Há jogos que parecem ter sido feitos para tocar numa corda emocional específica, e Bye Sweet Carole é claramente um deles. Inspirado na estética dos clássicos animados da Disney, este título da Little Sewing Machine, estúdio liderado por Chris Darnill (criador de Remothered), tenta unir o encanto nostálgico da animação tradicional a uma atmosfera sombria e inquietante. O resultado é um jogo visualmente deslumbrante, mas que nem sempre consegue equilibrar a sua ambição artística com a experiência de jogo.
Bye Sweet Carole transporta-nos para um universo de terror em 2D, onde a beleza visual esconde uma narrativa sombria sobre inocência perdida, criaturas misteriosas e um orfanato repleto de segredos. É uma espécie de conto de fadas distorcido que, embora fascinante à vista, acaba por tropeçar em alguns detalhes técnicos e mecânicos. Ainda assim, é impossível ficar indiferente ao esforço da equipa em criar algo que parece saído diretamente de uma cassete VHS dos anos 80, misturada com uma boa dose de pesadelos.
Jogabilidade
Bye Sweet Carole é um jogo de plataformas 2D com elementos de puzzle e exploração. Controlamos Lana, uma jovem órfã que procura a sua amiga desaparecida, Carole, num enredo que rapidamente descamba para o sobrenatural. Apesar da sua estrutura simples, o jogo revela-se mais desafiante do que parece. A maior parte da ação decorre em Bunny Hall, o orfanato onde Lana vive, que funciona quase como um gigantesco escape room cheio de enigmas interligados.
Há momentos em que o jogador precisa ativar um mecanismo num quarto para abrir uma porta noutro andar, ou manipular elementos num mundo alternativo que afetam o ambiente da realidade principal. A progressão depende muito da observação e da paciência, já que o jogo não oferece qualquer sistema de dicas. Isso torna algumas secções frustrantes, especialmente quando os puzzles se tornam excessivamente labirínticos.
Os controlos são, sem dúvida, o ponto mais fraco da jogabilidade. O simples ato de subir escadas pode tornar-se uma tarefa penosa devido à falta de fluidez no movimento, e a personagem demora demasiado tempo a responder a certas ações. É fácil sentir que a precisão necessária para alguns segmentos não é suportada pelo próprio sistema de controlo, o que quebra o ritmo e aumenta a frustração. Além disso, há relatos de falhas técnicas e crashes ocasionais que prejudicam a imersão.
Apesar dessas falhas, há algo de hipnótico em continuar. O jogo sabe recompensar a persistência, seja com uma sequência visualmente memorável ou uma peça musical arrepiante. No fundo, é um daqueles títulos que te desafiam tanto quanto te fascinam.

Mundo e história
A narrativa de Bye Sweet Carole é uma fusão entre fantasia sombria e terror psicológico. O jogo decorre no início do século XX e acompanha Lana numa viagem através de diferentes realidades temporais e dimensionais. A busca por Carole leva-a a descobrir um universo paralelo habitado por criaturas estranhas e seres humanos deformados, entre eles o aterrador Mr. Kyn, um homem alto com um chapéu cilíndrico que parece saído de um pesadelo vitoriano.
Lana também encontra figuras mais amigáveis, como Mr. Baessie, que introduz momentos de alívio num mundo repleto de desespero e incerteza. Esta dualidade entre luz e trevas, entre o encanto e o horror, é uma das forças do jogo. É como se a Disney dos anos 30 tivesse decidido adaptar um conto de Lovecraft.
Contudo, a história nem sempre é contada da forma mais eficaz. Os diálogos, apesar de cumprirem a sua função, muitas vezes soam forçados, e as personagens secundárias raramente ganham vida própria. Falta-lhes o carisma e a identidade que associamos às figuras icónicas dos clássicos animados. Mesmo as partes mais emocionais perdem força devido à inconsistência nas vozes e na animação facial, o que distancia o jogador do drama central.
Ainda assim, o mundo de Bye Sweet Carole é cativante. Cada cenário parece uma pintura viva, cheia de detalhes e segredos. A sensação constante de estar a explorar um conto de fadas amaldiçoado é uma das suas maiores virtudes.
Grafismo
Visualmente, Bye Sweet Carole é uma carta de amor à animação tradicional. Cada frame parece desenhado à mão com o mesmo cuidado que os estúdios Disney aplicavam nas suas produções da era dourada. A paleta de cores alterna entre tons suaves e luminosos e sombras densas que criam uma sensação constante de melancolia.
Os ambientes são ricos em detalhes, com texturas que lembram aquarelas antigas e uma composição de luz e sombra que reforça a atmosfera gótica. É um daqueles jogos que apetece simplesmente observar. As transições entre o mundo real e o mundo fantástico são especialmente bem conseguidas, com pequenos efeitos visuais que sublinham a natureza surreal da experiência.
No entanto, há problemas técnicos que quebram um pouco essa ilusão. A sincronização entre as falas e os movimentos labiais é irregular, e algumas animações parecem menos polidas. Estes detalhes tornam-se mais evidentes precisamente porque o jogo se inspira em produções de altíssima qualidade — quando tentamos imitar os mestres, qualquer falha sobressai.
Mesmo assim, é impossível negar o impacto visual de Bye Sweet Carole. Poucos jogos conseguem capturar tão bem a estética da animação tradicional sem cair na caricatura.

Som
A banda sonora é outro dos grandes trunfos do jogo. Composta por Luca Balboni, coautor da música de Remothered, ela mistura tons orquestrais com melodias inquietantes, criando um equilíbrio perfeito entre encanto e desconforto. Há algo profundamente cinematográfico na forma como a música guia o jogador através das cenas, reforçando emoções e tensões com elegância.
Os efeitos sonoros também são bem utilizados, especialmente nas sequências de perseguição. O som dos passos de Mr. Kyn a ecoar pelos corredores de Bunny Hall é genuinamente perturbador. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer das vozes. Apesar de competentes, faltam-lhes nuances e emoção, especialmente na protagonista, que muitas vezes soa neutra em momentos de grande carga dramática.
Mesmo com essas falhas, o som é uma componente essencial da atmosfera de Bye Sweet Carole. É ele que mantém o jogador preso ao ecrã, mesmo quando o jogo decide testar a sua paciência com controlos imprecisos ou puzzles excessivamente crípticos.
Conclusão
Bye Sweet Carole é um jogo que mistura beleza e desconforto, nostalgia e horror. É um projeto ambicioso que tenta criar uma ponte entre a inocência dos contos clássicos e a crueldade das histórias de terror. Nem sempre o faz com sucesso, mas a tentativa é suficientemente audaz para merecer reconhecimento.
Os controlos e a ausência de um sistema de dicas prejudicam a fluidez da experiência, e o trabalho de vozes não atinge o nível de excelência a que o visual do jogo parece aspirar. No entanto, a direção artística, a atmosfera e a banda sonora compensam grande parte dessas falhas.
Com alguns ajustes técnicos e pequenas melhorias de qualidade de vida, Bye Sweet Carole poderia facilmente transformar-se num daqueles jogos que revisitamos de tempos a tempos, apenas para nos perdermos novamente na sua beleza macabra. Por agora, é uma experiência imperfeita, mas profundamente memorável — um conto de fadas sombrio que nos faz desejar que o seu encanto tivesse sido acompanhado por um toque mais refinado de jogabilidade.