Análise: Casting Whispers

Casting Whispers é um jogo de terror psicológico em primeira pessoa desenvolvido e publicado pela Lantern Bay Entertainment. Passado no Connecticut dos anos 60, o jogo coloca-nos num edifício de apartamentos fustigado por uma tempestade, onde um experimento falhado libertou algo que nunca deveria ter sido ouvido. É uma estreia ambiciosa, que aposta na atmosfera e na forma como o som é usado para criar tensão, mesmo que por vezes se perca na sua própria ambição.

O jogador assume o papel de Victoria “Vicky” Lorne, uma jovem assistente de laboratório no departamento de parapsicologia da Universidade de Sachem. Quando uma tempestade corta a cidade do mundo exterior, Vicky recebe uma chamada perturbadora do seu mentor, o Professor Zubringer, que lhe implora ajuda. O que começa como uma tentativa de salvamento rapidamente se transforma numa espiral de memórias fragmentadas, lendas urbanas e uma entidade que se alimenta do som.

A introdução é lenta, mas eficaz. O jogo faz uso do silêncio e de sons quotidianos — um cano a pingar, um vizinho a tossir, o miar de um gato lá fora — para criar desconforto. Antes que nos apercebamos, o barulho da tempestade parece mais seguro do que o que nos espera atrás da próxima porta.

Jogabilidade
A jogabilidade de Casting Whispers gira em torno da sua mecânica central: a de “escutar”. Ao fechar os olhos e pressionar a tecla de escuta, Vicky aguça os sentidos e deteta o que não pode ser visto — conversas sussurradas através das paredes, ruídos que revelam mecanismos escondidos, ou portas secretas que apenas se denunciam através de ecos subtis. É um sistema inteligente e tenso, que serve de base a vários puzzles baseados em som, desde identificar equipamentos avariados até descodificar números de telefone enigmáticos ou localizar entidades pela sua presença sonora.

Apesar de criativa, a interação pode ser pouco intuitiva. Muitas ações exigem segurar ou arrastar o rato em vez de simples cliques, o que torna o controlo algo inconsistente. Há também algumas opções de diálogo que permitem escolher respostas diferentes, uma boa adição, mas que nem sempre se alinham bem com o tom da situação.

Outro problema é o suporte para comandos. Os menus não são navegáveis com um comando, e as respostas múltiplas não podem ser selecionadas dessa forma. Assim, o teclado e o rato acabam por ser a única forma confortável de jogar.

De forma curiosa, o jogo não tem pausa real. Mesmo quando se abre o menu, as conversas e as animações continuam a decorrer, o que retira utilidade a essa funcionalidade para além de ajustes técnicos.

Mundo e história
Casting Whispers combina de forma interessante elementos de terror cósmico e de realismo americano. A atmosfera lembra uma mistura de Lovecraft com o quotidiano sombrio das cidades industriais dos anos 60. O coração da narrativa está no edifício de apartamentos onde o jogo decorre, um local em que o real e o surreal se confundem constantemente. Fumo a sair por debaixo das portas, luzes a piscar que revelam formas fantasmagóricas e vozes distorcidas que fazem perguntas impossíveis são elementos que compõem um cenário tão inquietante quanto fascinante.

A força da história está mais no seu lado psicológico do que no sobrenatural. Várias sequências exploram a perceção e a memória de forma engenhosa, fazendo o jogador questionar o que é real. No entanto, o progresso pode ser confuso. Os objetivos raramente são claros e é fácil andar às voltas sem saber se falta um objeto ou se o jogo está simplesmente à espera de um gatilho.

As longas distâncias entre pontos de gravação aumentam a tensão, mas também geram frustração quando algo corre mal. O ritmo, especialmente a meio da campanha, sofre um pouco com o excesso de retrocessos e menos momentos de descoberta.

Grafismo
Visualmente, Casting Whispers é impressionante, sobretudo tendo em conta que foi criado por um único desenvolvedor. O uso do Unreal Engine 5 permite uma iluminação densa e atmosférica, com interiores detalhados e realistas. No entanto, o criador soube contornar limitações técnicas de forma criativa: nunca vemos rostos diretamente, estando sempre obscurecidos por sombras, portas ou ângulos de câmara que evitam a necessidade de animações faciais. O resultado é estilizado e intencional, não uma limitação evidente.

Apesar disso, o desempenho técnico deixa a desejar. A rotação da câmara provoca stutters frequentes, especialmente na primeira jogada, algo comum em jogos criados no Unreal 5. Áreas grandes carregam sem ecrãs de transição, mas de forma irregular, com soluços ocasionais. É claro que a otimização ainda precisa de ser trabalhada para que a experiência seja mais fluida.

Som
O design sonoro é, sem surpresa, o verdadeiro destaque de Casting Whispers. Cada som parece cuidadosamente colocado — desde pratos a tilintar ao longe até trovões abafados e passos vindos do apartamento vizinho. O jogo cria claustrofobia através do áudio de forma muito mais eficaz do que através de sustos visuais.

As vozes estão surpreendentemente bem interpretadas, com um elenco que transmite emoções autênticas, ainda que haja algumas falas mais forçadas. A banda sonora, mergulhada numa melancolia noir típica dos anos 60, reforça a sensação de época e a melancolia da protagonista. É um trabalho sonoro que merece destaque, especialmente porque o próprio conceito do jogo se baseia em escutar para sobreviver.

Conclusão
Casting Whispers é um experimento de terror psicológico notável pela forma como explora o som como ferramenta narrativa e mecânica de jogo. A sua atmosfera é densa, o conceito é original e o mundo é rico em detalhes. No entanto, os controlos inconsistentes, a falta de clareza nos objetivos e alguns problemas técnicos impedem-no de atingir todo o seu potencial.

Mesmo assim, há algo de profundamente humano por trás dos seus corredores assombrados. É uma história sobre perceção, sobre o que escolhemos ouvir e sobre as vozes que tentamos ignorar. Para quem procura uma experiência de terror diferente, mais intimista e sensorial do que baseada em sustos, Casting Whispers é uma proposta imperfeita mas memorável, que deixa uma impressão duradoura muito depois do silêncio final.

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