Análise: Quarantine Zone: The Last Check

Quarantine Zone: The Last Check chegou quase de surpresa ao PC Game Pass e rapidamente se destacou como uma curiosa mistura entre Papers, Please e um simulador militar de baixo orçamento com uma forte personalidade própria. Desenvolvido com uma abordagem claramente europeia, algo tosca mas cheia de charme, o jogo coloca-nos no papel de um soldado destacado para um posto de controlo durante um surto zombie. A missão é simples no papel, mas rapidamente se revela mais complexa: inspecionar civis, detetar sinais de infeção, gerir recursos da base e tomar decisões difíceis que envolvem vida, morte e, ocasionalmente, tiros bem colocados. Com a Devolver Digital como editora, há aqui um nível de polimento acima do habitual para este tipo de projeto, sem nunca perder a sensação de euro-jank que tanto define a experiência.

Jogabilidade

O núcleo da jogabilidade assenta num loop muito claro e eficaz. A cada dia, filas de civis aproximam-se do portão da base e cabe ao jogador analisá-los de cima a baixo. O processo começa de forma simples, observando o corpo à procura de sintomas visíveis como marcas de mordidas, erupções cutâneas ou olhos amarelados. Cada sintoma é classificado em três níveis: verde, amarelo ou vermelho. Verde significa que está tudo bem, amarelo exige quarentena e observação, e vermelho implica uma decisão final que raramente termina bem para o civil em questão.

À medida que os dias avançam, novas ferramentas vão sendo introduzidas. Um medidor de temperatura e pulso permite confirmar suspeitas menos óbvias, enquanto um martelo serve para testar reflexos, revelando infeções através de respostas corporais anormais. Existe também uma arma de scan que permite ver através da roupa, acrescentando mais uma camada de atenção ao processo de inspeção. Tudo isto é integrado de forma gradual e muito bem ritmada, fazendo com que o jogador se sinta cada vez mais competente. Perto do final da campanha, é possível identificar múltiplos sintomas numa única pessoa sem grande esforço, resultado de um sistema que ensina bem e recompensa a atenção ao detalhe.

Mundo e história

O contexto narrativo é simples, mas eficaz. Estamos num mundo à beira do colapso, com um surto zombie a espalhar-se e as forças armadas a tentarem manter alguma ordem. O jogador é apenas mais um soldado raso, colocado num posto remoto com responsabilidades que claramente ultrapassam o seu posto. A campanha decorre ao longo de 26 dias, com envios regulares de sobreviventes para um suposto ponto de evacuação. Nem todos chegam ao destino, e alguns podem transformar-se pelo caminho, o que acrescenta um peso extra às decisões tomadas no posto de controlo.

Para além da campanha principal, existe um modo infinito que prolonga a longevidade do jogo. Pelo meio, surgem missões secundárias que ajudam a dar mais cor ao mundo, como pedidos específicos para eliminar determinados indivíduos ou lidar com situações menos convencionais. Não é uma narrativa profunda ou emocionalmente devastadora, mas cumpre bem o seu papel ao contextualizar as mecânicas e dar sentido às rotinas diárias do jogador.

Grafismo

Visualmente, Quarantine Zone: The Last Check é um excelente exemplo de euro-jank assumido. Os modelos parecem saídos de uma loja de assets genéricos, as animações são rígidas e há clipping frequente entre objetos e personagens. No entanto, tudo isto acaba por contribuir para uma identidade própria que se torna estranhamente cativante. Há um certo orgulho na forma como o jogo apresenta as suas limitações técnicas, compensando-as com efeitos bem conseguidos noutros aspetos.

Os momentos de ação, em particular, destacam-se pelo uso exagerado de física ragdoll. Um disparo no corpo pode lançar um civil pelo ar de forma quase cómica, enquanto tiros na cabeça ativam efeitos de câmara lenta que tornam o momento surpreendentemente satisfatório. Não é um jogo bonito no sentido tradicional, mas é expressivo, funcional e, acima de tudo, coerente com o tom que pretende transmitir.

Som

O trabalho sonoro acompanha bem a experiência visual. Não existe uma banda sonora constante, mas os temas que surgem são eficazes a criar uma atmosfera de tensão e desconforto, reforçando a sensação de poder absoluto que o jogador tem sobre quem passa pelo portão. Os efeitos sonoros são competentes, desde os sons mecânicos da base até ao impacto seco dos disparos.

As vozes merecem destaque positivo. Apesar de não serem memoráveis individualmente, são bem interpretadas e ajudam a dar alguma humanidade às personagens, mesmo quando estas estão prestes a ter um fim pouco simpático. Nota-se aqui a mão da editora, garantindo um nível de qualidade acima do esperado para um projeto deste género.

Conclusão

Quarantine Zone: The Last Check é um daqueles jogos que não tenta ser mais do que é, e ganha muito com isso. A sua proposta é clara, o loop de jogabilidade é viciante e a progressão está bem calibrada para manter o interesse do jogador ao longo de toda a campanha. A componente de gestão da base acrescenta profundidade suficiente sem se tornar esmagadora, e as missões secundárias ajudam a variar o ritmo.

Tecnicamente imperfeito, com problemas de clipping e tempos de carregamento algo lentos, o jogo compensa essas falhas com personalidade, humor negro e um conjunto de sistemas que funcionam surpreendentemente bem em conjunto. É uma experiência relaxante na sua estranheza, repetível e ideal para sessões curtas ou mais prolongadas. Para quem gosta de jogos de inspeção, decisões morais dúbias e um toque de caos controlado, Quarantine Zone: The Last Check é uma aposta segura e inesperadamente divertida.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ComboCaster