Análise: Road 96

Road 96 é um jogo bastante inovador, misturando várias ideias convencionais ou geração processual para criar uma experiência nova e diferente entre cada jogador. O aspeto processual de Road 96 ajuda a que nunca saibamos exatamente o que esperar do jogo. O jogo captura a excitação e a tensão de um road movie, misturando vários tons e humores e acrescentando uma dose de mistério. A história, ou a sua estrutura pelo menos, é bastante tradicional, falando essencialmente de alguém que deixa o conforto do lar para começar uma viagem com estranhos, do tipo que nunca conheceria de outra forma.

Em Road 96 focamos-nos numa jovem que tenta fugir de Petria, uma nação governada por um ditador. O objetivo é chegar a um desfiladeiro onde podemos fugir ilegalmente e como lá chegar pode envolver uma série de transportes diferentes, desde autocarro, à boleia ou até conduzindo um carro roubado. Não há garantia de sucesso, mas sabemos que conseguindo ou não, é esse o ponto final da história da nossa personagem e podemos começar tudo novamente com outro jovem, com uma rota diferente e obter todo um conjunto diferente de experiências. Este é o conceito de Road 96 e não podia ser mais interessante.

Obviamente que o conceito pede uma experiência mais curta do que a de um jogo normal. O objectivo do jogo até pode não ser fazer-nos falhar uma enormidade de vezes como num roguelite, mas é suposto tentar várias vezes, tendo ou não sucesso. A viagem em si demora cerca de uma hora, consistindo em uma mão cheia de cenas com eventos significantes. Cada uma dessas cenas apresenta um encontro com um ou dois dos oito NPCs principais, numa ordem aleatória e retirada de uma pilha de forma aleatória também. Isto faz com que não saibamos de todo o que vai acontecer a seguir e mesmo que já conheçamos as personagens, não sabemos exatamente o que farão a seguir. As personagens são variadas e vão bastante além de normais caricaturas. As suas personalidades e motivações vão sendo mostradas aos poucos. As personagens em quem começamos por confiar com uma personagem, podem mostrar que são as que temos de evitar à medida que as vamos conhecendo melhor.

Apesar de as nossas personagens apenas conhecerem de forma breve estas personagens da história, o jogador irá conhecer cada uma de forma mais detalhada, já que irá acompanhar o início e desfecho das histórias das personagens que vai controlando. Isto é de longe o aspeto mais interessante de Road 96, já que apesar de não ter uma história profunda ou excelente, tem uma estrutura realmente inovadora e original. Isto faz com que jogar Road 96 seja uma experiência completamente diferente daquilo que já joguei antes. A forma como as histórias se ligam entre elas, mesmo que pareçam não ter relação e como no fim a verdadeira história é o futuro de uma nação é realmente inteligente.

As escolhas que fazemos influenciam muito, desde a resultados diretos como o meio de transporte que vamos utilizar na cena seguinte, como a escolhas mais políticas e que influenciam as personagens com quem nos cruzamos. À medida que vamos conhecendo as personagens as coisas podem ir-se tornando mais seguras para nós, mas existe sempre uma certa incerteza nas reações que estas vão ter ao que nós dizemos. Mas Road 96 não se limita a escolhas, por vezes lançando uma série de quizzes ou mini-jogos contra o jogador.

Mas nem tudo é perfeito. O regime que é o tema central do jogo por exemplo é descrito como autoritário, mas nunca vemos grande razão para essa fama por exemplo. Existem algumas descrições, mas são algo vagas também. Para uma viagem tão perigosa, parece existir uma certa falta de perigo aparente.

Road 96 é um dos jogos mais originais que joguei este ano. A estrutura da narrativa é o ponto mais forte e a mistura de narrativa com elementos rogue é fantástica. Este é um daqueles jogos que pensamos que será fantástico mas também que ninguém é louco o suficiente para tentar criar algo do género. Pensamos que dificilmente temos tecnologia ou conhecimento suficiente para criar algo assim neste momento, mas Road 96 mostra que é possível e é tão bom como pensámos que seria.

Tiago Roque

Leave A Comment