Antevisão: Vampires: Bloodlord Rising

Vampires: Bloodlord Rising é daqueles jogos indie que entram no ano a prometer mundos e fundos, e que pelo menos em ambição não ficam nada atrás de produções bem mais musculadas. Lançado em acesso antecipado no final de Janeiro de 2026, este RPG de mundo aberto com fortes elementos de sandbox, sobrevivência e construção de bases coloca-nos na pele de um lorde vampiro acabado de despertar, determinado a reconquistar as suas terras, erguer novamente o seu castelo e libertar o mundo de uma maldição ancestral envolta num nevoeiro que separa regiões inteiras.

À primeira vista, a premissa é irresistível. Vampiros, castelos góticos, aldeões desconfiados, seitas religiosas e um mundo aberto pronto a ser conquistado são ingredientes que, bem misturados, costumam resultar. Bloodlord Rising não esconde as suas inspirações na literatura clássica do vampirismo, evocando imagens que remetem imediatamente para figuras como Drácula ou Nosferatu, mas tenta ir mais além ao juntar tudo isto a sistemas de gestão, construção e progressão típicos de jogos de sobrevivência modernos.

O resultado, nesta fase inicial, é um jogo com uma identidade ambiciosa mas ainda algo fragmentada. Há aqui ideias muito interessantes, momentos de verdadeiro charme e uma atmosfera que sabe exatamente o que quer ser, mas também há arestas por limar, sistemas que nem sempre comunicam bem entre si e uma sensação constante de que estamos a jogar algo que ainda não atingiu o seu verdadeiro potencial. Como acontece tantas vezes no acesso antecipado, o que está presente é suficiente para despertar curiosidade, mas não para convencer por completo.

Jogabilidade

A jogabilidade de Vampires: Bloodlord Rising assenta em vários pilares distintos: combate em tempo real, exploração em mundo aberto, gestão de recursos, construção de estruturas e progressão narrativa. Cada um destes elementos funciona de forma relativamente competente por si só, mas nem sempre se encaixam de forma fluida quando colocados lado a lado.

O combate é provavelmente um dos sistemas mais imediatos e intuitivos do jogo. Controlamos o nosso vampiro numa perspetiva de ação, enfrentando inimigos humanos, membros de cultos hostis e outras ameaças que não veem com bons olhos a nossa ascensão ao poder. Os ataques são simples de executar, mas rapidamente se percebe que carregar botões de forma desenfreada não é sempre a melhor solução. Existe espaço para abordagem estratégica, especialmente quando optamos por atacar sorrateiramente, aproveitando a velocidade e a natureza predatória da personagem. Apanhar um inimigo desprevenido, drenar-lhe o sangue e desaparecer na sombra sente-se muito mais fiel à fantasia vampírica do que entrar de frente em confrontos caóticos.

Ainda assim, o nível de desafio acaba por ser irregular. Se o jogador for minimamente cuidadoso, é fácil evitar situações realmente perigosas. Os inimigos desistem rapidamente da perseguição se nos afastarmos um pouco, permitindo recuperar e voltar à carga sem grandes consequências. Não se pede que sejamos perseguidos até ao fim do mapa, mas um meio-termo tornaria os encontros mais tensos e memoráveis. Também a perseguição de presas pode ser algo imprecisa, com ataques que nos fazem avançar demasiado e falhar o alvo, quebrando o ritmo do combate.

A exploração do mundo é recompensadora em termos visuais, mas nem sempre em termos mecânicos. Existem atividades secundárias, locais para descobrir e recursos para recolher, mas raramente senti uma grande motivação para me afastar da linha narrativa principal. Falta um pouco mais de incentivo claro para explorar por explorar, seja através de recompensas únicas, eventos inesperados ou consequências reais para o mundo.

Mundo e história

Narrativamente, Bloodlord Rising aposta numa estrutura clássica, mas eficaz. A ideia de recuperar algo que nos foi roubado e reclamar o nosso lugar num mundo hostil é um ponto de partida sólido, especialmente num contexto de fantasia gótica. A progressão da história leva-nos a lidar com diferentes aldeias, personagens e rumores, permitindo decidir quem será transformado em servo e quem acabará como simples alimento.

Esta liberdade de escolha é interessante, mas acaba por não ter o impacto que poderia. Os habitantes do mundo parecem saber que somos um vampiro, mas ao mesmo tempo não demonstram grande preocupação com o desaparecimento constante de amigos e familiares. Isto cria uma estranheza narrativa que quebra a suspensão da descrença e parece uma oportunidade perdida para explorar melhor relações de causa e efeito. Disfarces, mentiras, represálias ou mudanças de comportamento nas aldeias poderiam acrescentar camadas importantes à experiência.

O mundo em si é rico em conceito, mas ainda algo superficial na execução. As regiões estão bem definidas visualmente, e a maldição do nevoeiro funciona como uma boa desculpa narrativa para limitar o progresso inicial, mas as histórias individuais das personagens secundárias raramente vão além do funcional. Falta-lhes profundidade, rotina, reações credíveis às ações do jogador. Em jogos de RPG, são muitas vezes estes pequenos detalhes que fazem o mundo parecer vivo, e é aqui que Bloodlord Rising mais acusa a sua condição de jogo ainda em desenvolvimento.

Grafismo

Visualmente, Vampires: Bloodlord Rising é talvez onde o jogo mais brilha. A direção artística abraça sem pudor o imaginário gótico, com florestas banhadas pela lua, arquitetura imponente e uma paleta de cores que oscila entre o sombrio e o majestoso. Há uma beleza melancólica no mundo que convida à contemplação, e muitos cenários conseguem transmitir a sensação de decadência e poder antigo que se espera de uma fantasia vampírica.

A iluminação é particularmente eficaz, ajudando a criar ambientes densos e atmosféricos. Caminhar por uma floresta enevoada ou aproximar-se de um castelo em ruínas durante a noite são momentos em que o jogo realmente se destaca. No entanto, esta força visual é por vezes prejudicada por problemas técnicos. Bugs como inimigos presos em paredes, corpos a atravessar o chão ou interações estranhas com o ambiente quebram a imersão e lembram-nos constantemente que estamos perante uma versão inacabada do jogo.

Felizmente, não estamos perante falhas catastróficas, mas são suficientemente frequentes para causar frustração, sobretudo em momentos de combate ou exploração mais intensa. Com mais polimento e otimização, o grafismo de Bloodlord Rising tem tudo para se tornar um dos seus maiores trunfos.

Som

O trabalho sonoro acompanha bem a atmosfera visual, mesmo que não seja particularmente memorável. A banda sonora aposta em temas discretos, sombrios e ambientes, que ajudam a reforçar o tom gótico sem nunca se imporem demasiado. Funciona bem como pano de fundo, mas raramente se destaca ao ponto de ficar na memória.

Os efeitos sonoros cumprem a sua função, desde o som dos ataques até aos ambientes naturais do mundo, mas também aqui há espaço para melhorias. Alguns impactos podiam ter mais peso, e certas ações, como a drenagem de sangue, beneficiariam de um tratamento sonoro mais marcante para reforçar a sensação de poder e perigo.

As vozes, quando presentes, são aceitáveis, mas limitadas. Muitas interações dependem mais de texto do que de interpretação vocal, o que não é necessariamente um problema, mas contribui para a sensação geral de que o mundo ainda não está totalmente vivo.

Conclusão

Vampires: Bloodlord Rising é um jogo cheio de potencial, claramente desenvolvido por uma equipa com uma visão forte e uma paixão evidente pelo género. A combinação de RPG de ação, construção de bases, gestão de servos e narrativa gótica é ambiciosa e, em teoria, extremamente apelativa. Em prática, nesta fase de acesso antecipado, essa ambição resulta numa experiência algo desigual, onde bons momentos coexistem com sistemas pouco integrados e escolhas de design que ainda precisam de maturar.

Para quem gosta de mundos sombrios, vampiros e jogos com foco em construção e progressão a longo prazo, há aqui motivos suficientes para ficar atento e, talvez, entrar já sabendo ao que vai. Bloodlord Rising não é ainda uma experiência coesa nem completamente satisfatória, mas mostra sinais claros de que pode vir a sê-lo com tempo, feedback da comunidade e trabalho contínuo dos developers.

A paciência será fundamental. Quem estiver disposto a aceitar falhas técnicas, alguma confusão de identidade e um ritmo por vezes irregular poderá encontrar aqui uma base muito interessante para o futuro. Se os vários sistemas conseguirem finalmente conversar entre si e o mundo ganhar mais profundidade e reatividade, Vampires: Bloodlord Rising tem tudo para se tornar num daqueles jogos indie que começam tortos, mas acabam por se afirmar como algo especial.

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