O mercado está inundado de simuladores. Conduzir camiões, pilotar aviões, gerir quintas, lavar casas a jacto de água ou até enveredar por caminhos mais obscuros, hoje em dia há espaço para quase tudo. No meio desta enchente surge Metro Sim Hustle, um projecto de estreia da Departure Interactive, lançado originalmente no Steam em 2021 e que agora chega à PlayStation 5 com a promessa de misturar vários subgéneros num único pacote.
A premissa é simples mas ambiciosa: em vez de nos focarmos numa única profissão ou actividade, Metro Sim Hustle quer ser um simulador de vida urbana, onde conduzir o metro é apenas uma das muitas formas de subir na vida. A ideia de passar de praticamente sem-abrigo a magnata imobiliário, alternando entre turnos de trabalho, negócios paralelos e noites no casino, tem aquele charme meio manhoso que tantos jogadores apreciam nos chamados jogos janky.
Mas ambição não é sinónimo de execução conseguida. A grande questão é perceber se esta mistura de sistemas resulta numa experiência coesa ou se acaba por se diluir num conjunto de ideias pouco desenvolvidas. Metro Sim Hustle tem momentos curiosos e até divertidos, mas também revela limitações claras que o impedem de ir mais longe.
Jogabilidade
Metro Sim Hustle começa de forma crua. Acordamos num edifício abandonado, com 20 dólares no bolso e um telemóvel como única ligação ao mundo. Não há marcadores no mapa, não há lista de objectivos a piscar no ecrã. A orientação vem através de mensagens de texto, uma delas a questionar porque faltámos ao trabalho nos últimos dias. A partir daqui, o jogo larga-nos numa cidade cinzenta e deixa-nos decidir o que fazer.
O trabalho mais óbvio é dirigir-nos à estação de metro e iniciar o turno como maquinista. Conduzir o comboio é, curiosamente, uma das partes mais sólidas do jogo. Não atinge o nível de profundidade de propostas mais especializadas como Train Sim World, mas consegue oferecer uma experiência competente. Temos de respeitar horários, parar correctamente nas plataformas e evitar penalizações por erros básicos. Há uma satisfação genuína em cumprir um turno sem falhas e receber o pagamento no final.
No entanto, rapidamente percebemos que o metro é apenas um meio para atingir um fim. O verdadeiro objectivo é acumular riqueza, comprar propriedades e negócios e escalar a hierarquia social. Podemos fazê-lo de forma legítima, poupando o salário, ou optar por caminhos mais duvidosos. Tornarmo-nos traficantes, participar em lutas clandestinas, apostar no casino ou investir no mercado imobiliário são opções igualmente válidas dentro da lógica do jogo. A vertente imobiliária é talvez a mais interessante a médio prazo. Comprar apartamentos, mobilar os espaços e colocá-los a render cria um ciclo de investimento e retorno que recompensa a persistência. O problema é que, para lá chegar, é preciso angariar capital inicial, o que pode tornar as primeiras horas algo repetitivas.
Mecanicamente, a transição entre actividades é brusca. Num momento estamos concentrados em parar o metro com precisão; no seguinte estamos a negociar droga num beco mal iluminado. Esta alternância dá variedade, mas também expõe a superficialidade de cada sistema. Nenhum deles é suficientemente profundo para se destacar por si só. As missões dadas por NPCs com quem criamos laços resumem-se muitas vezes a recados simples, fetch quests que servem para ganhar algum dinheiro extra e pouco mais.
Há ainda elementos ligeiros de sobrevivência. Fome, higiene e necessidade de ir à casa de banho são parâmetros a manter sob controlo. Não são especialmente punitivos, mas obrigam a alguma gestão e impedem que passemos dias inteiros apenas a trabalhar ou a explorar. No fundo, tudo converge para o mesmo ponto: fazer dinheiro. Metro Sim Hustle é um simulador de hustle no sentido mais literal da palavra.

Mundo e história
A cidade onde tudo acontece é funcional, mas raramente memorável. Não há uma narrativa forte que conduza a acção. Em vez disso, o jogo aposta numa progressão emergente, em que a história é construída pelas decisões do jogador. Começamos praticamente sem nada e, se formos persistentes, podemos acabar num apartamento de luxo com várias fontes de rendimento passivo.
Esta ascensão social tem o seu encanto. Existe uma sensação clara de progressão, de sair do fundo e conquistar espaço numa metrópole indiferente. No entanto, falta contexto. Quem somos? Porque estamos naquela situação inicial? Que cidade é esta? São perguntas que ficam sem resposta ou apenas vagamente sugeridas. Os NPCs servem sobretudo como distribuidores de tarefas. Alguns enviam mensagens, outros desbloqueiam pequenas cadeias de missões, mas raramente ganham verdadeira profundidade. O mundo parece mais um palco para sistemas do que um espaço vivo com histórias próprias. Há clubes nocturnos com luzes néon, arenas clandestinas e casinos barulhentos, mas tudo soa a cenário, não a comunidade.
Ainda assim, há mérito na liberdade oferecida. Podemos ignorar completamente o caminho legal e tentar enriquecer por vias ilícitas, com todos os riscos associados. Podemos focar-nos apenas no metro e viver uma vida mais modesta. O jogo não impõe uma moralidade rígida, limita-se a disponibilizar ferramentas. O problema é que essas ferramentas raramente evoluem ao longo do tempo.
Grafismo
Visualmente, Metro Sim Hustle é modesto. A maior parte da cidade apresenta tons cinzentos e texturas simples, o que contribui para uma sensação algo monótona. Existem alguns momentos de maior impacto visual, sobretudo nos interiores de discotecas e edifícios de entretenimento, onde as luzes néon quebram a paleta apagada. Mas são excepções num conjunto globalmente básico.
Os modelos das personagens são competentes, mas pouco expressivos. Faltam detalhes faciais e animações mais naturais que ajudem a criar empatia. Não é um desastre técnico, longe disso, mas também não impressiona. Tendo em conta o preço reduzido com que chegou à loja digital, é compreensível que não esteja ao nível de produções de maior orçamento.
Na PlayStation 5, o desempenho é estável e os controlos fora dos menus respondem bem. Conduzir o metro é simples e intuitivo, o que ajuda a manter o interesse. Já a interface é claramente pensada para rato e teclado. Navegar em menus com comando é pouco prático, com selecções imprecisas e alguma frustração desnecessária. É um detalhe que pesa mais do que deveria, porque passamos bastante tempo a gerir inventários e propriedades.

Som
O sector sonoro acompanha a sobriedade do grafismo. Há sons ambiente suficientes para dar alguma vida à cidade: ruído urbano, música alta a sair de clubes, o ranger metálico do metro em movimento. No entanto, falta personalidade. Não há diálogos falados, apenas texto, o que retira impacto às interacções com NPCs.
A banda sonora é discreta e raramente memorável. Cumpre o papel de preencher o silêncio, mas dificilmente ficará na memória depois de desligarmos a consola. Sendo um projecto de baixo orçamento, é compreensível que não haja grandes ambições nesta área, mas um pouco mais de identidade sonora teria ajudado a elevar a experiência. Os efeitos associados à condução do metro são competentes e contribuem para a imersão nessa actividade específica. Já noutras vertentes, como as lutas ou o casino, tudo soa funcional, sem grande destaque. É um jogo que dificilmente será lembrado pelo que se ouve.
Conclusão
Metro Sim Hustle é um projecto ambicioso que tenta abraçar demasiadas ideias ao mesmo tempo. A noção de combinar simulador de comboios, gestor imobiliário, jogo de crime urbano e até elementos leves de sobrevivência é, à partida, apelativa. Há diversão a retirar, especialmente nas primeiras horas, quando estamos a descobrir as possibilidades e a construir o nosso império pessoal.
Contudo, a falta de profundidade em cada sistema acaba por pesar. Nada é particularmente mau, mas nada é verdadeiramente excelente. O resultado é uma experiência algo inconsistente, que vive mais da curiosidade do conceito do que da solidez da execução.
Para quem aprecia simuladores menos polidos e gosta de explorar jogos fora do circuito habitual, pode haver aqui material suficiente para justificar o investimento, sobretudo tendo em conta o preço acessível. Para quem procura uma experiência refinada e profunda numa área específica, existem alternativas mais recomendáveis.
Metro Sim Hustle diverte, provoca alguns sorrisos e oferece uma sensação honesta de progressão social. Mas no final do dia, fica a ideia de que, com mais foco e desenvolvimento, poderia ter sido muito mais do que um conjunto de boas intenções.