Análise: Ariana and the Elder Codex

Há uma velha máxima que diz que a caneta é mais poderosa do que a espada, e Ariana and the Elder Codex leva essa ideia ao extremo ao construir um mundo onde a escrita e os códices não são apenas ferramentas de conhecimento, mas sim pilares absolutos da realidade. Neste universo, livros não contam apenas histórias: moldam o funcionamento do mundo, desde os elementos naturais até às conveniências mais básicas do quotidiano. É um conceito forte, cheio de potencial narrativo e simbólico, especialmente para quem valoriza o poder das histórias e do saber.

A premissa é imediatamente apelativa. Assumimos o papel de Ariana Virellis, uma jovem com a rara capacidade de entrar nos códices e restaurar o seu conteúdo mágico, depois de um misterioso evento ter corrompido estas obras fundamentais, mergulhando o mundo no caos. Com a responsabilidade de salvar a realidade e, ao mesmo tempo, descobrir o paradeiro dos seus pais desaparecidos, Ariana parte numa jornada que mistura fantasia, introspeção e aventura.

Apesar desta base promissora, Ariana and the Elder Codex nem sempre consegue concretizar o seu potencial. Há momentos de genuína emoção e criatividade, mas também escolhas de design e narrativa que acabam por limitar o impacto da experiência como um todo.

Jogabilidade

Em termos de jogabilidade, Ariana and the Elder Codex apresenta-se como um action RPG em 2D com elementos de metroidvania. A estrutura é familiar: exploração lateral, combate em tempo real e progressão baseada em habilidades desbloqueadas ao longo da aventura. À primeira vista, tudo parece sólido e bem estruturado.

O sistema de combate é um dos pilares centrais. Ariana pode utilizar feitiços de cinco tipos elementais: neutro, terra, água, vento e fogo. Cada feitiço possui características próprias, como poder de ataque, direção, tempo de recarga e tempo de execução. A possibilidade de equipar dois conjuntos de três feitiços, alternando entre eles, permite alguma flexibilidade estratégica e evita a sobrecarga da interface.

Um dos sistemas mais interessantes é o acúmulo elemental. À medida que Ariana atinge inimigos com feitiços de um determinado elemento, uma barra vai sendo preenchida. Quando esta atinge o máximo, desencadeia uma explosão elemental que causa dano massivo numa área em redor do inimigo. Além disso, o uso continuado de um elemento desbloqueia formas potenciadas, visíveis através da mudança de cor do vestido de Ariana, que aumentam o dano e os efeitos secundários dos feitiços.

No papel, tudo isto sugere um sistema profundo e dinâmico. Na prática, no entanto, há alguns problemas que impedem o combate de atingir um nível verdadeiramente memorável. A variedade de inimigos é limitada, sendo que a maioria dos adversários é introduzida muito cedo no jogo. A partir daí, a principal variação passa pelas afinidades elementais, o que, embora adicione alguma camada estratégica, não é suficiente para manter o combate sempre fresco.

Outro problema reside no equilíbrio. As explosões elementais são extremamente poderosas, ao ponto de muitas vezes transformarem encontros em reações em cadeia de destruição. Isto pode ser satisfatório, mas também simplifica demasiado o combate, reduzindo a necessidade de pensar ou adaptar estratégias.

Ainda assim, há momentos onde o sistema brilha, especialmente nas batalhas contra bosses. Aqui, a variedade de ataques e a necessidade de utilizar o dash para evitar dano criam combates mais exigentes e interessantes, mostrando aquilo que o jogo poderia ter sido de forma mais consistente.

Mundo e história

A narrativa de Ariana and the Elder Codex divide-se entre dois planos: o mundo real e os códices. No mundo exterior, a Biblioteca é a entidade dominante, responsável por manter a ordem através dos códices que controlam todos os aspetos da vida. Entre eles, destacam-se os sete códices heroicos, que representam os quatro elementos e três fenómenos fundamentais.

Quando estes códices são corrompidos, o mundo entra em colapso, e Ariana é encarregue de os restaurar. A premissa é simples, mas eficaz como motor narrativo. No entanto, é dentro dos códices que o jogo realmente se destaca.

Cada códice contém uma pequena história, muitas vezes sob a forma de parábolas com temas claros e emocionalmente impactantes. Os códices elementais são particularmente fortes, explorando ideias como sacrifício, honra, fúria e redenção. São histórias diretas, mas carregadas de significado, que conseguem deixar uma impressão duradoura.

Já os códices dos fenómenos apresentam narrativas mais complexas, nem sempre com o mesmo grau de sucesso. Em particular, um deles parece menos desenvolvido, com uma construção algo forçada.

O maior problema da narrativa está no mundo real. A forma como a história é contada é lenta e pouco equilibrada, com informação a ser revelada de forma irregular. Grande parte da exposição narrativa é guardada para o final, resultando num excesso de texto e em reviravoltas previsíveis. Isto acaba por diminuir o impacto emocional da conclusão.

Apesar disso, as interações entre personagens ajudam a manter o interesse. Ariana é acompanhada por Divina, uma entidade misteriosa com traços felinos e uma personalidade irreverente, e por Vester, um autómato leal. O diálogo entre Ariana e Divina, em particular, é um dos pontos altos do jogo, trazendo leveza e humor à narrativa.

Grafismo

Visualmente, Ariana and the Elder Codex aposta num estilo artístico encantador, com uma forte inspiração em livros de histórias. Os cenários são coloridos e detalhados, e os códices apresentam uma estética que reforça a ideia de estarmos a explorar narrativas vivas.

O design das personagens é igualmente cativante. Ariana destaca-se com o seu visual simples mas expressivo, incluindo o característico laço no cabelo e uma expressão sempre cheia de energia. Os retratos das personagens ajudam a dar mais personalidade às interações, contribuindo para a imersão.

Os efeitos visuais dos feitiços são outro ponto positivo. Coloridos e bem animados, dão vida ao combate e tornam as habilidades mais satisfatórias de utilizar. As explosões elementais, em particular, são visualmente impactantes, mesmo que, do ponto de vista de jogabilidade, acabem por ser um pouco desequilibradas.

No geral, o jogo consegue criar uma identidade visual forte e coerente, que complementa bem a sua temática.

Som

A componente sonora de Ariana and the Elder Codex é competente, embora não particularmente memorável. A banda sonora aposta em tons suaves e atmosféricos, criando um ambiente agradável que acompanha bem a exploração e os momentos mais calmos do jogo.

No entanto, faltam temas que se destaquem verdadeiramente. A música cumpre a sua função, mas raramente se impõe ou permanece na memória após desligar o jogo.

Por outro lado, a dobragem, embora limitada, é um ponto positivo. Ariana transmite uma energia contagiante, enquanto Divina acrescenta uma dose de sarcasmo e irreverência. Já o diretor da Biblioteca apresenta uma voz imponente e autoritária, que ajuda a reforçar a sua presença, apesar do tempo de ecrã reduzido.

No conjunto, o som contribui para a experiência, mas não é um elemento diferenciador.

Conclusão

Ariana and the Elder Codex é um jogo com uma base conceptual muito interessante e momentos que mostram claramente o seu potencial. A ideia de um mundo sustentado por livros e histórias é forte, e as narrativas dentro dos códices são, muitas vezes, o ponto alto da experiência.

No entanto, o jogo acaba por não conseguir destacar-se de forma consistente. O combate, apesar de bem estruturado, sofre com falta de variedade e problemas de equilíbrio. A exploração, embora agradável, é irregular na forma como utiliza os seus elementos de metroidvania. E a narrativa principal perde impacto devido a um ritmo desigual e a escolhas previsíveis.

Ainda assim, há charme suficiente para tornar a experiência agradável, especialmente para quem procura uma aventura mais curta e leve. Ariana and the Elder Codex não é um jogo marcante dentro do género, mas também está longe de ser uma experiência descartável. É, acima de tudo, um título que deixa a sensação de que poderia ter sido muito mais, mas que, mesmo assim, consegue oferecer algumas horas bem passadas num mundo onde as histórias têm poder real.

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