Análise: Booth: A Dystopian Adventure

Quem jogou Papers, Please irá certamente encontrar a sua influência aqui quando começar a jogar Booth. Papers, Please teve um grande impacto na industria quando foi lançado e foi inspirando outros criadores aqui e ali, mas dos jogos inspirados por ele, aquele que me passou pelas mãos que mais elementos foi buscar foi sem dúvida: A Dystopian Adventure. Desde o visual à jogabilidade, Booth é um jogo muito semelhante, mas com uma temática mais futurista.

As semelhanças entre Booth: A Dystopian Adventure e Papers, Please são tantas que se torna praticamente impossível não fazer comparações entre os dois. Apesar da capa futurista até a temática dos dois é semelhante, ou pelo menos toda a envolvente da nossa personagem. Enquanto que Papers, Please nos colocava no controlo de uma fronteira num país dominado por um regime totalitário, Booth: A Dystopian Adventure coloca-nos a inspecionar comida, presos numa cabine aérea, para assegurar que apenas a comida correta chega à cidade de Iden. Também o governo aqui é opressivo, mas neste caso em vez de inspirado por alguma ditadura comunista temos uma crise de falta de comida a dar força ao governo.

A jogabilidade entre os dois jogos é também muito semelhante. O jogador em Booth: A Dystopian Adventure tem de arrastar cada comida que vai passando numa correia transportadora para uma balança para a pesar e num outro aparelho para lhe detetar a cor. Depois precisa de ser descontaminada e ver as bactérias. Tal como em Papers, Please vão sendo adicionadas novas regras no decorrer dos dias e com o tempo o jogo vai ficando mais e mais desafiante. O número de variáveis que temos de ter em atenção aumenta e muito, mas o número de erros que podemos cometer mantém-se inalterado e se quisermos uma boa pontuação, o número de erros que podemos cometer é exatamente zero.

O jogo começa por nos dar alguma história de fundo, mas nunca entra em muitos detalhes. Pode parecer estranho estar a seleccionar comida com critérios tão arbitrários quando o mundo passa fome, mas tudo no jogo parece ser uma crítica ao mundo atual ou fazemos um pouco o mesmo. Enquanto nós no mundo ocidental deixamos de comer uma refeição porque o tempero não está perfeito ou porque está um cabelo na beira do prato, milhares de pessoas estão a passar fome e penso que Booth: A Dystopian Adventure está a pegar nessa ideias e a levar ao extremo.

Booth: A Dystopian Adventure também pega no melhor que a ficção distópica tem para oferecer e cria a sua versão. Existe um sentimento de claustrofobia no jogo já que todo ele se passa na cabine e também existe uma série de sentimentos de paranoia já que apesar de estarmos num mundo a passar fome e aparentemente estarmos a escolher a comida saudável e não contaminada pela poluição, nem sempre é óbvio que estejamos a fazer o que está certo, novamente indo buscar uma certa ideia de revolução e luta que Papers, Please também utilizou. A história logo nos leva a escolher a melhor comida para as pessoas importantes da sociedade enquanto que o resto fica para o “povo”, criando uma maior divisão de classes. Para tornar tudo pior a qualidade da comida que fica para a maior da população vai piorando com o tempo.

Tal como Papers, Please a nossa personagem começa por fazer parte dos trabalhadores do governo, sem qualquer agenda de mudar o que quer que seja, mas logo isso muda e passa a fazer parte de um grupo revolucionário, subindo no grupo e sendo parte integral deste. A localização onde o jogo se passa nunca muda muito, mas por vezes o aspeto da cabine muda um pouco para dar a entender que estamos num local diferente.

Visualmente Booth: A Dystopian Adventure é também semelhante a Papers, Please, mas apenas no estilo pixel-art utilizado, já que enquanto que Papers, Please era inspirado pelos regimes totalitários de leste sem cor, Booth: A Dystopian Adventure é muito mais colorido. Continuando no tema da apresentação, Booth: A Dystopian Adventure tem uma banda sonora a condizer e que assenta perfeitamente no jogo, sem nenhuma música memorável mas que encaixa na perfeição na estética e temática.

Booth: A Dystopian Adventure não irá ser um jogo marcante para a indústria como Papers, Please foi já que lhe falta o factor inovador que Papers, Please teve. No entanto não deixa de ser um jogo fenomenal que pega no melhor do jogo que o inspirou, adiciona novos elementos como o sistema de energia onde temos de comprar comida e podemos também comprar outros itens para decorar a cabine através de um catálogo e transporta tudo isso para uma temática ligeiramente diferente e num mundo futurista que lhe dá espaço para adicionar cor e tornar-se visualmente distinto. Por tudo isto se não jogaram Papers, Please, Booth: A Dystopian Adventure é uma boa alternativa, no entanto deveriam começar pelo jogo que o inspirou. Caso tenham jogado Papers, Please e gostado irão de certeza adorar Booth: A Dystopian Adventure.

Tiago Roque

Leave A Comment