Durante os anos 90, o género das aventuras point and click viveu o seu auge, com clássicos como Monkey Island, Day of the Tentacle ou Broken Sword a marcarem toda uma geração. No meio destes nomes lendários surgiu também Simon the Sorcerer, uma série britânica que se destacou pelo humor sarcástico e pela irreverência do seu protagonista. Décadas depois, a saga regressa com Simon the Sorcerer: Origins, uma prequela desenvolvida pela italiana Smallthing Studios e publicada pela ININ Games. O objetivo é simples: recuperar o charme e a comédia mordaz do original, enquanto se adapta aos tempos modernos. A questão é se consegue fazê-lo sem perder a alma que o tornou tão especial.
Jogabilidade
Simon the Sorcerer: Origins mantém-se fiel à estrutura clássica das aventuras point and click, mas com um toque moderno. O sistema foi simplificado e adaptado tanto ao rato como ao comando, eliminando as longas listas de ações típicas do género, como empurrar, puxar ou olhar, e substituindo-as por interações contextuais. O resultado é uma experiência mais fluida e acessível, sem sacrificar a profundidade que os fãs esperam.
No PC, o jogador pode ainda recorrer ao sistema tradicional de clicar para mover o protagonista, enquanto nas consolas o controlo direto através do analógico facilita a navegação. O botão de destaque de objetos interativos é útil e evita frustrações, especialmente em zonas mais detalhadas. Há também a possibilidade de combinar objetos e de interagir com o próprio Simon, mantendo viva a lógica de experimentação que define o género.
A estrutura geral é clássica: resolver puzzles, recolher objetos e explorar cenários variados. Contudo, o jogo introduz algumas novidades interessantes, como o uso do chapéu mágico de Simon, que serve não só como inventário mas também como ferramenta de progressão. O chapéu pode evoluir, alterando o comportamento de certos itens e adicionando uma camada estratégica às resoluções dos enigmas. Além disso, Simon aprende feitiços que permitem novas formas de interação com o ambiente, tornando o progresso mais dinâmico.

Mundo e história
A narrativa começa em 1993, com um Simon adolescente que não se adapta à escola nem à mudança de casa. Após um breve tutorial, é transportado através de um portal mágico para um mundo de fantasia onde conhece o feiticeiro Calypso, que lhe revela uma profecia: um jovem insolente vindo de outro mundo ajudará a recuperar os tomos do Primeiro Feiticeiro. É a desculpa perfeita para mergulhar numa aventura cheia de humor, mistério e autodepreciação.
O jogo é um verdadeiro regresso às origens, tanto no tom como nas personagens. Reencontramos rostos conhecidos, incluindo o vilão Sordid e o cão Chippy, que aqui aparecem rejuvenescidos por se tratar de uma prequela. A escrita mantém o humor britânico afiado, com Simon a roubar dinheiro da caixa de donativos de uma igreja, a recusar ajudar um estudante petrificado porque “fica mais fixe assim”, e a queixar-se diretamente ao jogador quando é forçado a realizar tarefas que detesta.
Este humor meta e autorreferencial continua a ser o coração da série. Chris Barrie, famoso por Red Dwarf e voz original de Simon na versão CD-ROM, regressa e dá vida novamente ao personagem com uma entrega perfeita. A combinação entre escrita espirituosa e interpretação vocal de qualidade faz com que Simon pareça tão sarcástico e carismático como sempre foi.
Grafismo
O estilo visual é talvez o ponto mais controverso de Simon the Sorcerer: Origins. A Smallthing Studios optou por um visual 2.5D moderno, com animações suaves e cenários coloridos, mas nem todos os fãs vão apreciar a mudança. Apesar de tecnicamente competente, o novo aspeto perde parte do charme detalhado e artesanal dos jogos em pixel art originais.
Os ambientes continuam variados e criativos, misturando elementos medievais, mágicos e absurdos, como uma floresta de cogumelos falantes ou uma torre habitada por estudantes de magia incompetentes. Ainda assim, há momentos em que o detalhe visual parece inconsistente, e algumas áreas mais simples contrastam com outras muito mais trabalhadas.
Mesmo assim, há que reconhecer o esforço em modernizar o aspeto sem trair totalmente a identidade da série. As cutscenes e as expressões faciais de Simon estão bem animadas, e o design dos personagens mantém a sua irreverência visual. No geral, o resultado é competente, mas dificilmente memorável.

Som
O trabalho sonoro é um dos grandes trunfos do jogo. A presença de Chris Barrie é uma vitória para os fãs da série, trazendo autenticidade e carisma ao protagonista. A entrega das falas é cheia de ironia e ritmo cómico, o que contribui fortemente para o tom irreverente da narrativa. As restantes vozes também estão à altura, com um elenco que consegue equilibrar humor e personalidade.
A banda sonora acompanha bem a ação, alternando entre temas mágicos, ligeiramente misteriosos e melodias cómicas que reforçam a atmosfera encantada do mundo. Os efeitos sonoros, desde o folhear do diário mágico até ao estalar dos feitiços, estão bem integrados e ajudam a criar imersão. O humor sonoro — pequenos sons caricatos durante certas interações — é uma boa homenagem ao estilo das aventuras clássicas.
Conclusão
Simon the Sorcerer: Origins é um regresso inesperado mas bem-vindo a uma das séries mais carismáticas do género. A Smallthing Studios conseguiu capturar a alma da franquia original, equilibrando o humor britânico, a irreverência e a jogabilidade clássica com pequenas inovações que modernizam a experiência.
Nem tudo é perfeito: o novo estilo gráfico pode não agradar a todos e há uma sequência final algo repetitiva que quebra o ritmo. No entanto, são falhas menores num jogo claramente feito com paixão e respeito pelo material original.
Com uma boa duração, puzzles inteligentes e um protagonista que continua tão mordaz e engraçado como nos anos 90, Simon the Sorcerer: Origins é uma carta de amor às aventuras point and click e uma prova de que o género ainda tem espaço no presente. Para os nostálgicos, é como reencontrar um velho amigo; para os novatos, é uma oportunidade de descobrir um clássico moderno cheio de charme e personalidade.
Simon the Sorcerer está de volta, e se este for o ponto de partida para novas aventuras, o feitiço está lançado com sucesso.