NeverAwake foi um daqueles jogos que, para muitos jogadores, ficou bem gravado na memória muito depois dos créditos finais. A sua mistura peculiar de shooter twin-stick com um imaginário de pesadelo infantil, ao mesmo tempo perturbador e estranhamente adorável, deu-lhe uma identidade muito própria dentro de um género já bastante concorrido. NeverAwake FLASHBACK surge como uma nova entrada neste universo, apresentando-se não como uma sequela tradicional, mas como uma reinterpretação da experiência original através de uma estrutura roguelite. Lançado a 10 de dezembro de 2025 para PC via Steam, com desenvolvimento da Neotro Inc. e publicação da Phoenixx Inc., FLASHBACK promete revisitar sonhos antigos sob uma nova lógica de progressão, mais focada na repetição, na aleatoriedade e na adaptação constante. A grande questão é perceber se esta abordagem acrescenta algo de substancial ao legado do jogo original ou se acaba por parecer apenas um apêndice demasiado discreto para justificar a sua existência como título independente.
Jogabilidade
No seu núcleo, NeverAwake FLASHBACK mantém intacta a base jogável que tornou o original tão memorável. Continuamos perante um shooter twin-stick onde controlamos uma pequena personagem a voar por cenários oníricos, disparando em todas as direções enquanto recolhemos almas para completar cada nível. A grande diferença está na estrutura geral da experiência. Em vez de uma progressão linear, FLASHBACK adopta uma abordagem roguelite, organizada em runs compostas por nove níveis. Antes de começar, o jogador introduz um código de três letras que define a seed da partida, influenciando não só a disposição dos níveis e os acessórios disponíveis, mas também o grau de dificuldade.
Ao longo de cada run, o jogador é constantemente confrontado com escolhas. Em cada etapa, pode selecionar entre dois níveis possíveis, cada um associado a diferentes acessórios que funcionam como melhorias passivas ou activas. Há também a possibilidade de alterar a arma secundária, permitindo alguma adaptação ao estilo de jogo desejado ou às exigências do momento. Sobreviver até ao nono nível e derrotar o boss final significa concluir com sucesso a run, algo que, dependendo da seed escolhida, pode ser relativamente acessível ou brutalmente difícil.
Uma das adições mais relevantes à jogabilidade é a presença da boneca que acompanha agora o jogador. Esta funciona como uma espécie de escudo móvel, capaz de bloquear projéteis e disparar a arma secundária. O seu uso não é automático e exige algum planeamento, já que a área de proteção é reduzida e o posicionamento errado pode resultar em danos desnecessários. Alguns acessórios interagem directamente com esta mecânica, permitindo, por exemplo, restaurar utilizações da arma secundária após bloquear um certo número de ataques. A natureza roguelite do jogo também permite acumular mais passivas do que no jogo base, criando combinações potencialmente muito poderosas.
Apesar deste aumento evidente de poder, NeverAwake FLASHBACK não abdica do desafio. Pelo contrário, especialmente nas dificuldades mais elevadas, o ecrã enche-se de projéteis numa escala quase absurda, exigindo reflexos rápidos, leitura constante do espaço e uma boa dose de sangue-frio. É fácil encurralar-se a si próprio numa situação sem saída, e muitas mortes surgem não por falta de poder, mas por excesso de confiança. Este equilíbrio entre empowerment e dificuldade é um dos pontos mais conseguidos do jogo.

Mundo e história
Se há área onde NeverAwake FLASHBACK se revela mais frágil, é na componente narrativa. Ao contrário do original, que oferecia pelo menos algum contexto emocional e simbólico para os pesadelos apresentados, FLASHBACK praticamente abdica de contar uma história. O jogador não recebe explicações sobre quem é, porque está ali ou qual o significado dos cenários que atravessa. Os níveis são, na sua maioria, retirados directamente do jogo original, reutilizando ambientes e inimigos sem grande enquadramento adicional.
Existem sete finais diferentes, mas os que surgem ao longo das runs dificilmente deixam uma marca duradoura. Funcionam mais como pequenas variações de encerramento do que como conclusões narrativas satisfatórias. Para quem vem fresco do NeverAwake original, esta ausência de contexto pode não ser particularmente problemática, já que a memória do jogo anterior acaba por preencher algumas lacunas. No entanto, para novos jogadores ou para quem não toca no original há vários anos, FLASHBACK pode parecer confuso e algo vazio em termos de significado.
Esta falta de explicação estende-se também a alguns sistemas de jogo. Certas mecânicas importantes, como a forma de aumentar a rate, o que significa derrotar completamente um boss ou os efeitos exactos dos itens de cada loadout inicial, não são devidamente clarificadas. Num jogo que aposta tanto na repetição e na aprendizagem progressiva, esta ausência de informação pode criar uma barreira desnecessária à entrada.
Grafismo
Visualmente, NeverAwake FLASHBACK é, para todos os efeitos, mais NeverAwake. O estilo artístico mantém aquela estética creepicute tão característica, onde monstros grotescos coexistem com cores suaves e formas quase infantis. Os cenários continuam riquíssimos em detalhe, cheios de pequenos elementos animados que contribuem para a sensação de estar preso num pesadelo estranho, mas fascinante.
A legibilidade da ação é outro ponto forte que se mantém intacto. Mesmo quando o ecrã está inundado de projéteis, é geralmente fácil perceber onde está o jogador, de onde vêm os ataques e quais os espaços seguros, algo essencial num shooter deste género. Embora muitos dos inimigos e ambientes sejam reciclados do jogo original, os poucos elementos novos encaixam de forma natural, sem destoar do conjunto.
Ainda assim, é impossível ignorar a sensação de déjà vu. Cerca de noventa por cento do conteúdo visual é reaproveitado, o que pode desiludir quem esperava uma identidade visual renovada ou, pelo menos, uma maior variedade de cenários inéditos. A qualidade continua elevada, mas a falta de novidade acaba por pesar na avaliação global.

Som
A componente sonora segue a mesma lógica do grafismo. A banda sonora mantém o nível elevado do original, com temas que combinam perfeitamente com o ritmo frenético da ação e a atmosfera inquietante dos cenários. As músicas conseguem ser simultaneamente energéticas e desconfortáveis, reforçando a sensação de estar a lutar contra os próprios medos.
Os efeitos sonoros são claros e eficazes, ajudando na leitura do jogo ao fornecer feedback imediato sobre disparos, impactos e bloqueios realizados pela boneca. Mesmo no meio do caos, o som desempenha um papel importante na orientação do jogador. Tal como acontece com o resto da experiência, não há grandes surpresas, mas também não há motivos para queixas.
Conclusão
NeverAwake FLASHBACK é um jogo competente, bem construído e fiel à identidade do original, mas também é uma experiência que levanta questões sobre a sua razão de ser como título independente. A estrutura roguelite adiciona alguma longevidade e introduz escolhas interessantes ao longo de cada run, e as novas mecânicas, como a boneca acompanhante, conseguem aprofundar a jogabilidade sem a descaracterizar. O desafio mantém-se elevado e, em certos momentos, atinge níveis de intensidade verdadeiramente empolgantes.
No entanto, a falta de conteúdo novo, a quase total ausência de narrativa e a reutilização massiva de cenários e inimigos fazem com que FLASHBACK pareça mais um modo alternativo do que um jogo completo. Uma run típica dura cerca de vinte minutos e, apesar das variações de acessórios e seeds, a forma como se aborda cada partida muda muito pouco. Para veteranos, é essencialmente o mesmo jogo reorganizado; para novatos, é uma experiência sem contexto que dificilmente atinge o impacto do original.
NuncaAwake FLASHBACK teria provavelmente beneficiado mais de ser lançado como DLC ou grande actualização, integrada no jogo base. Assim, seria visto como um bónus interessante, uma forma de revisitar velhos pesadelos com uma camada extra de aleatoriedade. Como produto standalone, acaba por saber a pouco. É um bom jogo, mas também um pequeno desvio num universo que merecia algo mais ambicioso.