Crescer na era pixelizada dos jogos de Pokémon, entre a Game Boy e a Nintendo DS, deixou marcas profundas em muitos jogadores. Havia algo de especial naquela mistura de exploração, colecção de criaturas e batalhas por turnos que parecia simples à superfície, mas que escondia uma profundidade surpreendente. Com o passar dos anos, e com a transição da série para ambientes tridimensionais, esse encanto foi-se diluindo para alguns fãs. EvoCreo surge precisamente nesse espaço deixado em aberto: como uma tentativa clara de recuperar essa sensação clássica, quase como uma cápsula do tempo jogável.
Inicialmente lançado em dispositivos móveis e mais tarde disponível no Steam, EvoCreo apresenta-se sem rodeios como um RPG de captura de criaturas fortemente inspirado em Pokémon. A influência é tão evidente que se torna impossível ignorá-la, mas isso não significa necessariamente algo negativo. Pelo contrário, o jogo assume essa herança e constrói em cima dela uma experiência que, embora raramente inovadora, consegue ser confortável e envolvente. Ao longo da aventura em Zenith, sente-se constantemente aquela familiaridade que nos faz sorrir, mesmo quando percebemos que já percorremos este caminho noutras vidas digitais.
Jogabilidade
A estrutura jogável de EvoCreo é imediatamente reconhecível para quem alguma vez treinou monstros de bolso. Começamos por escolher um Creo inicial e, a partir daí, o jogo abre-se num ciclo bem conhecido de exploração, combates, captura de novas criaturas e progressão constante. O controlo é simples e eficaz, pensado para funcionar bem tanto em PC como em dispositivos móveis, algo que se nota na clareza dos menus e na forma directa como tudo é apresentado.
Um dos elementos centrais da jogabilidade é o tablet, um menu omnipresente que concentra praticamente todas as funcionalidades do jogo. É aqui que gerimos o inventário, as equipas de Creo, os objectivos activos e a progressão da personagem. Apesar de parecer excessivamente funcional à primeira vista, este sistema acaba por se revelar bastante prático, reduzindo a fricção entre o jogador e as várias camadas de gestão que o jogo exige.
Os combates seguem o modelo clássico por turnos, com cada Creo a ter acesso a quatro ataques principais, aos quais se podem juntar habilidades especiais ou ataques finais desbloqueados em níveis mais elevados. A gestão de tipos elementares continua a ser crucial, incentivando o jogador a construir uma equipa equilibrada e a pensar estrategicamente antes de cada confronto. Embora o sistema não traga grandes surpresas, funciona de forma sólida e consistente, sustentando toda a experiência.

Mundo e história
O mundo de EvoCreo, Zenith, é habitado por humanos e criaturas conhecidas como Creo. Os treinadores, aqui chamados Evokers, formam laços com estas criaturas e competem entre si para alcançar o estatuto máximo da região. Para tal, é necessário reunir seis chaves pertencentes aos Evokers mais poderosos, permitindo depois enfrentá-los novamente no Coliseu e conquistar o título de Ultimate Evoker Champion.
Paralelamente a este percurso competitivo, existe uma ameaça latente representada pela organização Shadow Hive, um grupo que procura modificar geneticamente os Creo para os tornar mais fortes. Esta linha narrativa cruza-se com o desaparecimento misterioso do pai da personagem principal, criando um fio condutor que acompanha a aventura do início ao fim. Infelizmente, apesar do potencial, a história raramente consegue surpreender ou criar momentos verdadeiramente memoráveis.
Ao longo da exploração, encontramos tomos espalhados pelo mapa que revelam fragmentos da história de Zenith, bem como os Prime Creo, criaturas extremamente poderosas que só podem ser capturadas após batalhas exigentes. Estes elementos ajudam a enriquecer o mundo e a dar alguma profundidade ao lore, mas continuam a servir mais como incentivo à exploração do que como pilares narrativos fortes. No final, a história cumpre a sua função básica de empurrar o jogador para a frente, mas dificilmente se fixa na memória.
Grafismo
Visualmente, EvoCreo é uma carta de amor aos RPGs clássicos em pixel art. Os cenários são coloridos e variados, desde vilas tranquilas a cavernas e florestas densas, todos apresentados com um estilo retro que remete directamente para a era da Game Boy Advance e da Nintendo DS. As animações são simples, mas eficazes, transmitindo claramente o impacto dos ataques e a personalidade de cada Creo.
O verdadeiro destaque gráfico está no design das criaturas. Os Creo apresentam uma variedade interessante de formas e conceitos, demonstrando um cuidado evidente na sua criação. Mesmo quando algumas inspirações são óbvias, existe criatividade suficiente para evitar que pareçam meras cópias. Este cuidado visual contribui bastante para o prazer de coleccionar e evoluir os Creo, reforçando o vínculo entre o jogador e a sua equipa.
Tecnicamente, o jogo é modesto mas estável. Não há grandes efeitos ou ambições técnicas, mas também não existem problemas de maior. EvoCreo sabe exactamente o que quer ser e mantém-se dentro desses limites, oferecendo uma apresentação coerente e adequada ao seu espírito nostálgico.

Som
A componente sonora de EvoCreo acompanha de forma competente a experiência visual. A banda sonora aposta em temas simples e repetitivos, mas eficazes, que evocam imediatamente os RPGs portáteis de outras gerações. Cada área tem a sua identidade musical, ajudando a criar uma sensação de lugar e progresso ao longo da aventura.
Os efeitos sonoros são funcionais, desde os sons de ataque nos combates até aos pequenos ruídos de interacção nos menus. Não são particularmente marcantes, mas cumprem o seu papel sem distrações. No conjunto, o som de EvoCreo não se destaca de forma extraordinária, mas encaixa perfeitamente na proposta do jogo e reforça a atmosfera clássica que este procura recriar.
Conclusão
EvoCreo é um jogo que vive assumidamente à sombra de Pokémon, e não faz grande esforço para esconder isso. A semelhança é constante, desde a estrutura narrativa até aos sistemas de combate e progressão. Ainda assim, isso não o torna automaticamente num produto inferior. Pelo contrário, há aqui uma honestidade e um carinho pela fórmula clássica que acabam por conquistar.
Para quem sente falta da magia dos primeiros contactos com jogos como Pokémon Ruby ou Pokémon Diamond, EvoCreo oferece uma experiência reconfortante, quase como regressar a casa depois de muitos anos. A história é fraca e previsível, e o jogo raramente arrisca fora da sua zona de conforto, mas a progressão sólida, os sistemas de personalização e o design das criaturas mantêm o interesse ao longo de dezenas de horas.
Não é um jogo que vá redefinir o género nem criar uma identidade completamente própria, mas também não precisa disso para ser relevante. EvoCreo funciona como um tributo sincero a uma era específica dos RPGs de captura de criaturas, e fá-lo com competência. Para fãs do estilo clássico, é uma aventura que vale a pena viver, mesmo sabendo exactamente o que esperar desde o primeiro passo em Zenith.