Análise: UMAMI

Há jogos que não pedem pressa, não exigem reflexos apurados nem castigam o jogador por cada erro. Umami enquadra-se claramente nesse grupo. Desenvolvido pela Mimmox, este é um jogo de puzzles pensado para relaxar, quase como um exercício de mindfulness interactivo, onde o objectivo passa simplesmente por montar pequenas esculturas tridimensionais de comida feitas em madeira. Não há temporizadores, não há estados de falha, nem qualquer tipo de pressão artificial. Estamos apenas nós, as peças espalhadas à nossa frente, uma imagem de referência e um cenário colorido que convida a abrandar o ritmo.

A proposta de Umami é simples, mas muito bem definida. Ao longo de quinze puzzles, o jogador é convidado a reconstruir pratos inspirados em receitas do mundo real, sempre com um toque fantasioso e uma forte componente estética. Cada nível é apresentado como um pequeno diorama, cuidadosamente desenhado, que mistura comida, decoração temática e uma personagem animal que assume o papel de chef. É um jogo que sabe exactamente o que quer ser e que nunca tenta ir além disso, apostando tudo numa experiência calma, acessível e visualmente apelativa.

Jogabilidade

A jogabilidade de Umami assenta numa ideia clássica: montar um puzzle a partir de peças soltas, recorrendo à observação e à lógica espacial. A grande diferença está no facto de estarmos perante puzzles tridimensionais, o que adiciona uma camada extra de desafio sem nunca se tornar frustrante. Cada nível começa com todas as peças espalhadas de forma aleatória, cabendo ao jogador perceber onde cada uma encaixa, tendo como único auxílio uma imagem de referência que mostra o prato completo visto de frente e de trás.

As peças podem ser rodadas livremente e posicionadas em qualquer ponto do espaço, mas apenas ficam fixas quando colocadas no local correcto e com a orientação certa. Quando isso acontece, a peça abana ligeiramente e deixa de poder ser seleccionada, dando um feedback claro e imediato de que aquela parte do puzzle está resolvida. As peças maiores tendem a ser mais fáceis de identificar e encaixar, funcionando muitas vezes como âncoras visuais, enquanto as mais pequenas e semelhantes entre si exigem mais tentativa e erro até encontrarem o seu lugar.

Não existe qualquer penalização por experimentar, errar ou mudar de ideias. Podemos pegar numa peça, testá-la em vários sítios e retirá-la sem consequências. Essa ausência total de punição é um dos pilares da experiência de Umami, reforçando a sensação de que estamos ali apenas para desfrutar do processo. Para quem gosta de puzzles mas não aprecia a pressão associada a sistemas de pontuação ou limites de tempo, este é um equilíbrio muito bem conseguido.

Mundo e história

Apesar de não existir uma narrativa tradicional, Umami constrói um pequeno mundo através dos seus cenários e personagens. Cada puzzle está associado a um animal chef, que funciona mais como um elemento decorativo e temático do que como uma personagem com história própria. Ainda assim, estes detalhes ajudam a dar personalidade a cada nível e a criar uma sensação de variedade ao longo do jogo. Os pratos apresentados vão buscar inspiração a diferentes culturas, estações do ano e festividades. Há níveis com claras referências ao Halloween, ao Natal ou a ambientes mais veranis, e essa diversidade temática impede que a experiência se torne repetitiva. Para além disso, a maioria dos níveis esconde uma carta coleccionável algures no cenário, incentivando o jogador a interagir com os elementos decorativos e a explorar um pouco mais o espaço à sua volta.

Este pequeno elemento de colecção não é essencial para a progressão, mas adiciona um objectivo secundário simpático, sobretudo para quem gosta de completar tudo a cem por cento. Ao terminar cada puzzle, é possível interagir com a figura do animal chef, desencadeando um pequeno efeito visual de faíscas coloridas que serve como celebração do trabalho concluído. São pormenores simples, mas que contribuem para a identidade e charme do jogo.

Grafismo

Visualmente, Umami é um jogo extremamente apelativo. A direcção artística aposta num estilo colorido, limpo e acolhedor, onde tudo parece feito à mão com um cuidado quase artesanal. As peças de madeira têm textura e volume credíveis, e os pratos montados no final de cada puzzle resultam em pequenas obras de arte tridimensionais que apetece observar de vários ângulos. Os cenários que envolvem cada diorama estão cheios de detalhes, desde objectos decorativos a pequenos elementos temáticos que reforçam o ambiente de cada nível. A paleta de cores é vibrante sem ser agressiva, contribuindo para a sensação de conforto visual que o jogo procura transmitir. Nota-se claramente que houve um grande cuidado em garantir que todas as peças encaixam de forma natural, sem folgas estranhas ou incongruências visuais.

Mesmo sendo um jogo relativamente curto, a variedade visual entre os quinze puzzles é suficiente para manter o interesse do jogador do início ao fim. Cada novo nível traz algo diferente, seja no tipo de comida representada, na decoração envolvente ou na própria complexidade da escultura a montar. É um daqueles casos em que a simplicidade técnica é compensada por uma forte identidade artística.

Som

A componente sonora de Umami acompanha perfeitamente o resto da experiência. A banda sonora é suave, discreta e relaxante, funcionando quase como música ambiente. Nunca se sobrepõe à acção, nem tenta chamar demasiado a atenção para si própria, limitando-se a criar um pano de fundo tranquilo que ajuda a desligar do mundo exterior.

Os efeitos sonoros são mínimos, mas eficazes. O som das peças a serem colocadas, o pequeno abanar quando encaixam correctamente e os efeitos visuais finais ao completar um puzzle estão todos afinados para não quebrar a imersão. Não há ruídos bruscos ou sons estridentes, o que é fundamental num jogo que aposta tanto numa atmosfera calma. É um trabalho sonoro que não procura impressionar, mas sim complementar. E, nesse aspecto, cumpre o seu papel de forma exemplar, reforçando a ideia de que Umami é um jogo para jogar com calma, talvez ao fim do dia, quando só apetece desligar um bocado.

Conclusão

Umami é um daqueles jogos que sabe exactamente para quem é feito e não tenta agradar a toda a gente. Não é uma experiência longa, nem particularmente desafiante, mas também nunca pretende ser isso. Ao longo de cerca de seis horas, idealmente repartidas por várias sessões curtas, o jogo oferece uma sequência de puzzles bem construídos, visualmente encantadores e pensados para proporcionar relaxamento.

Existem alguns pequenos problemas técnicos, como peças que ocasionalmente ficam presas em posições erradas ou que são projectadas de forma algo exagerada quando não encaixam, quebrando ligeiramente a sensação de tranquilidade. No entanto, são falhas pontuais que não chegam a comprometer a experiência global. No final, Umami destaca-se como um jogo de puzzles muito bem conseguido, que privilegia o ritmo do jogador e aposta numa apresentação cuidada e num ambiente acolhedor. É ideal para quem procura algo diferente, longe da competição e da pressão habitual, e que valoriza jogos que permitem simplesmente sentar, respirar fundo e desfrutar do momento. Para esses jogadores, Umami é uma proposta fácil de recomendar.

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