Ereban: Shadow Legacy apresenta-se como uma proposta intrigante dentro do panorama indie, combinando furtividade com mecânicas de plataformas num mundo onde a luz e a sombra não são apenas elementos visuais, mas também forças centrais da jogabilidade. À primeira vista, parece um jogo de stealth clássico, mas rapidamente se percebe que a sua identidade está mais próxima de um híbrido, onde a mobilidade e a exploração vertical assumem um papel tão ou mais importante do que a infiltração silenciosa.
Desenvolvido pela Baby Robot Games, este título de estreia revela ambição, tanto na sua construção de mundo como na tentativa de introduzir mecânicas diferenciadoras. No entanto, essa ambição nem sempre é acompanhada pela execução mais consistente. Entre ideias interessantes e algumas falhas estruturais, Ereban: Shadow Legacy é um jogo que oscila entre momentos de inspiração e limitações evidentes.
Jogabilidade
A principal mecânica de Ereban: Shadow Legacy gira em torno da capacidade da protagonista, Ayana, de se fundir com as sombras. Esta habilidade permite-lhe esconder-se completamente da vista dos inimigos, desde que permaneça fora da luz e tenha energia suficiente. Para além disso, possibilita a deslocação ao longo de superfícies e paredes, criando uma sensação de fluidez muito satisfatória.
Este sistema funciona extremamente bem a nível mecânico. Deslizar pelas sombras, escalar estruturas e contornar inimigos sem ser detectado proporciona momentos genuinamente divertidos. A integração de elementos de plataformas, com forte verticalidade nos cenários, acrescenta uma dimensão adicional que distingue o jogo de outros títulos do género.
No entanto, o jogo raramente exige que o jogador explore todo o potencial destas mecânicas. A inteligência artificial dos inimigos é bastante básica, com padrões previsíveis e pouca capacidade de adaptação. Mesmo com diferentes tipos de adversários, a sensação de perigo raramente se intensifica. Na maioria das situações, basta compreender o padrão de patrulha para ultrapassar os obstáculos sem grande esforço.
Outro problema prende-se com o equilíbrio da dificuldade. As habilidades adicionais e gadgets disponíveis para Ayana, que poderiam enriquecer a abordagem ao stealth, acabam por ser praticamente dispensáveis. A habilidade base de se fundir com as sombras é tão eficaz que desincentiva a experimentação com outras ferramentas. Isto resulta numa experiência algo repetitiva, especialmente durante uma primeira jogada.
Por outro lado, quando o foco recai sobre o platforming, o jogo brilha. Os níveis são amplos e permitem múltiplas abordagens, com puzzles ambientais criativos que envolvem manipular fontes de luz e sombras. Momentos como posicionar drones para criar áreas seguras ou acompanhar sombras em movimento demonstram o potencial do conceito e proporcionam alguns dos melhores segmentos da experiência.

Mundo e história
A narrativa acompanha Ayana, aparentemente a última sobrevivente de uma raça antiga ligada às sombras, numa missão para descobrir mais sobre as suas origens e enfrentar a corporação Helios. A premissa é interessante, mas a execução deixa a desejar.
Desde cedo, a história apresenta elementos promissores, incluindo uma entidade corporativa opressiva, tecnologia avançada e um passado envolto em mistério. No entanto, o desenvolvimento narrativo nunca atinge o impacto desejado. Ayana começa como uma personagem algo genérica, com uma atitude sarcástica e distante, e embora evolua ligeiramente ao longo da campanha, nunca é suficientemente aprofundada.
As suas motivações são pouco exploradas e as decisões que toma nem sempre são coerentes com a sua personalidade. Esta falta de desenvolvimento estende-se ao restante elenco, que surge maioritariamente como funcional e pouco memorável.
Um dos elementos mais interessantes da narrativa encontra-se nos registos e diários espalhados pelo mundo. Estes pequenos fragmentos ajudam a construir o contexto do universo, revelando o estado do mundo e os acontecimentos que levaram à situação actual. No entanto, as missões secundárias, apesar de adicionarem variedade, raramente contribuem de forma significativa para a narrativa.
A meio da história, surge um sistema de moralidade que introduz uma escolha entre eliminar ou poupar inimigos humanos. Esta mecânica influencia o desfecho do jogo, mas a sua implementação é questionável. O facto de as decisões serem permanentes e não reversíveis dentro da mesma jogada limita a experimentação, e os finais disponíveis nem sempre fazem sentido face às escolhas do jogador.
No geral, a história tem ideias interessantes, mas falta-lhe consistência e profundidade para deixar uma marca duradoura.
Grafismo
Visualmente, Ereban: Shadow Legacy destaca-se pelo seu estilo artístico baseado em cel-shading, que reforça o contraste entre luz e sombra. Este contraste não é apenas estético, mas também funcional, sendo essencial para a jogabilidade.
Os cenários são variados e bem construídos, desde zonas urbanas abandonadas até instalações industriais massivas. A forma como o jogo utiliza a iluminação para criar ambientes distintos é particularmente eficaz, transformando a luz numa ameaça constante e as sombras num refúgio seguro.
A narrativa ambiental é outro ponto positivo. Elementos como edifícios em ruínas, grafitis e estruturas decadentes ajudam a transmitir a história do mundo sem necessidade de exposição directa. Existe uma sensação de abandono e mistério que permeia os cenários, contribuindo para a imersão.
No que diz respeito ao design de personagens, o jogo é menos consistente. Apesar de Ayana apresentar um visual apelativo e bem detalhado, outras personagens e inimigos são mais genéricos e pouco marcantes.
Ainda assim, a clareza visual durante a jogabilidade é excelente. Os indicadores são bem definidos e facilitam a navegação pelos níveis, evitando frustrações desnecessárias.

Som
O trabalho de voz é um dos pontos fortes do jogo. A interpretação de Ayana, em particular, transmite emoção e personalidade, elevando uma personagem que, a nível de escrita, poderia ser menos interessante. O elenco, no geral, cumpre bem o seu papel e contribui para dar vida ao mundo.
A banda sonora adopta uma abordagem subtil, com elementos electrónicos e ambientes sonoros que acompanham a progressão da narrativa. Nos momentos iniciais, a música é mais discreta, permitindo ao jogador concentrar-se na infiltração. À medida que a história avança, a intensidade aumenta, acompanhando o ritmo das sequências mais exigentes.
No entanto, o design sonoro apresenta alguns problemas. A utilização da habilidade de sonar, por exemplo, pode tornar-se excessiva, com múltiplos sons a sobreporem-se e a criar confusão. Em situações de maior tensão, isto pode prejudicar a concentração e afectar negativamente a experiência.
Conclusão
Ereban: Shadow Legacy é um jogo com uma base interessante e ideias criativas, mas que nem sempre consegue concretizá-las de forma consistente. A sua mecânica central, baseada na manipulação de sombras, é sólida e oferece momentos de grande satisfação, especialmente quando combinada com os elementos de plataformas.
No entanto, enquanto jogo de stealth, fica aquém do esperado. A falta de desafio, aliada a um design de inimigos pouco exigente, reduz a necessidade de explorar todas as ferramentas disponíveis. A narrativa, apesar de promissora, sofre com falta de desenvolvimento e decisões inconsistentes.
Ainda assim, há mérito no mundo criado e no potencial que demonstra. A ambientação, o estilo visual e alguns momentos de jogabilidade mostram que existe aqui uma base sólida para algo maior.
Ereban: Shadow Legacy não é um fracasso, mas também não atinge o nível que poderia. É um primeiro passo interessante para o estúdio, que deixa antever possibilidades futuras mais refinadas e ambiciosas.