Análise: Frostpunk 2: Fractured Utopias

Frostpunk 2 chegou ao mercado com um peso enorme às costas. O primeiro jogo tornou-se rapidamente uma referência no género de city builders de sobrevivência, não apenas pela sua dificuldade implacável, mas sobretudo pela forma como usava a narrativa, os dilemas morais e as campanhas para criar histórias memoráveis em torno da sobrevivência humana num mundo gelado. A sequela, apesar de ambiciosa, teve um lançamento atribulado, marcado por problemas de performance, bugs frequentes e, acima de tudo, por uma sensação de vazio narrativo que muitos jogadores, eu incluído, sentiram desde cedo. O DLC Fractured Utopias surge mais de um ano depois como a primeira expansão paga de Frostpunk 2, prometendo aprofundar o modo Utopia e dar mais identidade às facções que habitam as nossas cidades. Não se trata de uma nova campanha nem de uma experiência narrativa fechada, mas sim de um conjunto de sistemas e conteúdos pensados para aumentar a rejogabilidade e a complexidade das partidas livres. A questão que se impõe é simples: será isto suficiente para colmatar algumas das fragilidades mais evidentes do jogo base?

Jogabilidade

Fractured Utopias foca-se quase exclusivamente no modo Utopia, que é assumidamente o coração de Frostpunk 2. Aqui, o jogador constrói e gere uma cidade enfrentando diferentes desafios, com objetivos definidos e, se assim o desejar, sem um fim concreto à vista. O DLC expande este modo ao aprofundar significativamente as facções que podem surgir durante uma partida. Cada facção passa a ter uma árvore de progressão própria, com bónus específicos, novos edifícios, leis exclusivas, mecânicas únicas e até variações visuais nas habitações. Esta abordagem dá mais peso às decisões políticas e estratégicas, obrigando o jogador a comprometer-se de forma mais clara com a visão de sociedade que está a construir.

Uma das grandes novidades é o conceito de Utopia específica de cada facção. Ao cumprir determinados requisitos e alinhar a cidade com os valores de um grupo em particular, é possível desbloquear a sua versão ideal de sociedade. Este sistema funciona como um objetivo de longo prazo dentro de cada sessão, incentivando a especialização e a experimentação. No entanto, apesar de interessante no papel, a execução acaba por ser algo conservadora. As novas mecânicas encaixam-se perfeitamente nos sistemas já existentes, mas raramente os desafiam ou transformam de forma profunda. O jogador experiente rapidamente percebe que está a lidar com variações do que já conhece, em vez de mudanças estruturais que alterem verdadeiramente a forma como joga Frostpunk 2.

Mundo e história

É precisamente no campo narrativo que Fractured Utopias deixa uma sensação agridoce. Frostpunk sempre foi um jogo sobre pessoas, escolhas difíceis e consequências morais. No primeiro título, cada campanha e cada cenário contavam uma história distinta, com começo, meio e fim. Em Frostpunk 2, essa vertente ficou diluída, e o DLC pouco faz para a recuperar. As facções ganham mais identidade através de eventos e pequenas histórias associadas às suas progressões, mas nunca se atinge o impacto emocional ou a profundidade narrativa que muitos esperavam.

O DLC adiciona dois novos Tales ao modo Utopia: Doomsayer e Plague. O primeiro introduz uma facção de fanáticos que tenta sabotar e destruir a cidade, evocando memórias de grupos semelhantes do primeiro jogo. É um cenário interessante, mas relativamente previsível, que funciona mais como um obstáculo mecânico do que como uma verdadeira narrativa emergente. Já o Tale Plague é claramente o mais ambicioso e o mais conseguido a nível conceptual. Uma doença espalha-se pela cidade, contaminando distritos inteiros, forçando o jogador a tomar decisões difíceis como quarentenas, restrições severas e o desenvolvimento urgente de uma vacina. Aqui, Frostpunk volta a tocar nos temas que sempre o definiram melhor: até onde estamos dispostos a ir para salvar a maioria?

Infelizmente, é também neste Tale que os problemas técnicos mais se fazem sentir. Bugs graves podem bloquear o progresso e obrigar a recarregar saves antigos, quebrando completamente a imersão. É frustrante ver uma ideia tão forte ser prejudicada por falhas que não deveriam existir num conteúdo que esteve tanto tempo em desenvolvimento.

Grafismo

Do ponto de vista visual, Fractured Utopias é um reforço bem-vindo. As novas estruturas específicas de cada facção ajudam a tornar as cidades mais variadas e interessantes de observar. Arranha-céus imponentes, arenas, postos avançados e edifícios especializados dão uma nova escala e personalidade ao ambiente urbano, reforçando a sensação de que estamos a construir algo único. Frostpunk 2 já tinha uma direção artística sólida, e o DLC encaixa perfeitamente nesse estilo frio, industrial e opressivo.

As variações visuais nas habitações e distritos, consoante a facção dominante, são um dos pontos altos da expansão. Mesmo sem grandes alterações técnicas, estas mudanças subtis ajudam a contar uma história visual da evolução da cidade e das escolhas feitas ao longo do tempo. No entanto, quem esperava grandes saltos gráficos ou transformações visuais mais radicais poderá ficar desapontado. Trata-se de um refinamento e expansão do que já existia, não de uma reinvenção.

Som

A nível sonoro, Fractured Utopias mantém o padrão elevado da série. A banda sonora continua a apostar em temas melancólicos e atmosféricos, que acompanham na perfeição o tom sombrio do jogo. Não há uma quantidade significativa de novas faixas, mas as existentes continuam a funcionar como um elemento essencial para criar tensão e peso emocional. Os efeitos sonoros dos novos edifícios e eventos estão bem integrados e ajudam a reforçar a identidade das facções.

Tal como no jogo base, o som não tenta chamar demasiada atenção para si próprio, mas cumpre o seu papel de forma eficaz. Ainda assim, sente-se alguma falta de maior diversidade ou de temas musicais mais marcantes associados aos novos Tales, especialmente no caso do Plague, que merecia um tratamento sonoro mais distinto para sublinhar a gravidade da situação.

Conclusão

Fractured Utopias é um DLC competente, mas cauteloso. Acrescenta variedade, profundidade e alguma longevidade ao modo Utopia de Frostpunk 2, especialmente para quem gosta de experimentar diferentes abordagens políticas e observar cidades a crescer com identidades bem definidas. As árvores de progressão das facções e as suas utopias específicas são ideias sólidas que enriquecem o jogo, mas raramente o levam para territórios verdadeiramente novos.

O maior problema da expansão está naquilo que não faz. Não resolve a ausência de campanhas narrativas fortes, não aprofunda significativamente os dilemas morais a um nível comparável ao primeiro Frostpunk e, pior ainda, chega acompanhada de bugs graves que comprometem a experiência, sobretudo nos novos Tales. Para um estúdio com o historial da 11 bit studios, isto sabe a pouco e deixa uma sensação de oportunidade perdida.

Ainda assim, Fractured Utopias não é um mau DLC. É um complemento útil para quem já investe muitas horas em Frostpunk 2 e quer mais ferramentas, mais escolhas e mais motivos para regressar ao jogo. Falta-lhe ambição narrativa e polimento técnico, mas lança bases que poderão ser melhor exploradas em futuras expansões. Resta esperar que as próximas apostas da 11 bit consigam finalmente reconciliar Frostpunk 2 com aquilo que tornou a série especial desde o início. Até lá, este capitão continuará a observar a sua utopia fracturada, à espera de dias melhores no meio do gelo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ComboCaster