I Hate This Place é um jogo de ação e sobrevivência com perspetiva isométrica e fortes elementos de terror, mas que nunca se leva demasiado a sério. Há aqui uma estranheza constante, uma sensação de desconforto que convive com momentos quase irónicos, criando uma identidade muito própria. Inspirado numa série de banda desenhada homónima, o jogo aposta mais na atmosfera e na descoberta do que no susto fácil, colocando o jogador num espaço hostil onde cada passo pode ter consequências. É um título que não procura reinventar o género, mas sim combinar várias mecânicas familiares de forma competente, com um foco muito claro na exploração, no mistério e na sobrevivência em ambientes opressivos.
Assumimos o controlo de Elena, uma jovem que vive numa comunidade isolada, rodeada por floresta e por segredos que todos parecem conhecer, mas ninguém quer realmente explicar. O mundo à sua volta está contaminado por algo antigo e malévolo, e à noite o perigo torna-se ainda mais evidente. Tudo muda quando Elena participa num ritual aparentemente inofensivo, incentivada pela amiga Lou, que acaba por desaparecer sem deixar rasto. A partir daí, o jogo transforma-se numa descida lenta e inquietante a um lugar onde a realidade se cruza com o sobrenatural, obrigando a protagonista a confrontar verdades que estavam enterradas há demasiado tempo.
Jogabilidade
A jogabilidade de I Hate This Place assenta numa mistura equilibrada entre exploração, combate, stealth e gestão de recursos. O mapa principal é um pequeno остров (ilha), relativamente compacto à superfície, mas que esconde uma rede extensa de túneis, minas, bunkers abandonados e áreas subterrâneas interligadas. É nestes espaços fechados que o jogo mais brilha, obrigando o jogador a avançar com cuidado, atento aos sons e aos perigos que se escondem na escuridão.
O combate existe, mas nem sempre é a melhor solução. Muitos inimigos têm audição apurada, apesar de visão fraca, o que incentiva uma abordagem furtiva. Andar agachado, observar padrões de movimento e evitar superfícies barulhentas torna-se essencial. O ambiente é usado contra o jogador: vidro partido no chão denuncia a nossa posição, massas orgânicas estranhas atrasam o movimento e podem comprometer uma fuga. Esta atenção ao detalhe torna cada deslocação tensa e interessante.
Quando o confronto é inevitável, Elena dispõe de um arsenal variado, que vai sendo desbloqueado ao longo da aventura. O combate corpo a corpo começa de forma simples, com uma arma improvisada como um taco de basebol, mas evolui com melhorias e novas opções. À distância, surgem armas de fogo como revólveres, caçadeiras e armas automáticas, bem como opções mais criativas, como uma pistola elétrica que, além de servir para atordoar inimigos, permite reativar sistemas elétricos e abrir novas áreas.

Mundo e história
O mundo de I Hate This Place é pequeno em escala, mas rico em conteúdo e significado. A história vai-se revelando de forma gradual, através de documentos, diálogos, memórias e ambientes cuidadosamente construídos. A procura pela amiga desaparecida cruza-se com a descoberta do passado da própria Elena, da sua mãe e de um culto antigo dedicado a uma entidade misteriosa, muitas vezes referida como o deus cornudo.
Há uma sensação constante de que este lugar está vivo, ou pelo menos consciente da presença da protagonista. A floresta, os animais mutantes, os seguidores do culto e as criaturas que habitam o subsolo contribuem para uma narrativa ambiental forte, onde nem tudo é explicado de forma direta. O jogo confia no jogador para juntar as peças, interpretar símbolos e tirar conclusões, o que resulta numa história envolvente e, por vezes, perturbadora.
Um dos elementos mais interessantes são as sequências no mundo espiritual. Nestes momentos, Elena atravessa para uma dimensão paralela que reflete versões distorcidas dos locais reais. Aqui, o objetivo passa por encontrar pistas espirituais, resolver enigmas e evitar ou enfrentar entidades fantasmagóricas. Para lidar com estas ameaças, existe uma lâmpada especial que permite afastar ou destruir espíritos, introduzindo uma dinâmica diferente do combate tradicional. O regresso ao mundo físico exige atenção às pistas recolhidas, já que é necessário responder corretamente a perguntas ou enigmas para avançar.
Grafismo
Visualmente, I Hate This Place aposta num estilo claramente inspirado na banda desenhada. A perspetiva isométrica é complementada por traços fortes, cores contrastantes e uma direção artística que privilegia a clareza e o impacto visual. Um detalhe curioso é o uso de onomatopeias visuais para representar sons, como passos, impactos ou rangidos, reforçando ainda mais a ligação ao meio original que inspirou o jogo.
Este estilo não só confere personalidade ao jogo, como também o torna tecnicamente acessível. Não há aqui grandes exigências de hardware, nem uma quantidade exagerada de opções gráficas. Tudo é simples, funcional e bem conseguido, permitindo que a atenção do jogador se foque na atmosfera e na jogabilidade. As animações são competentes, os efeitos visuais servem bem o propósito e a leitura do espaço é sempre clara, algo essencial num jogo onde o posicionamento é tão importante.

Som
O trabalho sonoro em I Hate This Place é discreto, mas eficaz. Os efeitos sonoros cumprem a sua função, ajudando a criar tensão e a fornecer feedback importante ao jogador, sobretudo no que diz respeito à proximidade de inimigos. O som dos passos, dos ataques e das criaturas é fundamental para a sobrevivência, especialmente nas áreas subterrâneas onde a visibilidade é limitada.
A música surge maioritariamente em segundo plano, entrando de forma mais evidente nos momentos-chave da narrativa ou quando a tensão aumenta. Não se trata de uma banda sonora memorável por si só, mas funciona bem no contexto do jogo, apoiando a atmosfera sem nunca se sobrepor à ação. O silêncio, ou quase silêncio, é muitas vezes tão importante como a música, reforçando a sensação de isolamento e perigo constante.
Conclusão
I Hate This Place é um daqueles jogos cujo título engana. Longe de ser uma experiência frustrante ou desagradável, acaba por ser um título bastante cativante, especialmente para quem aprecia jogos de sobrevivência com foco na exploração e numa narrativa envolvente. A combinação de ação, stealth, crafting e elementos de terror funciona bem, mesmo que algumas destas mecânicas pudessem ter sido exploradas com maior profundidade.
A duração, a rondar as oito a dez horas, sabe a pouco para quem se deixa envolver pelo mundo e pela história, e existem pequenos problemas técnicos, como missões que nem sempre registam corretamente o progresso. Ainda assim, o saldo é claramente positivo. As áreas subterrâneas, em particular, oferecem alguns dos melhores momentos do jogo, evocando o espírito de clássicos pós-apocalípticos e recompensando a curiosidade do jogador.
No final, I Hate This Place é uma experiência sólida, com personalidade e identidade próprias, que consegue equilibrar tensão, mistério e diversão. Pode não ser um marco do género, mas é facilmente recomendável para quem procura algo diferente, atmosférico e bem construído, e prova que, afinal, há lugares que odiamos… mas onde vale a pena passar algum tempo.