REPLACED chega como uma daquelas surpresas que não pedem licença para entrar, mas que rapidamente se tornam difíceis de ignorar. Num panorama indie cada vez mais competitivo e saturado de ideias interessantes, destacar-se exige mais do que apenas competência técnica. Exige identidade. Exige intenção. E, acima de tudo, exige aquela rara capacidade de surpreender o jogador mesmo quando este já acha que percebeu o que o jogo tem para oferecer.
Desde os primeiros momentos, REPLACED deixa claro que não é apenas mais um projeto estilizado a tentar capitalizar a popularidade do cyberpunk. Há aqui uma visão artística muito definida, quase obsessiva, que se revela não só no aspeto visual, mas também na forma como o jogo conduz a experiência. A sensação inicial é de impacto visual, mas rapidamente se transforma em curiosidade e, depois, em envolvimento.
Desenvolvido pela Sad Cat Studios e publicado sob a alçada da Thunderful, este título marca a estreia do estúdio — e que estreia é. Embora não atinja necessariamente o estatuto de obras-primas recentes do circuito indie, posiciona-se confortavelmente ao lado de produções que demonstram ambição e talento em doses generosas. Ao longo de cerca de uma dúzia de horas, REPLACED constrói uma experiência que, apesar de algumas irregularidades, nunca deixa de procurar novas formas de cativar o jogador.
Há jogos que se esgotam nas primeiras horas. REPLACED faz precisamente o oposto: reinventa-se, surpreende e mantém uma energia criativa constante até aos créditos finais.
Jogabilidade
Se há um ponto onde REPLACED mostra alguma hesitação, é na sua jogabilidade. Não porque seja má — longe disso — mas porque é o elemento que mais facilmente revela limitações face à excelência apresentada noutros aspetos.
O combate é, à primeira vista, bastante familiar. Inspirado claramente em sistemas já popularizados por séries como Batman Arkham, assenta em combos simples, contra-ataques e controlo de grupos de inimigos. Inicialmente pode parecer superficial, quase básico, mas à medida que o jogo avança, começa a revelar camadas adicionais. Novas habilidades, tipos de inimigos mais exigentes e ferramentas defensivas vão sendo introduzidos, obrigando o jogador a adaptar-se.
Não é um sistema particularmente profundo ou inovador, mas funciona. E funciona bem. Mais importante ainda, é satisfatório. Há uma fluidez e um impacto nos combates que fazem com que cada confronto seja visualmente apelativo e mecanicamente agradável. Limpar uma sala de inimigos nunca perde aquele efeito de recompensa imediata.
Já o platforming apresenta algumas fragilidades mais evidentes. O movimento do protagonista tende a ser um pouco lento e, por vezes, impreciso. O controlo no ar é limitado, o que pode gerar frustração em sequências mais exigentes. Existem também inconsistências ocasionais, como a forma como o personagem interage com saliências e plataformas, criando momentos em que o comportamento não corresponde às expectativas do jogador.
Além disso, muitas das secções de plataformas baseiam-se em padrões bastante tradicionais: evitar obstáculos com timing preciso, esperar por aberturas em sistemas de vigilância ou atravessar zonas perigosas com movimentos calculados. Não há grande espaço para criatividade ou exploração nestes momentos, o que faz com que algumas partes do jogo pareçam mais funcionais do que inspiradas.
Apesar disso, há uma variedade constante que impede a experiência de se tornar monótona. REPLACED raramente fica preso demasiado tempo na mesma mecânica, alternando entre combate, exploração e sequências mais guiadas. Essa diversidade ajuda a compensar as limitações individuais de cada componente.

Mundo e história
REPLACED constrói um mundo que, embora familiar em termos de género, consegue destacar-se pela forma como o apresenta. Inserido num universo claramente inspirado pelo cyberpunk, o jogo mergulha em temas de desigualdade social, avanço tecnológico descontrolado e as consequências mais sombrias da ambição humana.
A narrativa é um dos seus pontos fortes, mas também um dos mais delicados de abordar. Parte do seu impacto reside precisamente na forma como se desenrola, nas revelações graduais e nos momentos inesperados. É um jogo que beneficia de ser descoberto sem grandes antecipações.
O mundo é sujo, decadente e, ao mesmo tempo, fascinante. Cada cenário parece contar uma história própria, reforçando a sensação de que estamos perante uma sociedade fragmentada e em constante tensão. Não é apenas pano de fundo; é uma presença ativa que influencia a forma como interpretamos os acontecimentos.
No entanto, nem tudo funciona na perfeição. O ritmo narrativo sofre com algumas quebras. Existem momentos em que a história abranda de forma natural e até bem-vinda, permitindo absorver o ambiente, conhecer personagens secundárias e explorar novas áreas. Um exemplo disso é a visita a uma comunidade improvável construída numa estação de comboios abandonada — um momento que acrescenta profundidade e humanidade ao mundo do jogo.
Por outro lado, há também sequências em que o jogo interrompe o seu próprio impulso com tarefas pouco inspiradas, como missões de recolha ou atividades que parecem existir apenas para prolongar a duração. Estes momentos quebram o ritmo e podem diminuir o impacto emocional de certas partes da narrativa.
Ainda assim, a escrita mantém-se consistente na maior parte do tempo. Os diálogos são eficazes, as personagens têm identidade e há uma clara intenção em explorar temas relevantes sem cair em clichés excessivos.
Grafismo
Se há um aspeto onde REPLACED brilha sem qualquer dúvida, é no grafismo. Este é, muito provavelmente, um dos jogos mais visualmente impressionantes do seu género.
A combinação de sprites 2D com ambientes construídos em 3D cria uma estética híbrida que remete para o estilo HD-2D, mas com uma identidade própria muito mais sombria e detalhada. Cada cenário é cuidadosamente elaborado, com uma atenção ao detalhe que impressiona constantemente.
A iluminação desempenha um papel fundamental. Há momentos em que o protagonista surge apenas como uma silhueta recortada contra luzes intensas, criando imagens de grande impacto visual. Noutras situações, a iluminação suave realça pormenores subtis, dando profundidade aos ambientes.
Mas o que realmente eleva o grafismo de REPLACED é a sua abordagem cinematográfica. Ao contrário de muitos jogos 2D que mantêm uma perspetiva fixa, aqui a “câmara” move-se, aproxima-se, afasta-se e até roda ligeiramente. Este dinamismo transforma cada cena numa espécie de diorama vivo, onde diferentes camadas do cenário se revelam de forma fluida.
Essa abordagem não é apenas estética; também contribui para a narrativa. A forma como a câmara enquadra certas situações reforça emoções, cria tensão e destaca elementos importantes do ambiente.
Outro detalhe interessante é a forma como o jogo utiliza a linearidade a seu favor. Como a progressão é maioritariamente estruturada, os desenvolvedores conseguem controlar exatamente o que o jogador vê e quando vê. Isso permite criar momentos visuais altamente impactantes que não seriam possíveis num ambiente mais aberto.
Cada área é única e, muitas vezes, só é visitada uma vez, o que aumenta ainda mais o seu impacto. Não há reutilização excessiva de cenários, o que reforça a sensação de cuidado e intenção artística.

Som
O trabalho sonoro em REPLACED acompanha a qualidade visual e ajuda a consolidar a atmosfera do jogo.
A banda sonora é um dos seus grandes trunfos. Com uma forte influência eletrónica, encaixa perfeitamente no ambiente cyberpunk, mas consegue variar o suficiente para não se tornar repetitiva. Há temas mais intensos que acompanham os momentos de ação, e outros mais contidos que sublinham as partes narrativas ou de exploração.
O som não se limita à música. Os efeitos sonoros são igualmente importantes na construção do mundo. O ruído distante de maquinaria, o zumbido de luzes artificiais, os ecos de ambientes industriais — tudo contribui para criar uma sensação de lugar credível e imersivo.
A sincronização entre som e imagem é particularmente eficaz. Em certos momentos, a música intensifica-se exatamente quando a ação atinge o seu pico, reforçando o impacto das sequências. Noutras ocasiões, o silêncio é utilizado de forma estratégica, criando tensão ou destacando detalhes subtis.
As vozes e diálogos, quando presentes, cumprem bem o seu papel, ajudando a dar personalidade às personagens sem se sobreporem à experiência geral.
No conjunto, o som não é apenas um complemento; é uma parte essencial da identidade do jogo.
Conclusão
REPLACED é um exemplo claro de como um estúdio estreante pode entrar no mercado com confiança e ambição. Não é um jogo perfeito, mas é um jogo com visão — e isso, por si só, já o coloca num patamar interessante dentro do panorama indie.
As suas falhas são reais: o platforming poderia ser mais refinado, o ritmo narrativo mais consistente e algumas mecânicas mais desenvolvidas. No entanto, nenhuma destas limitações compromete seriamente a experiência global.
O que realmente define REPLACED é a sua capacidade de criar momentos memoráveis. Seja através de um cenário deslumbrante, de uma sequência de ação bem executada ou de um momento narrativo inesperado, o jogo está constantemente a oferecer algo que prende a atenção.
É também um jogo que demonstra respeito pelo jogador. Não assume demasiado, não simplifica em excesso e não tem medo de arriscar em termos de estética e narrativa.
Para um primeiro projeto, é impressionante. Para o futuro da Sad Cat Studios, é promissor.
REPLACED não é apenas uma boa estreia. É um sinal claro de que este estúdio tem potencial para se tornar uma presença relevante no mundo dos videojogos.