Análise: Death Stranding

Hideo Kojima é um dos nomes mais conceituados da indústria, sendo o seu imaginário por vezes louco mas demonstrando sempre uma criatividade imensa. Conhecidos são também os seus problemas com a Konami que resultaram a sua saída. Da sua saída resultou agora Death Stranding, o resultado de um jogo saído a imaginação de Kojima sem as amarras que em tempos podem ter limitado a sua imaginação. Death Stranding é realmente um jogo recheado de imaginação e além de ser um jogo impressionante e diferente de tudo o que existe, é um jogo que nos deixa com uma ideia muito forte de “como é que alguém conseguiu pensar nisto”.

Visualmente este é um jogo simplesmente brilhante, especialmente no PC onde o jogo consegue ir um pouco além do que foi na PS4 Pro onde já é deslumbrante. Se não ficarem de queixo caído com as suas personagens que recriam com um detalhe praticamente sem precedentes caras como a de Norman Reedus e Guillermo Del Toro então os cenários certamento irão fazê-lo. A história é complexa e estranha mas altamente cativante, falando de uns Estados Unidos da América completamente quebrados, cabendo ao jogador resolver a situação. Dado o estado do maior país do mundo esta não é uma tarefa fácil e percebemos o drama pelas personagens do jogo. Tudo no início é vago e não percebemos exatamente o que causou o estado atual do mundo, apenas que tem algo a ver com os mortos e umas criaturas que não conseguimos ver.

Mais do que um grande plano para salvar o mundo, a história de Death Stranding é sobre salvar pessoas e unir uma civilização à beira do fim. Reconstruir o país implica ligar as pessoas e Sam Porter Bridges, a nossa personagem, é basicamente um estafeta futurista que consegue sentir a presença dos misteriosos monstros que ameaçam o mundo. A maior parte das pessoas não se aventura muito além da sua casa a nossa personagem é uma das poucas pessoas capazes de conectar a população. Basicamente fazemos entregas mas estas entregas nunca são uma tarefa fácil. O principal perigo para a carga logo no início é o terreno em si já que a principal caracteristica da jogabilidade é que precisamos de manter o equilíbrio, algo que nem sempre é fácil de fazer. Death Stranding poderia ser descrito como um “walking simulator” mas além de ter uma história fantástica e um bom mundo para explorar a propria jogabilidade trata simplesmente andar como um minijogo e manter a carga intacta num terreno complicado é difícil.

Além do terreno há outros perigos que encontramos pelo caminho. Existem os monstros, chamados BTs, que nos obrigam a ser muito cautelosos e existe a chuva. A chuva não é uma chuva qualquer, mas sim Timefall, uma chuva que acelera o evelhecimento e corrói quase tudo onde toca. Ficar demasiado tempo nesta chuva pode destruir a carga que transportamos mas se começarmos a correr e sem cuidado podemos fazer exatamente o mesmo ao cair, por isso é essencial manter os dois gatilhos pressionados para que a Bridges não deixe cair a carga.

Quando finalmente entregamos a carga somos normalmente recebidos por um holograma e recebemos uma espécie de feedback em forma de likes como se se tratasse de uma rede social. Recebemos inclusive uma página onde podemos ver em que áreas recebemos mais likes e no fim todos estes likes são convertidos para algo que podemos realmente utilizar como em aumentar a carga que podemos levar e o equilibrio da personagem. Também o local onde fazemos as entregas se desenvolve quando fazemos uma entrega e todo o sistema se baseia em quanto mais de nós damos mais recebemos em troca,, seja em itens ou simplesmente gratidão.

O número de entregas que fazem avançar a história são muito poucos quando comparado com o aparente número de entregas infinitas que podemos fazer fora da história e há algo de realmente gratificante em fazer uma entrega bem sucessida. Há muita coisa no jogo que não muito sentido se pensarmos nelas de forma racional e realista, no entanto fazem todo o sentido de uma perspectiva de jogabilidade. O jogo permite por exemplo imprimir cordas e escadas quando estamos ligados a um terminal ligado à rede, o que é extremamente útil. Podemos também imprimir uma impressora portátil assim que tivermos a maquete para a imprimir e que imprimir estruturas muito importantes quando começamos a utilizar veiculos e exoesqueletos. O jogo tem ainda uma componente online que é crucial para o nosso sucesso já que apesar de não vermos outros jogadores vemos o seu impacto no mundo já que vemos estruturas e objectos deixados por eles. Podemos inclusive encontrar carga perdida por outros jogadores e fazer a entrega por eles por exemplo e os outros jogadores podem fazer o mesmo por nós.

As primeiras horas de jogo são um pouco lentas já que não temos acesso a um role de opções e componentes. Maior parte do que fazemos é demasiado manual comparado com o que fazemos no final do jogo com equipamento avançado. À medida que vamos avançando no jogo vamos tendo acesso a equipamento que faz realmente a diferença. A história também começa por ser meia cómica com o product placement da Monster e nomes de personagens como Fragile. No entanto a história aprofunda-se muito com o tempo, falando de conneção humana e focando-se muito nas histórias das pessoas que vamos encontrando. Numa nota muito filosófica é impressionante que um jogo sobre a morte tenha tanto foco nas perspectivas de cada um sobre a vida.

Algo realmente original e que faz parte de praticamente todos os materiais promocionais são os BB. Os BBs são bebés em cápsulas que detetam a presença dos BTs. Os BB são atribuídos a pessoas como a nossa personagem para os ajudar a navegar o terreno perigoso do mundo atual. É pedido a quem os usa para os verem apenas com ferramentas, mas a quantidade de personalidade nas pequenas criaturas torna isso completamente isso impossível e facilmente ganhamos afeto pelo pequeno BB. Num mundo sem futuro é impossível não ver nestes BBs uma esperança. Não é facil acompanhar a história de Death Stranding mas não é impossível. Mas mais do que isso, acompanhar a história não é sequer necessário já que este é um jogo em que o sentimento é bem mais importante do que a informação.

Death Stranding é um jogo fenomenal que não poderia vir de mais ninguém a não ser Hideo Kojima, pelo menos neste momento. Seja pelas suas qualidade ou simplesmente porque a sua fama e popularidade o ajudam a ter liberdade para este tipo de projetos. Outros podem vir a aparecer com um imaginário parecido mas mais ninguém tem neste momento a credibilidade para obter um orçamento gigante para um projeto deste género, algo que é lamentável especialmente tendo em conta o resultado final de Death Stranding. Ficamos a aguardar com muita antecipação o que o futuro de Kojima nos reserva e até lá, boas entregas.

Tiago Roque

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