Análise: Sovereign Syndicate

Sovereign Syndicate chamou imediatamente a atenção pela forma como troca os tradicionais dados por cartas de Tarot para resolver desafios. Esta decisão de design não é apenas um detalhe estético, mas uma mecânica central que define o ritmo e a identidade do jogo. A isto junta-se uma Londres vitoriana com forte influência steampunk, envolta numa atmosfera noir carregada de fumo, intrigas e personagens moralmente ambíguas. O resultado é um RPG isométrico fortemente narrativo que procura seguir as pisadas de experiências como Disco Elysium, privilegiando escolhas, diálogo e interpretação em detrimento do combate tradicional.

A grande questão é perceber se esta aposta num sistema alternativo e numa narrativa densa consegue manter o interesse ao longo de toda a campanha. Sovereign Syndicate é um jogo que vive quase exclusivamente da sua escrita, das personagens e das decisões do jogador. Quem procurar ação constante dificilmente encontrará aqui o que deseja, mas quem apreciar uma boa história com múltiplas ramificações poderá descobrir um título surpreendentemente envolvente.

Jogabilidade

A jogabilidade assenta num modelo simples de point and click, com deslocação pelo mapa através do rato e interação com personagens e objetos através de cliques. Existe a possibilidade de destacar elementos interativos e aceder rapidamente ao inventário e ao diário, mas no essencial trata-se de explorar, conversar e tomar decisões. O combate tradicional está praticamente ausente, sendo substituído por testes de habilidade resolvidos com o sistema de Tarot.

Cada personagem possui quatro competências principais que definem a sua forma de interagir com o mundo. Sempre que surge um desafio, o jogo puxa uma carta de um dos naipes do Tarot associados a essa habilidade e soma o valor ao atributo correspondente. Se o resultado atingir o valor necessário, a ação tem sucesso. Existem ainda cartas especiais que funcionam como sucessos ou falhanços automáticos, replicando o conceito de críticos e desastres dos sistemas baseados em dados.

O sistema é complementado pelas cartas dos Arcanos Maiores, que não são usadas em testes mas desbloqueiam opções de diálogo únicas, refletindo traços de personalidade adquiridos ao longo do jogo. Existe também um atributo de temperamento que altera a forma como cada personagem reage às situações, abrindo caminhos narrativos diferentes consoante o jogador opte por respostas mais otimistas ou mais cínicas.

Apesar da originalidade, a jogabilidade pode tornar-se repetitiva, já que a maior parte do tempo é passada a ler texto e a selecionar respostas. Os puzzles são simples e raramente vão além de encontrar um objeto e utilizá-lo no local correto. Existem ainda algumas limitações técnicas, como problemas ocasionais de pathfinding, personagens presas em escadas e uma câmara fixa que pode dificultar a navegação e provocar algum desconforto visual.

Outro aspeto importante é a estrutura dos capítulos. Certas ações fazem avançar a história e podem bloquear missões secundárias sem aviso claro, o que incentiva a guardar frequentemente o progresso. Esta falta de transparência pode gerar frustração, especialmente num jogo onde completar histórias secundárias é uma das principais fontes de desenvolvimento de personagem.

Mundo e história

O jogo acompanha três protagonistas cujas histórias se cruzam ao longo de dezoito capítulos. Atticus Daley é um minotauro órfão com talento para ilusões e uma tendência para afogar mágoas no álcool. Clara Reed é uma antiga corsária astuta que sonha abandonar Londres. Theodore Redgrave é um caçador de monstros e inventor acompanhado pelo seu autómato Otto. Cada um tem objetivos próprios, linhas narrativas distintas e estilos de jogo ligeiramente diferentes.

A narrativa desenvolve-se como uma teia de intrigas onde conspirações, assassinos em série e figuras misteriosas surgem como elementos comuns. Um homem mascarado que solicita favores clandestinos e um homicida que persegue cortesãs funcionam como fios condutores que mantêm as histórias ligadas. O mistério é suficientemente forte para motivar a progressão, embora o ritmo nem sempre seja equilibrado.

Os primeiros capítulos estão repletos de personagens para conhecer, locais para explorar e missões secundárias para completar. No entanto, a segunda metade do jogo apresenta menos conteúdo opcional, o que pode dar a sensação de vazio num título que depende quase exclusivamente da interação social. Ainda assim, as histórias individuais são interessantes e apresentam tonalidades distintas, desde drama policial a intriga de espionagem e reflexões sobre consciência e guerra.

As ramificações narrativas e as escolhas do jogador influenciam o desenrolar dos acontecimentos, o que incentiva a experimentação. Algumas pistas e falsos indícios estão bem construídos, contribuindo para um mistério envolvente, embora o desfecho possa parecer apressado e menos impactante do que o desenvolvimento inicial.

Grafismo

Visualmente, Sovereign Syndicate apresenta uma direção artística sólida que capta bem o ambiente de uma Londres steampunk decadente. Ruas enevoadas, iluminação difusa e interiores carregados de maquinaria ajudam a construir uma atmosfera convincente. O design das personagens é particularmente conseguido, com destaque para criaturas fantásticas e autómatos que se integram naturalmente no cenário.

O jogo utiliza uma perspetiva isométrica clássica, mas a impossibilidade de rodar a câmara limita a exploração visual e pode dificultar a leitura de certos espaços. Em mapas maiores esta limitação é menos problemática, mas em áreas mais complexas torna-se evidente.

Ocasionalmente surgem ilustrações estáticas que acompanham momentos narrativos específicos, acrescentando impacto visual a certas cenas. No geral, não se trata de um jogo tecnicamente impressionante, mas a consistência estética e o cuidado no design compensam a simplicidade gráfica.

Som

O design sonoro cumpre o seu papel ao criar um ambiente coerente com o tema steampunk. Os sons de fundo, como maquinaria e ruído urbano, ajudam a reforçar a imersão. No entanto, a banda sonora sofre de pouca variedade, recorrendo frequentemente a pequenos loops que se repetem ao longo da experiência.

A ausência de dobragem é um dos pontos mais notórios. Num jogo tão dependente de texto e diálogo, a inclusão de vozes teria contribuído significativamente para a caracterização das personagens e para reduzir a fadiga de leitura em sessões mais longas. Ainda assim, a qualidade da escrita consegue sustentar o interesse na maioria das situações.

Conclusão

Sovereign Syndicate é um RPG narrativo que aposta numa identidade própria através do uso de cartas de Tarot como mecânica central e de um mundo steampunk envolvente. A história de três protagonistas interligados, repleta de conspirações e mistérios, é o principal motor da experiência e oferece momentos genuinamente interessantes.

O jogo tem limitações claras. A segunda metade apresenta menos conteúdo, a câmara fixa dificulta a navegação, existem pequenos problemas técnicos e a ausência de vozes pesa num título tão centrado no texto. Ainda assim, a qualidade da escrita, a originalidade do sistema de resolução de desafios e o charme das personagens conseguem manter o interesse.

Não é uma obra que redefina o género, mas demonstra potencial e personalidade. Para quem procura uma aventura focada na narrativa, nas escolhas e num ambiente noir steampunk, Sovereign Syndicate é uma recomendação fácil. Para quem prefere ação constante e mecânicas complexas, poderá parecer demasiado estático. É um jogo que vive da sua história e que, apesar das imperfeições, mostra que o estúdio tem bases sólidas para evoluir em projetos futuros.

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