Há algo de curioso na forma como os videojogos tendem a afastar-nos da realidade. Mundos fantásticos, cenários pós-apocalípticos ou universos de ficção científica dominam o panorama, oferecendo uma fuga clara ao quotidiano. No entanto, de vez em quando surge uma proposta que faz exatamente o contrário: pega num ambiente banal e transforma-o em algo absurdo e divertido. Last Man Sitting é um desses casos.
Aqui, o cenário é um escritório — aquele espaço cinzento, repetitivo e muitas vezes entediante que tantos conhecem bem. Mas neste jogo, secretárias ganham vida, cadeiras tornam-se veículos de combate e o aborrecimento do trabalho transforma-se num campo de batalha caótico. A premissa é simples, quase parva à primeira vista, mas tem um charme imediato. Afinal, quem nunca quis resolver um dia mau no escritório com uma minigun?
Apesar desta ideia forte, Last Man Sitting não vive apenas do conceito. Trata-se de um roguelike de ação na terceira pessoa que tenta combinar acessibilidade com profundidade, inspiração clássica com sistemas modernos. O resultado é um jogo que tanto diverte como, ocasionalmente, frustra.
Jogabilidade
A base da jogabilidade é fácil de compreender: movimentas-te numa cadeira com rodas enquanto disparas incessantemente contra vagas de inimigos. A comparação mais direta seria imaginar um Vampire Survivors em terceira pessoa, mas com controlo manual mais ativo. Aqui não basta posicionar — é preciso reagir, desviar, usar habilidades e gerir o caos.
Desde o início, o jogo entrega-te uma minigun, que serve como introdução perfeita ao ritmo frenético que te espera. Tens também acesso a um dash para escapar a situações complicadas e a um ataque giratório que limpa grupos de inimigos mais próximos. Esta combinação cria uma dinâmica constante de recuo e ataque, aquele clássico “andar para trás enquanto disparas como um louco” que tantos shooters antigos popularizaram.
No entanto, há mais profundidade do que parece à primeira vista. Cada inimigo derrotado deixa cair orbes que funcionam como experiência. Ao subir de nível, podes escolher entre três melhorias, criando uma progressão típica do género roguelike. Algumas melhorias aumentam atributos básicos, enquanto outras introduzem efeitos mais interessantes, como torres automáticas ou ataques especiais adicionais.
O verdadeiro brilho surge quando consegues combinar habilidades de forma eficaz. Certas melhorias evoluem para versões mais poderosas quando usadas em conjunto, permitindo limpar ecrãs inteiros de inimigos antes sequer de chegarem perto. É nesses momentos que Last Man Sitting atinge o seu pico: caos controlado, poder absoluto e uma sensação de domínio total.
Para além do combate, existem pequenos objetivos secundários durante as partidas. Desde destruir caixas até recolher lixo espalhado pelo mapa, estas tarefas oferecem recompensas adicionais e ajudam a quebrar a monotonia. Nem todos os eventos são positivos, no entanto. Alguns, como zonas de morte que se fecham sobre ti, obrigam a jogar de forma mais defensiva e aumentam a tensão.

Mundo e história
Não é um jogo particularmente focado na narrativa, mas o conceito por si só já constrói uma identidade forte. A ideia de um escritório onde tudo ganha vida — secretárias agressivas, cadeiras hostis e equipamento revoltado — é absurda, mas eficaz.
Há um humor implícito em tudo isto. Não é um jogo que te conte uma história profunda, mas transmite uma sensação clara de sátira ao ambiente corporativo. É como se o stress acumulado dos trabalhadores tivesse finalmente rebentado, transformando o espaço num campo de guerra surreal.
Os diferentes níveis apresentam variações de layout, mantendo a sensação de progressão mesmo sem uma narrativa tradicional. Cada espaço parece uma nova versão do mesmo pesadelo corporativo, o que encaixa bem na repetição típica do género.
Ainda assim, quem procura uma história mais desenvolvida poderá ficar desiludido. Last Man Sitting não tenta ser mais do que um playground caótico, e essa escolha é tanto uma força como uma limitação.
Grafismo
Visualmente, o jogo aposta num estilo simples mas eficaz. Os ambientes são reconhecíveis como escritórios, mas com um toque exagerado que ajuda a vender o absurdo da situação. Não é um jogo tecnicamente impressionante, mas também não precisa de o ser.
Os inimigos são criativos dentro das limitações do conceito. Ver móveis ganhar vida e atacar-te nunca deixa de ter algum impacto, especialmente nas primeiras horas. As animações são suficientemente fluídas para acompanhar o ritmo acelerado da ação, e os efeitos visuais das habilidades ajudam a transmitir poder.
À medida que o caos aumenta, o ecrã enche-se de projéteis, explosões e efeitos. Felizmente, o jogo consegue manter uma boa legibilidade na maior parte do tempo, algo essencial neste tipo de experiência.
Ainda assim, há uma certa repetição visual que acaba por se tornar evidente. As variações existem, mas não são suficientes para manter o interesse a longo prazo.

Som
O design de som cumpre bem o seu papel, embora não se destaque particularmente. As armas têm impacto, os inimigos produzem ruídos distintos e há feedback suficiente para tornar cada ação satisfatória.
A banda sonora acompanha o ritmo frenético da jogabilidade, mas raramente se torna memorável. Funciona mais como pano de fundo do que como elemento central da experiência.
Onde o som brilha mais é na sensação de poder. Quando estás no meio de uma run bem conseguida, com múltiplas habilidades ativas e inimigos a cair em massa, o conjunto de efeitos sonoros ajuda a reforçar a intensidade do momento.
Ainda assim, tal como outros aspetos do jogo, acaba por não evoluir muito ao longo do tempo, contribuindo para a sensação geral de repetição.
Conclusão
Last Man Sitting é um jogo que impressiona rapidamente. O conceito é forte, a jogabilidade é imediata e há uma sensação constante de progresso nas primeiras horas. Desbloquear novas armas, experimentar diferentes builds e encontrar combinações eficazes é genuinamente divertido.
No entanto, à medida que o tempo passa, começam a surgir as limitações. A repetição instala-se, a variedade não é suficiente para manter o interesse e o modo single-player revela algumas fragilidades. Existem ideias interessantes, como mecânicas adicionais e modos PvP, mas nem sempre são plenamente aproveitadas.
É um jogo que parece ter todos os ingredientes certos, mas que não consegue manter o impulso inicial. Para sessões curtas, é excelente. Para investimento a longo prazo, fica aquém de outros títulos do género.
Ainda assim, há mérito naquilo que oferece. Para quem procura um roguelike acessível, com uma ideia diferente e momentos de puro caos divertido, Last Man Sitting vale a pena. Só não esperes que substitua os gigantes do género — é mais uma pausa divertida do que uma obsessão duradoura.