Antevisão: Hellforged

O género dos bullet heavens continua a expandir-se a um ritmo impressionante. Depois do impacto gigantesco de títulos como Vampire Survivors, dezenas de estúdios começaram a experimentar novas formas de transformar aquela fórmula viciante de sobrevivência automática em algo mais profundo, estratégico e duradouro. Alguns apostaram em mecânicas roguelite mais complexas, outros focaram-se na componente cooperativa, enquanto alguns tentaram aproximar-se do território dos ARPG clássicos. Hellforged surge precisamente nesse cruzamento de ideias, combinando ação frenética, sistemas de loot dignos de dungeon crawlers e uma inesperada mecânica de extração que altera completamente o ritmo habitual do género.

À primeira vista, Hellforged parece apenas mais um jogo inspirado por Vampire Survivors. O ecrã rapidamente fica preenchido por centenas de inimigos, projéteis, explosões e números de dano. Contudo, bastam alguns minutos para perceber que existe aqui algo mais ambicioso. O objetivo não é simplesmente sobreviver o máximo de tempo possível até inevitavelmente morrer. Em vez disso, cada partida transforma-se numa espécie de assalto arriscado onde o jogador precisa constantemente de decidir se continua a explorar em busca de recompensas mais valiosas ou se abandona o mapa antes de perder tudo aquilo que acabou de conquistar.

Esta simples ideia altera profundamente a experiência. Em vez de existir apenas a tradicional progressão automática típica do género, Hellforged cria uma tensão constante entre ganância e sobrevivência. Quanto mais tempo permanecemos numa expedição, melhores serão as recompensas, mas também mais perigosos se tornam os inimigos, os bosses e os eventos aleatórios. Existe sempre aquela sensação de que talvez consigamos sobreviver mais um minuto, abrir mais um baú ou derrotar mais um boss antes de sair. Naturalmente, é precisamente aí que muitos jogadores vão acabar por perder tudo.

Mesmo encontrando-se ainda numa fase de testes, Hellforged demonstra uma visão bastante clara daquilo que pretende oferecer. Não é apenas um bullet heaven com elementos de loot superficiais. Existe uma tentativa genuína de criar uma experiência persistente, onde o equipamento adquirido, as árvores de talento e a construção de builds desempenham um papel tão importante quanto os reflexos do jogador.

Jogabilidade

A jogabilidade de Hellforged gira em torno de expedições onde enfrentamos vagas intermináveis de demónios enquanto recolhemos equipamento, ouro, relíquias e recursos. O combate segue a filosofia clássica do género: movimentação constante, desvio de ataques inimigos e habilidades automáticas que vão destruindo hordas inteiras de criaturas. Contudo, o jogo introduz suficientes sistemas paralelos para criar uma identidade própria.

Cada personagem possui ataques, estilos de combate e progressões diferentes. Algumas classes favorecem agressividade pura e dano em área, enquanto outras apostam mais em mobilidade, efeitos elementais ou resistência. Apesar de o sistema automático dominar grande parte do combate, existem também habilidades mais ativas que exigem intervenção direta do jogador. O sistema Overcharge, mencionado pelos próprios criadores, acrescenta momentos de explosão ofensiva que quebram a monotonia típica de muitos bullet heavens.

Além disso, várias ações da build podem desencadear efeitos específicos. Dashs, ataques principais, interações com o cenário ou até receber dano podem ativar habilidades secundárias e sinergias elementais. Isto cria um sistema mais dinâmico do que simplesmente escolher melhorias passivas entre níveis. O jogo incentiva bastante a experimentação.

Um dos exemplos mais interessantes apresentados pelos produtores envolve a combinação entre fogo e eletricidade. Ao incendiar inimigos e depois usar determinadas habilidades elétricas, podemos desencadear explosões massivas que limpam praticamente o ecrã inteiro. Este tipo de sinergia faz com que o sistema de progressão tenha um enorme potencial para builds absurdamente poderosas.

O grande destaque acaba por ser o sistema de extração. Durante uma partida, o jogador pode decidir abandonar a expedição para garantir o loot obtido até então. Permanecer demasiado tempo aumenta drasticamente o risco de morte e, consequentemente, a perda de recompensas recentes. Curiosamente, Hellforged opta por uma abordagem relativamente amigável neste aspeto. Em vez de perder absolutamente tudo após morrer, apenas o loot recentemente adquirido desaparece. Equipamento previamente assegurado mantém-se disponível.

Os criadores explicaram ainda que existe um sistema de slots seguros no inventário. Itens colocados nesses espaços permanecem protegidos mesmo em caso de morte, podendo o jogador reorganizar livremente quais os objetos salvaguardados durante a expedição. Esta solução reduz alguma da frustração típica dos extraction games, sem eliminar completamente a tensão.

Outro elemento interessante é o Arsenal. Antes de cada expedição, podemos influenciar quais upgrades e habilidades terão possibilidade de surgir durante a partida. É quase como construir parcialmente um deck antes da aventura começar. Este sistema adiciona um forte componente estratégico à preparação, permitindo direcionar builds específicas em vez de depender totalmente da aleatoriedade.

A árvore de talentos Eternal Tree complementa ainda mais esta personalização. À medida que desbloqueamos novos talentos, relíquias e habilidades, começamos gradualmente a moldar personagens muito distintas entre si. A componente roguelite acaba por se cruzar fortemente com sistemas de ARPG tradicionais, criando uma sensação constante de progressão a longo prazo.

Mundo e história

Hellforged não parece particularmente focado em narrativa tradicional. Não existe, pelo menos para já, uma grande componente cinematográfica ou diálogos extensos. Ainda assim, o universo apresentado possui potencial suficiente para criar uma identidade própria dentro do género dark fantasy.

O jogador assume o papel de um dos sobreviventes lendários de uma expedição destruída. O mundo foi consumido pela corrupção conhecida como Blackpyre, uma força demoníaca que transformou tudo num inferno repleto de monstros grotescos e entidades sobrenaturais. A missão passa por enfrentar esta ameaça enquanto exploramos ruínas, capturamos localizações e reunimos poder suficiente para eventualmente destruir a origem da corrupção.

Embora a narrativa esteja claramente em segundo plano relativamente à jogabilidade, o conceito funciona bem como motivação para a progressão. Existe sempre aquela sensação de estarmos a participar numa guerra desesperada contra forças infernais praticamente imparáveis.

Os bosses Stygian representam uma das faces mais impressionantes deste universo. Estas entidades gigantescas funcionam como desafios de endgame e aparentam exigir builds bastante avançadas para serem derrotadas. Invocá-los através do caos acumulado durante as partidas adiciona também uma interessante componente ritualística ao mundo do jogo.

O sistema de reconstrução do acampamento ajuda ainda a transmitir alguma sensação de evolução narrativa. Após cada expedição, regressamos às ruínas da nossa base para desbloquear melhorias, reforçar equipamento e preparar futuras incursões. Não é uma abordagem revolucionária, mas ajuda a dar contexto ao ciclo repetitivo de combate e extração.

Ainda assim, será importante que a versão final expanda mais o lore e os elementos narrativos. O conceito possui potencial suficiente para algo mais memorável do que apenas texto contextual entre partidas. O universo demoníaco de Hellforged pode perfeitamente sustentar histórias mais elaboradas, especialmente considerando o foco em sobreviventes lendários e expedições falhadas.

Grafismo

Visualmente, Hellforged aposta numa direção artística extremamente agressiva e caótica. O ambiente mistura fantasia negra, horror demoníaco e efeitos visuais exagerados, criando um espetáculo constante de destruição no ecrã.

Os cenários apresentam tonalidades sombrias, estruturas em ruínas e uma atmosfera infernal bastante marcada. Existe um claro foco em transmitir corrupção, decadência e violência. Embora o nível de detalhe ambiental não seja extraordinário, a direção artística consegue compensar muitas limitações técnicas.

Os inimigos destacam-se sobretudo pela variedade grotesca. Demónios, criaturas deformadas e entidades monstruosas surgem em quantidades absurdas, enchendo rapidamente o ecrã durante as fases mais avançadas das partidas. Felizmente, o jogo parece conseguir manter uma leitura visual relativamente clara apesar do caos permanente.

Os efeitos de partículas desempenham um papel gigantesco na identidade visual do jogo. Explosões elétricas, chamas, ondas de energia e ataques mágicos criam um verdadeiro festival de cores e destruição. Em determinados momentos, Hellforged aproxima-se quase de um bullet hell tradicional devido à quantidade absurda de projéteis e efeitos simultâneos.

Os bosses parecem particularmente impressionantes. As criaturas Stygian transmitem genuinamente uma sensação de ameaça colossal, tanto pelo tamanho como pela quantidade de ataques visuais que desencadeiam. São claramente momentos pensados para servir de clímax visual durante cada expedição.

Por outro lado, nota-se que o jogo ainda está numa fase relativamente inicial de desenvolvimento. Algumas animações poderiam ser mais fluidas, certos efeitos carecem de maior impacto e existem momentos onde a clareza visual sofre devido ao excesso de informação no ecrã. Nada disto é inesperado num playtest, mas será importante otimizar bastante a apresentação antes do lançamento final.

Também é compreensível que o equipamento não altere visualmente as personagens. Os próprios criadores admitiram que essa funcionalidade ficou de fora devido à dimensão reduzida da equipa. Embora seja uma ausência compreensível, acaba por retirar algum impacto à componente de loot, especialmente num jogo tão focado na aquisição de equipamento.

Som

O departamento sonoro de Hellforged encaixa perfeitamente na sua identidade brutal e demoníaca. A banda sonora aposta em temas intensos, agressivos e sombrios que acompanham adequadamente o caos constante da ação.

As músicas parecem claramente desenhadas para manter adrenalina elevada durante toda a partida. Batidas rápidas, guitarras pesadas e ambientes tensos ajudam a criar aquela sensação de sobrevivência desesperada típica do género.

Os efeitos sonoros também cumprem bem o seu papel. Explosões mágicas, impactos de habilidades e gritos demoníacos contribuem bastante para o sentimento de poder durante o combate. Quando as builds começam verdadeiramente a funcionar, o jogo transforma-se num espetáculo audiovisual bastante satisfatório.

Os bosses beneficiam particularmente do trabalho sonoro. Cada confronto importante transmite peso e intensidade graças à combinação entre música, rugidos monstruosos e ataques devastadores.

Ainda assim, tal como no departamento visual, existe margem para refinamento. Algumas habilidades poderiam possuir efeitos sonoros mais distintos para melhorar a leitura auditiva durante o caos extremo das fases avançadas. Em determinados momentos, a sobreposição de sons torna-se ligeiramente confusa.

Mesmo assim, o trabalho atual já demonstra uma identidade sonora coerente com a proposta do jogo. Hellforged consegue transmitir constantemente agressividade, perigo e destruição através do áudio.

Conclusão

Hellforged apresenta-se como uma mistura extremamente promissora entre bullet heaven, ARPG e extraction looter. A ideia de transformar cada partida numa decisão constante entre continuar a arriscar ou garantir o loot obtido funciona surpreendentemente bem e adiciona uma tensão rara dentro deste género.

O sistema de builds, a enorme aposta em sinergias, a progressão persistente e a personalização através do Arsenal e da Eternal Tree ajudam a criar uma experiência mais profunda do que muitos dos seus concorrentes diretos. Existe claramente ambição por parte da pequena equipa de desenvolvimento.

Ainda se nota que o jogo está numa fase de crescimento. Certos aspetos visuais precisam de mais polimento, a narrativa permanece relativamente superficial e alguns sistemas ainda necessitam de melhor equilíbrio. Contudo, as bases encontram-se sólidas.

O mais importante é que Hellforged parece compreender perfeitamente aquilo que torna este tipo de jogos viciantes: a sensação constante de progressão, o prazer de criar builds absurdamente poderosas e a adrenalina de sobreviver apenas mais alguns segundos enquanto o ecrã inteiro explode à nossa volta.

Se conseguir manter um fluxo constante de conteúdo, expandir significativamente o endgame e equilibrar corretamente o sistema de extração, Hellforged poderá facilmente tornar-se uma das experiências mais interessantes dentro desta nova vaga de bullet heavens inspirados por elementos de loot e progressão persistente.

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