de ilustrações estáticas. Existe um cuidado evidente na forma como a história é transmitida, com personagens que têm algo a dizer e um mundo que tenta parecer vivo.

No entanto, um dos maiores problemas surge na falta de direção. O jogo raramente indica ao jogador o que fazer a seguir. Não há objetivos claros, marcadores ou pistas suficientes. Em muitos momentos, o progresso depende de encontrar itens ou interagir com elementos que não são devidamente sinalizados. Isto pode levar a longos períodos de frustração, onde o jogador vagueia sem rumo, sem perceber o que está a fazer de errado.

O backtracking torna-se inevitável e, pior ainda, excessivo. Embora existam pontos de viagem rápida sob a forma de cavernas, a sua distribuição é inconsistente. O exemplo mais gritante é a aldeia principal, que não possui qualquer ponto de acesso rápido, obrigando a percorrer várias áreas sempre que se pretende regressar.

Grafismo

Visualmente, Sunken Sky é um dos seus pontos mais fortes. O jogo aposta num estilo artístico desenhado à mão, com centenas de ilustrações que acompanham a jornada. Estas imagens surgem sobretudo nas cenas narrativas e no diário, onde são registados inimigos e personagens.

Os ambientes são coloridos e variados, com um charme que ajuda a manter algum interesse mesmo quando a jogabilidade vacila. Cada área tem identidade própria, e há um esforço claro em criar um mundo visualmente coeso e apelativo.

No entanto, essa beleza nem sempre é acompanhada por funcionalidade. Apesar de o mapa ser relativamente claro, há momentos em que elementos importantes não se destacam o suficiente, contribuindo para a tal sensação de desorientação. Ainda assim, no geral, o grafismo cumpre bem o seu papel e eleva a apresentação do jogo.

Som

A componente sonora acompanha de forma competente, embora sem grande destaque. A música encaixa bem no tom leve e por vezes melancólico da narrativa, ajudando a criar ambiente sem se tornar memorável. Não há temas particularmente marcantes, mas também não há falhas evidentes.

Os efeitos sonoros são funcionais, servindo o combate e a exploração de forma adequada. Tal como o resto do jogo, o som parece cumprir os mínimos sem nunca se destacar verdadeiramente.

Conclusão

Sunken Sky é um jogo com boas intenções e alguns elementos interessantes, mas que acaba por não atingir o seu potencial. A mistura de metroidvania com JRPG poderia resultar numa experiência rica e envolvente, mas a execução deixa a desejar em vários aspetos fundamentais.

A ausência de recompensas no combate retira motivação, enquanto a falta de direção clara compromete seriamente o ritmo do jogo. A exploração, que deveria ser um dos pilares da experiência, torna-se muitas vezes frustrante devido ao backtracking excessivo e à dificuldade em perceber o que fazer a seguir.

Ainda assim, há qualidades a reconhecer. O grafismo é apelativo, a narrativa tem momentos interessantes e o sistema de personagens oferece alguma variedade. Existem também pequenos detalhes, como o diário ilustrado, que demonstram cuidado e dedicação por parte dos criadores.

No entanto, para fãs do género metroidvania, a experiência pode saber a pouco. Os elementos característicos estão presentes, mas de forma demasiado básica para se destacarem. Já para quem valoriza mais a narrativa e o ambiente, poderá haver aqui algo a apreciar, desde que exista paciência para lidar com as suas falhas.

Sunken Sky é, no fundo, um jogo que mostra potencial, mas que se perde na execução. Um mundo interessante, personagens com identidade e uma apresentação cuidada não são suficientes para compensar problemas estruturais que afetam a experiência de forma significativa.

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