Análise: Metamorphosis

Metamorphosis é um curto jogo sobre ser um inseto. Para dizer a verdade não é bem isso, mas sim um jogo sobre ser inseto baseado no livro de Franz Kafka, A Metamorfose, um clássico da literatura que serve de inspiração aqui. Não levem no entanto isto muito a sério já que a inspiração é leve e esta não é uma adaptação da obra, que diga-se não seria fácil adaptar a um videojogo. 

Visualmente Metamorphosis é bastante elaborado e tem certamente uma alma bastante própria, especialmente quando consegue dar ao jogador uma ideia de escala fenomenal. God of War e Shadow of Colossus sempre conseguiram dar uma ideia de escala fenomenal, mas com o humano em tamanho normal, aqui a ideia de escala é diferente mas igualmente brilhante. Infelizmente é um jogo curto que não tem nem de longe nem de perto a complexidade da obra que lhe dá origem. No entanto há muito para gostar aqui, desde que se saiba o que esperar do jogo.

Enquanto que na obra original Gregor Samsa, a personagem principal, acorda um dia e descobre que se transformou num insecto, aqui ele acorda normalmente e passado pouco tempo encolhe e transforma-se num insecto. O jogo é bastante transparente no que toca à sua fonte de inspiração, no entanto não podia estar mais longe na maioria dos pontos narrativos, algo que penso ser uma escolha bastante consciente para que o jogo funcione em termos de jogabilidade. A história do jogo vê Gregor a ser encaminhado para uma organização chamada de “Torre” que lhe garante ser sua única chance de voltar a ser humano e a maior parte do jogo vê Gregor a tentar chegar lá e a recolher a documentação que lhe permite lá entrar. Apesar de não chegar perto de abordar os temas do livro, o jogo tem diálogos bem escritos e a história em si é interessante que nos leva a lugares onde a jogabilidade pode funcionar, assim como visualmente existe espaço para explorar. Existem dois fins para descobrir mas nenhum deles realmente faz com que o jogo não pareça um pouco apressado já que o jogo acaba na altura em que estava realmente a ficar bom.

Já falei anteriormente da jogabilidade e de que os locais podem fazer a jogabilidade funcionar, mas jogabilidade não é propriamente algo que abunde no jogo. Quando digo que a jogabilidade funciona nestes locais é porque podemos apreciar o sentimento de escala que o jogo explora realmente bem, mas mecanicamente este é pouco mais do que um “walking simulator”. Digo pouco mais porque não é tão simples como andar e ainda bem. Como já referi a nossa personagem é para todos os efeitos um insecto e move-se como um. Podemos saltar alto e subir superfícies muito inclinadas. Apesar de não termos nada para atacar e estar longe de ser um jogo de plataformas ou de ação é um jogo que oferece mais do que simplesmente andar. Existem alguns puzzles que são simples e as zonas de plataformas que existem são sólidas. A realidade é que o jogo poderia ter apostado bem mais nestes elementos já que onde eles aparecem podemos ver que a jogabilidade do jogo é realmente boa já que plataformas num jogo na primeira pessoa não são fáceis de fazer, especialmente fazê-los funcionar bem.

É realmente pena que o jogo não aposte mais nestes elementos já que na maioria do tempo vamos apenas caminhar de A para B com a ajuda de uma ferramenta de zoom que nos mostra para onde temos de ir. Normalmente é fácil encontrar o caminho mas encontrar o caminho é talvez o maior puzzle que não é puzzle aqui, já que o local para onde temos de ir aparece realçado mas encontrar o caminho é a nossa tarefa. O objectivo de irmos de A para B é também normalmente encontrar algo ou ir buscar e trazer um objeto. Esta é a parte menos conseguida do jogo e para um jogo tão bem escrito deixa aqui muito a desejar em termos de imaginação.

Metamorphosis é um jogo interessante que pode não oferecer muito em termos de jogabilidade mas compensa o jogador com o seu mundo. Visualmente já referi o efeito de escala, mas o próprio design do jogo é interessante, com um visual cartoon reminescente de Tim Burton. A atenção ao detalhe e de escala fazem com que simplesmente andar pelo mundo valha a pena. Infelizmente a boa escrita dos diálogos não transborda para a história já que o curto jogo nunca elabora muito aquilo que tinha potencial para elaborar.

Tiago Roque

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