Análise: Liberated

Um jogo pode ter um aspeto incrivel e não ser um jogo propriamente bom, assim como o oposto. Existem jogos que devido ao seu aspeto eu gostaria de realmente gostar, mas que por esta ou aquela razão não me conseguiram impressionar. Lembro-me por exemplo de Towaga: Among Shadows que passou pelas minhas mãos muito recentemente, um jogo que tinha tudo para ser fenomenal mas a simplicidade e repetição da jogabilidade não o deixaram sonhar mais alto. Liberated pode não sofrer exatamente dos mesmos problemas e é um jogo mais completo mas acaba por deixar também muito a desejar.

A premissa de Liberated é realmente interessante. Sendo V for Vendetta um dos meus filmes favoritos não pude deixar de notar bastantes semelhanças. Para ser muito sincero, não li o suficiente sobre o processo de criação de Liberated para saber com certeza quais foram as fontes de inspiração para o jogo mas era capaz de apostar umas notas de como V for Vendetta se encontra entre elas. No futuro o mundo tornou-se ainda mais corruto e fascista. A população vive sob o controlo do governo e os dissidentes são investigados e até assassinados. A nossa personagem é o filho de um dos principais responsaveis por o mundo ter chegado a este estado e que utiliza os seus conhecimentos informáticos para combater o governo.

A história de Liberated segue praticamente o molde do material que lhe serve de inspiração e é contada de forma brilhante. Tal como referi acima mas talvez não de forma direta, a apresentação de Liberated é fenomenal. O jogo funciona basicamente como uma banda desenhada, em que todo o jogo se foca numa das células que podem ser animadas para contar uma pequena parte da história, ou jogáveis. Todo o jogo se passa olhando para uma célula de cada vez e a arte do jogo está ao nível do melhor da banda desenhada. Sendo muito sincero se o criador desta arte tivesse simplesmente lançado Liberated em formato comic acho que ia vender bem melhor do que como jogo, até porque é na parte jogável que Liberated menos impressiona.

A jogabilidade nas áreas jogáveis é simples e não tem muita profundidade. Basicamente o jogo é um sidescroller de ação com alguns elementos de ação furtiva. Antes demais vou dizer que a ação furtiva está praticamente limitada à dificuldade mais alta do jogo, já que na dificuldade mais fácil podemos simplesmente correr e disparar como se estivessemos a jogar Metal Slug. Infelizmente eu acho que nenhum jogador nesta situação não preferia estar a jogar Metal Slug. Em talvez noventa por cento das situações o combate desenrola-se da seguinte forma. O jogador corre da esquerda para a direita até aparecer do lado direito um pequeno sinal de uma lanterna e nesse momento move o analógico direito para disparar numa zona mais ou menos a meio do ecrã e mal vê um inimigo dispara, o que normalmente resulta num tiro na cabeça.

Quando a dificuldade do jogo é um pouco mais alta temos de utilizar sistemas furtivos para conseguir avançar. Podemos esconder-nos no cenário e ter cuidado para que o inimigo não nos veja de fora do ecrã, mas no nível de dificuldade mais baixo nada disto é sequer necessário. Isto não quer dizer que o jogo não fique melhor por isso já que utilizar os sistemas furtivos tornem o jogo mais lento e frustrante. Além disso o jogo não utiliza um sistema de vida tradicional que normalmente encontramos neste género, mas sim algo mais parecido com o sistema de danos de um FPS, onde depois de sermos feridos temos apenas de aguentar um pouco e voltamos a estar prontos para mais um combate.

Quando não estamos a jogar diretamente nestes níveis sidescroll estamos em cutscenes e aqui também temos alguns momentos interativos. Por vezes temos cenas com quicktime events que é algo que por vezes é necessário, mas neste caso não me parece ser a melhor solução. Uma destas cenas  por exemplo envolve conduzir um carro enquanto outra personagem dispara e o jogador apenas tem de carregar em teclas que vão aparecendo no ecrã. Esta cena poderia ser perfeitamente mais jogável do que aquilo que é. Tendo em conta os primeiros 30 minutos do jogo eu preferia mil vezes conduzir um carro ou disparar numa perseguição do que fazer o que o jogo me deu para fazer.

Além disso existem algumas escolhas a fazer durante as cutscenes, mas nenhuma delas influência muito a história do jogo. Podemos ocasionalmente jogar uma parte diferente do jogo mas a história em si mantém-se no mesmo percurso. Nas áreas jogáveis existem ainda pequenos puzzles que são geralmente simples mas divertidos de completar. Liberated consegue ter alguma variedade e misturar bem as suas componentes no decorrer do jogo, no entanto é naquilo que o define realmente como jogo que poderia ser melhor. As áreas em sidescroll são simples e a jogabilidade repetitiva devido à fraca IA e design dos níveis.

Liberated vale essencialmente pela história e apresentação. Se olharmos para Liberated exclusivamente pela sua componente Visual Novel então temos aqui algo realmente interessante. É realmente pena que as áreas jogáveis não acompanhem a qualidade da sua arte e história. Isto pode parecer duro para um jogo do qual eu gostei, mas também consigo perceber que a sua jogabilidade não irá agradar aos fãs do género, apesar de valer a pena jogar Liberated por tudo o resto.

Tiago Roque

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