Horripilant é um daqueles jogos que, à primeira vista, parecem ter sido feitos à medida de quem aprecia propostas fora da norma. À superfície, apresenta-se como um idle game com elementos de exploração de masmorras e uma forte componente de terror. A premissa coloca-nos nas profundezas de uma dungeon macabra, onde enfrentamos criaturas perturbadoras em nome de um deus distorcido, tudo em busca de respostas para um passado envolto em mistério. A combinação entre progressão automática e estética inquietante cria uma curiosa tensão entre o que o jogo mostra e aquilo que realmente nos deixa fazer.
O conceito é interessante. Um idle game, género tradicionalmente associado a números a subir e progressão passiva, envolto numa atmosfera de horror genuíno não é algo comum. A promessa de uma experiência sombria, quase claustrofóbica, sustentada por uma direção artística marcante, é suficiente para despertar a atenção. No entanto, à medida que o tempo passa e a mecânica se revela, torna-se evidente que nem tudo o que é visualmente impactante tem profundidade equivalente no plano jogável.
Jogabilidade
Horripilant assenta num ciclo de jogo muito bem definido e familiar para quem já experimentou títulos do género. A estrutura divide-se essencialmente em duas atividades principais. Por um lado, temos a recolha de recursos, feita através de cliques no ecrã para obter madeira, pedra ou ferro. Estes materiais servem para adquirir melhorias passivas, quer na produção automática de recursos, quer nos atributos do nosso equipamento. Por outro lado, temos a exploração automática da masmorra, onde o protagonista combate inimigos piso após piso, enfrentando adversários cada vez mais resistentes.
Ambas as vertentes continuam a evoluir mesmo quando o jogador está offline. Esta característica é central à filosofia dos idle games: recompensar a ausência. Ao regressarmos, encontramos recursos acumulados, inimigos derrotados e progresso feito. É um ciclo viciante, e não por acaso este género mantém uma base de fãs dedicada. Explorar a masmorra gera carne, que pode ser usada para melhorar a produção de recursos; esses recursos, por sua vez, fortalecem o equipamento, permitindo avançar mais fundo na dungeon. A engrenagem está bem montada.
O problema surge quando a repetição se instala demasiado cedo. As melhorias disponíveis traduzem-se, quase sempre, em aumentos planos de estatísticas. Não há grandes decisões estratégicas, nem variações significativas no estilo de jogo. A sensação de progressão existe, mas raramente se sente transformadora. Em pouco tempo, o jogador limita-se a entrar no jogo para gastar recursos acumulados, melhorar números e voltar a sair. A componente ativa perde relevância e a experiência torna-se, verdadeiramente, passiva.

Mundo e história
A narrativa de Horripilant parte de uma base apelativa: um protagonista que desce a uma masmorra aterradora ao serviço de uma divindade retorcida, procurando respostas para um passado misterioso. O ambiente sugere horrores indescritíveis e segredos enterrados nas profundezas. No entanto, essa promessa raramente se concretiza em algo substancial.
Grande parte do jogo é composta por imagens estáticas e descrições iniciais que estabelecem o tom, mas depois pouco desenvolvem. Falta contexto, falta evolução narrativa, falta surpresa. O terror apresentado é sobretudo visual. As criaturas são perturbadoras à primeira vista, mas a ausência de desenvolvimento ou de interação significativa com elas faz com que rapidamente percam o impacto inicial. A repetição contribui para diluir qualquer aura de mistério. O jogador revisita os mesmos inimigos inúmeras vezes. A exposição constante é inimiga do terror. O que inicialmente causa desconforto transforma-se em rotina. A masmorra deixa de ser um espaço opressivo e passa a ser apenas mais um cenário onde números sobem e descem.
Grafismo
Se há área onde Horripilant brilha sem reservas, é na direção artística. O jogo aposta num pixel art desconfortável e detalhado, aliado a uma estética que remete para computadores antigos, com uma interface que evoca tempos mais rudimentares da informática. Esta escolha confere-lhe uma identidade muito própria.
Os corredores longos e escuros são particularmente eficazes a criar tensão. As criaturas apresentam designs grotescos, cheios de detalhes perturbadores. Há um cuidado evidente na construção visual de cada elemento. É raro encontrar um idle game que invista tanto na criação de uma atmosfera de horror genuína. Nesse sentido, Horripilant destaca-se claramente dentro do género. Contudo, a qualidade artística acaba por ser prejudicada pela própria estrutura do jogo. Sendo uma experiência que incentiva o jogador a afastar-se do ecrã enquanto espera pela acumulação de recursos ou pela derrota automática de um chefe resistente, grande parte do trabalho visual perde protagonismo. O jogador não é encorajado a permanecer, a observar, a absorver o ambiente. O idle desvaloriza o impacto do grafismo.

Som
Embora menos evidente do que o grafismo, o som desempenha um papel importante na construção da atmosfera. Os efeitos associados aos combates, às interações e aos momentos de progressão reforçam a sensação de desconforto. A ambiência sonora ajuda a sustentar a ideia de que estamos num espaço hostil e decadente.
Ainda assim, tal como acontece com os visuais, o efeito do som depende da presença ativa do jogador. Num título que incentiva sessões curtas e espaçadas, a imersão sonora acaba por ser secundária. Não há grandes variações, nem momentos marcantes que fiquem na memória. Cumpre a sua função, mas não eleva a experiência a outro patamar.
Conclusão
Horripilant é um caso curioso. Enquanto conceito, é refrescante. Um idle game com uma temática de horror assumida e uma direção artística de grande qualidade é algo pouco comum. A base mecânica é sólida, o ciclo de progressão é funcional e o grafismo é, sem dúvida, o grande trunfo da experiência.
No entanto, a falta de substância acaba por pesar. A variedade reduzida de inimigos, com apenas dezasseis tipos ao longo de toda a experiência e chefes que se limitam a variações cromáticas, compromete a sensação de descoberta. A progressão é lenta e, por vezes, arrastada. A repetição instala-se cedo e o jogo transforma-se rapidamente numa tarefa de ver números subir.
O preço pedido não é exorbitante, mas deixa a sensação de que se está a pagar sobretudo pela arte e pela atmosfera, mais do que por uma experiência mecânica rica. Há potencial evidente aqui. Com atualizações que acrescentem variedade, profundidade narrativa e decisões mais significativas ao nível das melhorias, Horripilant poderia tornar-se uma referência dentro do seu nicho.
Assim, tal como está, é uma joia imperfeita. Fascinante no aspeto, competente na base, mas limitada na execução a longo prazo. Para quem aprecia o género e valoriza estética acima de complexidade mecânica, pode ser uma aposta interessante. Para os restantes, talvez seja prudente esperar por futuras melhorias antes de mergulhar nesta masmorra sombria.