O fascínio pela Fórmula 1 não é algo que precise de explicações complexas: trata-se de um desporto que mistura velocidade, perigo e glamour em doses quase cinematográficas. Fórmula Legends, desenvolvido pelo estúdio italiano 3DClouds, surge como uma tentativa de encapsular décadas desta história lendária num jogo que se move entre o arcade e a simulação. A proposta é ousada: oferecer corridas intensas que homenageiam os carros, circuitos e heróis da modalidade, mas sem as licenças oficiais que normalmente encarecem qualquer projeto deste género. Assim, em vez da Ferrari temos a Ferenzo, e Max Verstappen transforma-se em Mark Peerstallen. É quase como ir a um restaurante e pedir uma Coca-Cola, recebendo uma “Cola-Cola”: sabe parecido, mas algo no rótulo denuncia a diferença.
O jogo quer ser simultaneamente uma carta de amor ao passado da Fórmula 1 e uma experiência acessível aos que não vivem de setups de cockpit e volantes de mil euros. Contudo, se a intenção é clara e até louvável, a execução revela-se irregular. É um título cheio de estilo, com boas ideias e momentos de verdadeira diversão, mas que tropeça nas próprias ambições com problemas técnicos e escolhas de design que o impedem de chegar à meta no primeiro lugar.
Jogabilidade
No coração de Fórmula Legends está uma condução que tenta equilibrar duas filosofias: o prazer imediato do arcade e a exigência meticulosa da simulação. Os carros colam-se ao asfalto de forma relativamente firme, mas exigem respeito pelas zonas de travagem, sob pena de irmos diretamente para a gravilha como um turista desorientado no Mónaco. Existe desgaste de pneus, consumo de combustível e até penalizações de tempo para quem abusa das saídas de pista, o que obriga a uma abordagem mais cautelosa do que muitos jogos puramente arcade.
As corridas têm um ritmo vibrante, mas são frequentemente manchadas por uma física pouco fiável. Os toques entre carros podem gerar colisões absurdas, em que basta encostar lateralmente ao adversário para ficar preso de forma caricata. A IA acrescenta outro nível de frustração: em dificuldades mais baixas, os rivais parecem conduzir carrinhos de choque, mas em níveis superiores transformam-se em máquinas sobre-humanas que obrigam a uma volta quase perfeita. A ausência de multiplayer – nem local, nem online – agrava este problema, já que não existe alternativa além de enfrentar esta IA inconsistente.
Ainda assim, há mérito no desenho do sistema de progressão. Temos qualificações, estratégias de boxes e até mudanças climáticas que nos forçam a adaptar em tempo real. É um modelo que exige pensamento rápido, onde a decisão de trocar para pneus de chuva ou arriscar mais uma volta pode ser o que separa a glória do desastre.

Mundo e história
Apesar de não ser um jogo narrativo, Fórmula Legends apresenta-se como uma viagem através das décadas da Fórmula 1, dos anos 60 até aos dias de hoje. Cada época traz consigo não só novos carros, mas também uma estética que evoca o período. Nos anos 60, por exemplo, podemos aplicar um filtro visual que recria a sensação de ver corridas numa televisão da época, com aquele grão carismático que nos faz imaginar comentadores a fumar em direto.
Os circuitos são versões estilizadas de locais icónicos, como Mónaco ou Spa-Francorchamps, desenhados de forma a evitar problemas de licenciamento, mas mantendo a essência do traçado. É uma homenagem assumida, que consegue equilibrar respeito histórico com liberdade criativa. Há um certo charme em conduzir por pistas que parecem familiares, mas que revelam ligeiras diferenças, como se estivéssemos a percorrer uma realidade paralela da Fórmula 1.
Este lado “histórico” dá ao jogo uma identidade própria. Não é apenas sobre competir; é sobre sentir a evolução do desporto, desde os carros mais rudimentares até às máquinas altamente tecnológicas atuais. E mesmo com nomes alterados de forma quase humorística, a paixão pelo tema é palpável.
Grafismo
Visualmente, Fórmula Legends aposta num estilo cartoonesco com carros de proporções exageradas, mas sem cair na caricatura completa. É um estilo curioso que procura ser acessível, quase amigável, mas que ainda transmite a sensação de velocidade e potência. Os efeitos de partículas estão particularmente bem conseguidos, com destaque para a chuva, que brilha pela autenticidade visual.
O jogo inclui ainda toques criativos, como o já mencionado filtro retro, que aumenta a sensação de viagem no tempo. Contudo, a performance técnica deixa a desejar. Em pistas com grandes mudanças de elevação, o framerate pode cair de forma abrupta, interrompendo a fluidez da corrida. São quebras que, em jogos de ritmo rápido, podem ser fatais para a experiência.
No geral, é um jogo que impressiona mais pela direção artística do que pelo detalhe técnico. Não pretende ser um simulador visual hiper-realista, mas sim um tributo estilizado que equilibra a seriedade do tema com uma apresentação mais leve.

Som
O departamento sonoro cumpre sem deslumbrar. Os rugidos dos motores transmitem energia, ainda que não tenham a complexidade de outros simuladores mais exigentes. Existe variedade suficiente para distinguir os diferentes carros e épocas, mas falta aquele impacto visceral que sentimos quando vemos uma corrida real.
A banda sonora é animada, mas pouco memorável, funcionando mais como pano de fundo do que como elemento marcante. Os efeitos climáticos, como a chuva ou o vento, estão melhor conseguidos e acrescentam imersão, especialmente quando combinados com as mudanças visuais das corridas.
No entanto, a ausência de comentários ou de qualquer camada extra de dramatização sonora deixa o jogo mais silencioso do que deveria. Um título que celebra décadas de história teria beneficiado imenso de uma narração ou de sons icónicos que reforçassem o peso histórico do material.
Conclusão
Fórmula Legends é um projeto feito com paixão, mas marcado por limitações. A 3DClouds quis criar uma experiência que fosse simultaneamente homenagem e desafio, e conseguiu em parte. A mistura de arcade com simulação funciona bem no papel e há momentos em que o jogo realmente cativa, especialmente ao mostrar a evolução da Fórmula 1 ao longo das décadas.
Contudo, os problemas não são fáceis de ignorar. A física pouco consistente, a IA desequilibrada, as quebras de framerate e, sobretudo, a ausência de qualquer modo multijogador fazem com que o título se sinta inacabado. Não é um desastre total – longe disso – mas é uma oportunidade perdida de se afirmar como o jogo de tributo definitivo ao desporto rei do automobilismo.
Para os fãs hardcore da Fórmula 1, há aqui material suficiente para se entreterem e apreciarem a viagem nostálgica. Mas para o jogador médio, que procura uma experiência de corridas polida e acessível, Fórmula Legends fica alguns segundos atrás da concorrência. Se receber atualizações que corrijam os problemas mais graves, poderá finalmente arrancar da grelha como merece. Até lá, é um carro bonito mas instável, capaz de momentos de glória e de quedas embaraçosas na gravilha.