Poucos géneros tiveram um impacto tão profundo nos jogos de ação modernos como a fórmula Soulslike. O combate deliberado, a dificuldade exigente e a narrativa atmosférica popularizados pela FromSoftware inspiraram inúmeros estúdios ao longo da última década. Aquilo que começou como uma abordagem relativamente nicho transformou-se numa referência de design, influenciando desde grandes produções até pequenos projetos independentes.
The Bearer & The Last Flame é um dos exemplos mais recentes dessa influência. Desenvolvido praticamente na totalidade por um único criador sob o nome Dark Reaper Studio, este jogo apresenta uma aventura de fantasia sombria ambientada no mundo arruinado de Hyperborea. Lançado a 6 de março de 2026 para PlayStation 5 e PC, coloca os jogadores no papel de um herói solitário cuja missão é transportar a última chama sobrevivente através de um reino consumido pelas trevas. Em vez de apostar num vasto mundo aberto repleto de missões secundárias e distrações, o jogo centra-se numa premissa simples mas poderosa: levar a Última Chama através de cinco regiões corrompidas enquanto enfrentamos as criaturas que tomaram conta deste mundo em ruínas.
É um objetivo quase mítico, que reforça o tom solene da experiência. O protagonista não está apenas a lutar pela sobrevivência, mas também a carregar consigo a derradeira esperança de restaurar a luz num mundo à beira da extinção.
Resta saber se este projeto independente consegue ombrear com os gigantes do género ou se a sua ambição acaba por ultrapassar aquilo que um desenvolvimento essencialmente a solo consegue alcançar.
Jogabilidade
Como seria de esperar de um jogo inspirado pela fórmula Soulslike, o combate é o núcleo da experiência em The Bearer & The Last Flame.
Cada confronto exige atenção, paciência e precisão. Avançar de forma impulsiva raramente termina bem. Os inimigos são agressivos, os ataques causam danos significativos e um pequeno erro pode significar a morte quase imediata.
O jogo obriga os jogadores a observar cuidadosamente os padrões dos adversários, a gerir a resistência e a escolher o momento certo para atacar ou recuar. Esta abordagem mais metódica cria combates tensos, onde cada vitória parece merecida. O sistema suporta três estilos principais de jogo. O combate corpo a corpo é a abordagem mais direta, recorrendo a espadas, machados e armas pesadas capazes de causar grande dano. Em contrapartida, exige proximidade constante ao inimigo e maior risco.
O combate à distância oferece uma alternativa mais cautelosa. Arcos e outras ferramentas permitem atacar inimigos a partir de posições mais seguras, embora normalmente com um ritmo de dano mais lento. Por fim, existe a vertente mágica, que permite utilizar habilidades sobrenaturais para causar dano ou controlar o campo de batalha. A magia introduz versatilidade, mas também consome recursos importantes que precisam de ser geridos com cuidado.
Nenhuma destas abordagens é automaticamente superior. Cada estilo apresenta vantagens e limitações, incentivando os jogadores a adaptarem-se às situações e aos tipos de inimigos que encontram ao longo da jornada.
O sistema de combate em si não é excessivamente complexo, mas a dificuldade está na execução. Esquivar no momento certo, bloquear ataques com precisão e identificar as aberturas nos padrões dos inimigos tornam-se competências fundamentais.
Quando tudo corre bem, os combates tornam-se extremamente satisfatórios. A sensação de dominar um inimigo particularmente difícil é uma das maiores recompensas que o jogo oferece.

Mundo e história
O mundo de Hyperborea estabelece desde o início um tom de decadência e solidão.
Este é claramente um reino que já viu dias melhores. Castelos em ruínas dominam paisagens cobertas de nevoeiro, cavernas escondem criaturas grotescas e povoações abandonadas contam histórias silenciosas de civilizações desaparecidas.
Tal como acontece em muitos Soulslike, a narrativa raramente é apresentada de forma direta. Em vez de longas exposições ou sequências cinematográficas extensas, a história é transmitida através do ambiente, de encontros enigmáticos com algumas personagens sobreviventes e de pequenos detalhes espalhados pelo mundo.
Explorar Hyperborea é como caminhar pelas consequências de uma guerra antiga entre luz e trevas. Cada região reforça a sensação de que estamos a atravessar um território que já caiu, um mundo que luta para manter as últimas brasas de esperança. Ainda assim, a jornada mantém-se envolvente graças ao objetivo claro que conduz toda a narrativa. Transportar a Última Chama não é apenas um elemento simbólico. É também um lembrete constante do papel do protagonista.
O herói não é apenas um viajante num mundo morto. É potencialmente a última oportunidade para que este reino volte a conhecer a luz. Ao longo da campanha atravessamos cinco regiões distintas, cada uma com as suas próprias ameaças e segredos. Entre masmorras, cavernas, fortalezas destruídas e paisagens sombrias, o jogo constrói um percurso que mantém sempre a sensação de perigo e descoberta.
Embora o mundo não seja totalmente aberto, o design incentiva a exploração. Existem caminhos alternativos, encontros opcionais e equipamento escondido para os jogadores que se aventuram para além do trajeto principal.
Grafismo
Visualmente, The Bearer & The Last Flame aposta numa estética de fantasia sombria bastante clássica.
Paisagens cobertas por nevoeiro, ruínas iluminadas por tochas e corredores mergulhados em sombras criam um ambiente constante de tensão. É um mundo onde cada esquina pode esconder um inimigo e onde a luz parece sempre prestes a desaparecer. Um dos elementos visuais mais interessantes é precisamente a presença da Última Chama. Para além do seu papel narrativo, funciona também como contraste visual dentro do mundo do jogo. A sua luz destaca-se claramente contra a escuridão dominante de Hyperborea.
Mesmo sendo um projeto independente, os cenários conseguem transmitir uma sensação convincente de decadência. Castelos destruídos, cavernas profundas e estruturas antigas contribuem para um ambiente consistente. Claro que existem limitações quando comparado com produções de maior orçamento. Algumas animações podem parecer ligeiramente rígidas e certos elementos visuais não têm o mesmo nível de detalhe que se encontra nos grandes nomes do género.
Ainda assim, o jogo compensa essas limitações com uma forte direção artística. A atmosfera é consistente e ajuda a criar uma identidade própria para este mundo em ruínas.

Som
O design sonoro desempenha um papel importante na construção da atmosfera.
Grande parte da experiência é acompanhada por sons ambientais subtis. O vento que atravessa ruínas abandonadas, ecos distantes em cavernas escuras ou rosnados de criaturas escondidas ajudam a reforçar a sensação de isolamento. Durante o combate, os impactos das armas e os sons das criaturas tornam os confrontos mais intensos. Cada golpe tem peso e contribui para a tensão dos encontros.
A música surge de forma contida, aparecendo sobretudo em momentos chave ou durante confrontos mais importantes. Em vez de dominar constantemente a experiência, a banda sonora prefere reforçar o ambiente quando necessário. Este uso moderado da música ajuda a preservar a sensação de solidão que define grande parte da jornada. Muitas vezes, é o silêncio que mais contribui para o clima opressivo do mundo.
No geral, o trabalho sonoro consegue complementar bem o estilo visual e narrativo do jogo, criando uma experiência mais imersiva.
Conclusão
The Bearer & The Last Flame é um projeto ambicioso que consegue oferecer uma experiência Soulslike surpreendentemente envolvente, especialmente tendo em conta as suas origens independentes.
Dark Reaper Studio demonstra compreender bem aquilo que torna este género apelativo. O combate tenso, a construção atmosférica do mundo e a narrativa fragmentada que incentiva os jogadores a descobrir a história por si próprios estão todos presentes. Hyperborea pode ser um mundo à beira da morte, mas explorá-lo continua a ser fascinante graças aos ambientes cuidadosamente desenhados e ao constante sentimento de mistério.
O combate exige paciência e precisão, recompensando jogadores que aprendem a observar os inimigos e a agir com cuidado. A grande variedade de armas e estilos de jogo acrescenta também diversidade à experiência.
Naturalmente, existem algumas limitações. Certos aspetos da apresentação revelam o orçamento mais reduzido e a escala do jogo é menor quando comparada com grandes produções do género. No entanto, tendo em conta que The Bearer & The Last Flame é essencialmente o trabalho de um único criador, o resultado final é impressionante.
Para fãs de RPGs de ação com fantasia sombria, combates exigentes e mundos carregados de atmosfera, esta é uma aventura independente que merece ser explorada.
Pode não destronar os gigantes do género, mas prova que até um único criador consegue manter viva a chama do design Soulslike.