Nos últimos anos, o terror independente encontrou um novo filão dentro do subgénero de caça a anomalias, uma vertente que convida os jogadores a observar atentamente ambientes aparentemente banais em busca de algo que não devia estar ali. Entre câmaras de segurança, corredores infinitos e estações de metro sem fim, The 18th Attic – Paranormal Anomaly Hunting Game junta-se a esta tendência com uma proposta simples mas eficaz: um sótão poeirento, cheio de objectos e memórias, onde algo está profundamente errado.
Apesar de não reinventar a fórmula, o jogo consegue construir uma experiência genuinamente inquietante, apoiando-se numa atmosfera opressiva e num ritmo que alterna entre a observação meticulosa e sustos repentinos. É um título curto, contido e focado, que demonstra como um espaço reduzido pode ser suficiente para criar tensão quando bem aproveitado.
Jogabilidade
A estrutura base segue o modelo clássico do loop horror. O jogador encontra-se preso num sótão e deve percorrer repetidamente o mesmo espaço, subindo uma escada no final de cada ciclo. Para avançar em segurança, é necessário identificar anomalias no ambiente. Até aqui, nada de novo para quem já explorou jogos do género.
A diferença está na ferramenta principal: uma câmara Polaroid. Sempre que o jogador detecta algo estranho, deve fotografá-lo. Se a anomalia for correctamente captada, é identificada e o caminho fica seguro. Caso contrário, desperdiça-se um precioso cartucho de filme. A limitação de película introduz uma camada interessante de gestão de risco. Fotografar um objecto normal por engano pode comprometer o progresso, mas ignorar uma anomalia pode ter consequências ainda mais graves.
Se o jogador falhar uma anomalia e tentar subir a escada, será atacado. Este castigo retira vida e pode levar à morte, embora o jogo ofereça medicamentos e checkpoints que evitam frustrações excessivas. Ainda assim, cada subida sem incidentes traz um alívio palpável, reforçando a tensão constante. Tal como nos melhores jogos do género, parte do desafio está em reconhecer quando nada mudou.
O jogo apresenta dois modos distintos: Story e Chase. O primeiro privilegia a atmosfera e a narrativa, permitindo absorver os detalhes do ambiente com menos pressão. Já o modo Chase introduz uma presença hostil que persegue activamente o jogador, acelera a perda de sanidade e inclui anomalias exclusivas. Esta variante intensifica o suspense, especialmente quando se tenta enquadrar uma fotografia enquanto algo se aproxima nas sombras.

Mundo e história
A narrativa é construída de forma ambiental. Os objectos espalhados pelo sótão contam a história de uma relação entre o protagonista e a sua parceira, Emily. Fotografias, roupas e pequenos detalhes sugerem a vida que ambos construíram, enquanto a atmosfera sugere que algo correu tragicamente mal.
Não se trata de uma história particularmente original nem de uma exploração profunda de temas filosóficos. Ainda assim, cumpre o seu papel ao manter o jogador curioso sobre o desfecho. O terror psicológico surge mais da sugestão do que da exposição directa, permitindo que o jogador preencha as lacunas com a sua própria imaginação.
Um dos elementos mais curiosos do jogo é o companheiro felino do protagonista. O gato, personalizável, permite recuperar sanidade ao receber festas. Esta mecânica suaviza a experiência e cria um contraste inesperado com o horror envolvente. No entanto, a sua utilização mecânica poderia ser mais aprofundada. Seria interessante se o animal reagisse às anomalias, oferecendo pistas subtis e reforçando a imersão, já que existe a crença popular de que os animais percebem o que os humanos não conseguem ver.
Grafismo
Visualmente, The 18th Attic aposta num realismo contido, adequado ao espaço limitado que explora. O sótão está repleto de objectos detalhados, desde móveis antigos a caixas esquecidas, criando um ambiente credível e claustrofóbico. A iluminação desempenha um papel crucial, com sombras densas e zonas mal iluminadas que alimentam a sensação de insegurança.
As anomalias variam entre subtis e perturbadoras. Algumas são pequenas alterações fáceis de ignorar, enquanto outras são suficientemente sinistras para provocar um sobressalto. Há momentos particularmente eficazes, como figuras que espreitam por detrás de objectos ou mudanças inesperadas que ocorrem no exacto momento em que se tira uma fotografia.
Um detalhe que poderia ter sido explorado seria a revelação das imagens na própria Polaroid, mostrando os sustos captados no papel fotográfico. Seria um toque estilístico interessante, embora não essencial.

Som
O design sonoro é um dos pilares da atmosfera do jogo. Rangidos da madeira, ruídos distantes e o silêncio pesado do sótão contribuem para uma tensão constante. Cada passo parece ecoar mais do que devia, reforçando a sensação de vulnerabilidade. No modo Chase, o som ganha ainda mais importância. Ouvir uma presença hostil aproximar-se enquanto se tenta identificar uma anomalia cria momentos de puro pânico. A ausência de música intrusiva permite que os efeitos sonoros assumam o protagonismo, tornando cada ruído potencialmente ameaçador.
Os efeitos associados à perda de sanidade, como distorções visuais acompanhadas por sons inquietantes, ajudam a transmitir o desgaste psicológico do protagonista. O resultado é uma experiência sonora coesa que sustenta o terror sem recorrer a exageros.
Conclusão
The 18th Attic – Paranormal Anomaly Hunting Game é uma experiência curta mas eficaz dentro do subgénero de caça a anomalias. A mecânica da Polaroid acrescenta um toque táctil e estratégico que eleva a fórmula, enquanto a atmosfera densa transforma um simples sótão num espaço carregado de tensão.
Nem tudo é perfeito. A repetição do cenário pode levar à fadiga, mesmo numa experiência que ronda os 90 minutos, e existem pequenas frustrações técnicas, como a necessidade de enquadramentos demasiado específicos para reconhecer anomalias ou glitches ocasionais. Nada que destrua a experiência, mas aspectos que poderiam ser refinados.
Ainda assim, o jogo consegue destacar-se graças à sua identidade e ao equilíbrio entre observação, gestão de recursos e sustos bem colocados. É uma proposta ideal para uma noite de terror contido, daquelas que se jogam de uma assentada. Basta manter a câmara carregada, os olhos atentos e o gato por perto.