The Perfect Pencil é daqueles jogos que não pedem licença para entrar na tua cabeça. Fá-lo à força, com imagens desconfortáveis, ideias abstratas e uma insistência constante em transformar estados emocionais em mecânicas jogáveis. Desenvolvido pela Studio Cima, este Metroidvania aposta menos no espetáculo tradicional do género e mais numa experiência psicológica densa, onde cada passo parece carregar peso simbólico. Logo desde o início, quando acordamos no papel de John, um corpo sem cabeça estendido no chão, fica claro que esta não é uma viagem de herói convencional, mas sim uma descida a um espaço mental fragmentado, estranho e, muitas vezes, perturbador.
Jogabilidade
Em termos estruturais, The Perfect Pencil segue os pilares clássicos do género. Exploração interligada, progressão baseada em novas habilidades e um mapa que se vai revelando lentamente à medida que ganhamos ferramentas para ultrapassar obstáculos antes intransponíveis. O combate assenta num conceito simples mas eficaz: um lápis como arma corpo-a-corpo. Este lápis não é apenas simbólico, é funcional, permitindo ataques rápidos, investidas e golpes carregados que vão sendo desbloqueados ao longo da aventura.
O sistema de vida foge ligeiramente ao padrão. A força de vontade de John é representada por quatro círculos, enquanto um segundo medidor, a Coragem, se enche à medida que atacamos inimigos. Quando este medidor atinge o máximo, podemos executar um golpe especial de cura. É um sistema interessante, que incentiva a agressividade controlada e reforça a ideia de que enfrentar os problemas de frente é a única forma de recuperação. Fugir ou jogar demasiado na defensiva raramente é recompensado.
Os controlos, embora competentes, são deliberadamente mais pesados do que o habitual no género. John não é ágil como outros protagonistas de Metroidvania, e isso sente-se tanto nas plataformas como nos combates. Esta escolha pode frustrar quem procura precisão absoluta, mas encaixa bem no tom geral do jogo, transmitindo uma sensação constante de esforço e resistência.

Mundo e história
A narrativa de The Perfect Pencil é contada de forma fragmentada, recorrendo sobretudo à exploração e à observação. A cabeça de John é substituída por um projetor fotográfico, um detalhe brilhante que funciona tanto como elemento visual marcante como ferramenta narrativa. Examinar objetos espalhados pelo mundo ativa textos que soam a pensamentos intrusivos, memórias distorcidas ou reflexões desconfortavelmente íntimas.
O mundo é governado por Ela, a Besta Branca, uma entidade com forma de lobo associada ao colapso do reino. No entanto, o jogo evita antagonistas simples. A verdadeira ameaça está nas emoções internas de John: culpa, medo de falhar, síndrome do impostor e o desejo constante de desistir. As personagens secundárias refletem isso mesmo, surgindo como figuras absurdas e inquietantes que parecem encarnações de estados mentais. Vão desde uma mulher que precisa de peças de despertador para aliviar um prurido nas costas, até um homem preso num carrinho de bebé que implora silêncio para afastar vozes imaginárias. São momentos estranhos, mas também estranhamente humanos.
Grafismo
Visualmente, The Perfect Pencil aposta num estilo desenhado à mão que combina o grotesco com o delicado. As áreas são ricas em detalhe e personalidade, com ambientes que tanto conseguem ser belos como profundamente desconfortáveis. A Floresta Suave, por exemplo, apresenta cores suaves, flores cor-de-rosa e cogumelos animados, criando uma falsa sensação de segurança que rapidamente se desfaz à medida que avançamos.
O design do mapa merece destaque. Em vez de indicar caminhos claros, os orbes do mapa revelam apenas esquemas vagos das zonas, obrigando o jogador a confiar mais na memória e intuição do que em marcadores objetivos. Este sistema reforça a sensação de desorientação e descoberta constante, mesmo que torne o backtracking mais exigente.

Som
A componente sonora é subtil, mas extremamente eficaz. A banda sonora surge muitas vezes em segundo plano, criando ambientes sonoros que reforçam a tensão psicológica sem se imporem demasiado. Sons ambientais, ruídos estranhos e silêncios prolongados são usados de forma inteligente para aumentar o desconforto e a sensação de isolamento.
Vale a pena notar que o jogo recorre frequentemente a flashes luminosos durante certas sequências narrativas. Embora façam sentido dentro da estética e temática, podem ser problemáticos para jogadores fotossensíveis, algo a ter em conta antes de mergulhar na experiência.
Conclusão
The Perfect Pencil não é um Metroidvania para todos. É exigente, estranho e, por vezes, deliberadamente frustrante. Alguns combates contra bosses prolongam-se mais do que deviam, e a distância entre pontos de gravação pode testar a paciência. Ainda assim, é um jogo corajoso, que arrisca e não tem medo de falhar em nome da sua visão.
A forma como lida com a derrota é particularmente interessante. Perder certas batalhas não resulta apenas num recomeço, mas sim no acesso a espaços liminares que expandem o lore e aprofundam a narrativa. Em vez de punição, há curiosidade e descoberta. No final, The Perfect Pencil destaca-se como uma obra que usa o formato do videojogo para explorar temas de identidade, ansiedade e responsabilidade de forma honesta e desconfortável. Não é perfeito, mas é memorável, e isso, por si só, já é uma vitória.