Análise: Tormented Souls

O género survival horror tem sofrido muitas alterações ao longo dos anos, quase que dividindo-se em dois. Por um lado a saga Resident Evil optou por uma abordagem mais focada na ação, tentando voltar às suas raízes nos últimos dois lançamentos. Por outro lado apareceram outros jogos mais focados na exploração, onde nem sequer existe combate praticamente como a série Amnesia. Os jogos old school com a câmara fixa como os Resident Evil originais desapareceram e desapareceram essencialmente porque a tecnologia evoluiu. Tormented Souls evoca o Resident Evil original de várias maneiras, desde os ângulos de câmara fixos até o cenário da mansão.

Percorrer as divisões mal iluminadas e assustadoras do jogo é assustador e temos de explorar de forma cuidadosa cada zona. Tormented Souls não é um jogo ação, o ritmo é no geral lento mas isso é algo de positivo, ajudando à jogabilidade. Muita ênfase é colocada na conservação e gestão de recursos. Esta é também uma mecânica muito semelhante à forma como Resident Evil funcionava. Quem não gosta desse aspeto dos jogos Resident Evil originais irá ter as mesmas queixas aqui. Temos que usar apenas os itens necessários e temos de poupar munições. Nem sempre disparar é a melhor opção. Tudo isto é típico do género e o sistema é tão bom como noutros jogos.

Este não é um jogo sobre grande sustos repentinos, mas sim sobre manter uma atmosfera assustadora ao longo do tempo. Uma iluminação sólida e ambientes assustadores e bem trabalhados com sangue espalhado pelas paredes e objetos contribuem muito para essa mesma atmosfera. O cenário de Tormented Souls definitivamente tem um senso de lugar e as suas câmaras fixas alimentam a atmosfera. Os ângulos da câmara são posicionados de forma a mostrar e esconder exatamente o que os criadores querem. Tormented Souls também usa a escuridão como uma mecânica de jogo real. Tal como em muitos jogos mais modernos do género, ficar no escuro irá afetar a nossa personagem.

Muitos dos corredores e divisões são mal iluminados, ou até mesmo completamente escuros, mas ficar na escuridão inflige danos. Podemos utilizar um isqueiro para combater a escuridão, mas se equiparmos o isqueiro, não podemos equipar a arma. Este é também um jogo onde morrer tem impacto, já que apenas podemos gravar através de um item que existe em quantidade limitada. Outra área que Tormented Souls vai buscar aos clássicos do género é o foco em puzzles. A exploração é crucial e o jogo tem uma boa dose de backtracking. Muitos dos puzzles são bem projetados mas o jogo não consegue dominar o equilíbrio entre todos os seus elementos da forma mais feliz.

Outro problema do jogo é o mapa que não é de todo útil. O jogo também coloca o jogador no meio de muitos puzzles ao mesmo tempo, algo que é realmente complicado de gerir. Ter que pensar em como avançar nestas várias frentes ao mesmo tempo e mesmo as pistas que vamos tendo são difíceis de associar em vários puzzles ao mesmo tempo. O movimento no jogo é também um pouco fraco. Embora as câmaras fixas façam um bom trabalho em aumentar a tensão, o movimento acaba por sofrer por causa desta escolha. É bom ver um jogo que volta a esta ideia, mas a realidade é que este esquema de câmara tornou-se raro porque outros melhores apareceram e numa era onde já não existe grande necessidade de assets pré-renderizados as câmaras fixas fazem pouco sentido.

Tormented Souls é um jogo interessante que pode parecer entre nostálgico e datado, dependendo do jogador. Não oferece grandes momentos de ação nem uma história muito elaborada, mas tem uma atmosfera muito boa que mantém o factor assustador do início ao fim.

Tiago Roque

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