Análise: Kiln

Kiln é um daqueles jogos que, à primeira vista, parece estranho, quase desconcertante. Mas vindo da Double Fine, estúdio responsável por títulos como Psychonauts e Brutal Legend, essa estranheza torna-se rapidamente numa espécie de assinatura. Aqui, a ideia é tão invulgar quanto cativante: um jogo multijogador onde criamos peças de cerâmica e as levamos para combates em arenas espalhadas por cenários excêntricos.

O conceito, por si só, já é suficiente para captar a atenção. Não é todos os dias que vemos um jogo competitivo baseado em moldar potes e utilizá-los como personagens num campo de batalha. No entanto, essa originalidade vem acompanhada de algumas limitações claras que acabam por afectar a longevidade da experiência. Apesar de divertido e criativo, Kiln mostra cedo que ainda precisa de crescer em conteúdo e variedade para se manter relevante a longo prazo.

Jogabilidade

Antes de entrar em combate, Kiln oferece aquilo que é, sem dúvida, um dos seus maiores trunfos: a criação de personagens. Aqui não escolhemos heróis pré-definidos, mas sim moldamos literalmente o nosso próprio lutador. O sistema de criação é surpreendentemente profundo, permitindo manipular formas, aplicar diferentes estilos de pintura e utilizar várias ferramentas para dar vida às nossas ideias.

Tal como na cerâmica real, usamos as mãos para moldar o objecto, ajustando curvas, volumes e proporções. Este detalhe não é apenas estético: a forma do pote influencia directamente as habilidades especiais que teremos em combate. Um design mais largo e pesado resulta em personagens mais resistentes e poderosas, enquanto formas mais pequenas privilegiam velocidade e mobilidade.

O sistema de progressão permite ainda desbloquear autocolantes e elementos decorativos, que podem ser aplicados às criações. No entanto, é aqui que começam a surgir algumas fragilidades. As recompensas são, na sua maioria, pouco inspiradas, limitando-se a símbolos genéricos semelhantes a emojis. Sente-se a falta de referências a outros jogos do estúdio, algo que poderia dar muito mais personalidade ao progresso.

Já dentro da arena, Kiln apresenta um sistema de combate em equipa que foge ao habitual. O objectivo principal não é eliminar adversários, mas sim contribuir para apagar o forno inimigo, transportando água até ele. Cada pote funciona como um recipiente com capacidades diferentes: os mais pequenos são rápidos mas transportam menos água, enquanto os maiores são mais lentos, porém mais resistentes e eficazes em combate.

Existe aqui uma dinâmica interessante entre ataque e defesa. Jogadores mais agressivos podem tentar travar o avanço inimigo, enquanto outros se focam em recolher e transportar água. Esta estrutura lembra vagamente jogos de equipa estratégicos, mas com uma abordagem mais acessível e menos competitiva.

Ainda assim, a comunicação entre jogadores deixa muito a desejar. O sistema limita-se a alguns gestos básicos, raramente utilizados de forma eficaz. Jogar com desconhecidos pode tornar-se frustrante, pois não há uma forma clara de coordenar estratégias ou pedir ajuda.

Mundo e história

Kiln não aposta numa narrativa tradicional. Em vez disso, constrói o seu mundo através dos cenários e da sua estética peculiar. Cada arena tem uma identidade própria e transmite uma sensação de universo excêntrico, quase surreal.

Entre os exemplos mais memoráveis estão o centro de distribuição de Hermes, onde tapetes rolantes e encomendas em movimento criam plataformas dinâmicas, e uma pista de dança inspirada num ambiente disco, onde os jogadores são forçados a dançar quando ficam presos em zonas iluminadas. Estes elementos não são apenas decorativos, influenciam directamente a jogabilidade e acrescentam variedade às partidas.

Outro cenário marcante apresenta um ambiente semelhante a uma sala de concertos, com subwoofers a interferirem no movimento dos jogadores e zonas interactivas que alteram o fluxo da partida. Apesar da criatividade evidente, o número de mapas disponíveis é reduzido, o que contribui para a sensação de repetição após algumas horas.

Grafismo

Visualmente, Kiln é exactamente aquilo que se espera da Double Fine: irreverente, colorido e cheio de personalidade. O estilo artístico aposta em formas exageradas e animações expressivas, dando vida a um mundo que parece saído de um desenho animado.

Os potes são particularmente bem trabalhados. Os maiores movem-se de forma pesada e lenta, transmitindo claramente o seu peso, enquanto os mais pequenos são rápidos e ágeis, quase frenéticos. Esta diferença não é apenas mecânica, é também visual, ajudando o jogador a perceber intuitivamente o comportamento de cada tipo de personagem.

Há também um sentido de humor constante, presente em pequenos detalhes e animações inesperadas. No entanto, nem tudo é perfeito. Em momentos mais caóticos, especialmente quando vários jogadores se concentram numa área, o desempenho pode sofrer, com quebras na fluidez da imagem que acabam por afectar a experiência.

Som

A componente sonora de Kiln acompanha bem o tom leve e excêntrico do jogo. A banda sonora é energética e adapta-se ao ritmo das partidas, contribuindo para a sensação de movimento constante dentro das arenas.

Os efeitos sonoros são claros e funcionais, ajudando a identificar acções importantes como ataques, recolha de água ou activação de habilidades. No entanto, não há aqui elementos particularmente memoráveis. Cumpre o seu papel, mas raramente se destaca.

Falta talvez uma maior variedade ou temas mais marcantes que reforcem a identidade de cada cenário. Ainda assim, no conjunto, o som encaixa bem na experiência e não compromete o resultado final.

Conclusão

Kiln é um exemplo claro de como uma ideia forte pode sustentar um jogo, pelo menos numa fase inicial. A proposta de criar personagens através de cerâmica e levá-las para combates em equipa é original, divertida e cheia de potencial.

No entanto, esse potencial ainda não está totalmente concretizado. A falta de modos de jogo, o número reduzido de mapas e um sistema de progressão pouco recompensador limitam a longevidade da experiência. Ao fim de algumas horas, a repetição começa a instalar-se, mesmo com toda a criatividade presente.

Ainda assim, há uma base sólida. Com actualizações regulares, novos conteúdos e melhorias na comunicação entre jogadores, Kiln pode evoluir para algo muito mais completo. É um jogo que funciona bem em sessões curtas e que pode brilhar especialmente quando jogado com amigos.

Para já, fica a sensação de que estamos perante algo especial, mas ainda em construção. A criatividade está lá, o conceito é forte, e a diversão existe. Falta apenas dar o próximo passo para transformar Kiln num verdadeiro destaque no panorama multijogador.

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