Análise: Shard Squad

O género Bullet Heaven continua a crescer com novas ideias que procuram ir além da fórmula popularizada por títulos como Vampire Survivors. Shard Squad é um desses casos. Desenvolvido pela The Root Studios, este roguelite de ação mistura sobrevivência contra vagas intermináveis de inimigos com mecânicas de coleção de criaturas, composição de equipas e sistemas de sinergias que acrescentam uma camada estratégica bastante mais profunda do que é habitual no género.

Em vez de controlar apenas um herói que vai adquirindo armas aleatórias ao longo de cada partida, aqui o foco está na criação de uma equipa de criaturas elementais conhecidas como Shards. Cada uma possui ataques próprios, características específicas e traços que podem ser combinados para desbloquear habilidades inéditas e fortalecer todo o grupo. A cada tentativa, o objetivo passa não só por sobreviver às hordas de monstros, mas também por experimentar novas combinações e descobrir estratégias cada vez mais eficazes.

Apesar de existir uma história que serve de pano de fundo para toda a aventura, Shard Squad nunca perde de vista aquilo que realmente pretende oferecer: sessões rápidas, altamente rejogáveis e constantemente recompensadoras. A progressão permanente, o desbloqueio de novas personagens, relíquias e melhorias tornam cada derrota num passo em frente, incentivando o jogador a regressar imediatamente para mais uma tentativa.

O resultado é um jogo que consegue encontrar identidade própria dentro de um género cada vez mais concorrido, apostando mais na construção de equipas do que na simples acumulação de armas.

Jogabilidade

À primeira vista, Shard Squad segue muitas das convenções habituais dos Bullet Heaven. O jogador percorre mapas relativamente abertos enquanto milhares de inimigos surgem continuamente em todas as direções. Derrotá-los permite ganhar experiência, subir de nível e escolher melhorias que tornam a equipa progressivamente mais poderosa.

No entanto, é precisamente a forma como essas melhorias funcionam que diferencia o jogo da maioria dos seus concorrentes.

Ao longo da aventura podem ser desbloqueados mais de vinte Shards diferentes, distribuídos por vários elementos como Fogo, Água, Eletricidade, Natureza e Cristal. Cada criatura possui um ataque exclusivo, mas também três traços próprios que funcionam como peças de um enorme puzzle estratégico.

Quando vários membros da equipa partilham determinados traços, são ativados efeitos adicionais que aumentam significativamente o poder do grupo. Isto transforma cada escolha numa decisão importante. Nem sempre a criatura individualmente mais forte será a melhor opção; muitas vezes vale mais apostar numa personagem aparentemente modesta apenas porque completa uma combinação extremamente poderosa.

Este sistema faz com que experimentar seja constantemente recompensado. É frequente descobrir sinergias inesperadas que alteram completamente o rumo de uma partida.

Outro aspeto interessante é o sistema de desbloqueios. Novas criaturas, relíquias e melhorias não aparecem simplesmente por acumular experiência. Muitas exigem cumprir determinados objetivos, utilizar certas combinações ou completar desafios específicos durante as partidas. Isto cria um ciclo viciante de experimentação, já que frequentemente é possível desbloquear vários conteúdos numa única sessão caso sejam cumpridas várias condições em simultâneo.

As relíquias representam outra camada estratégica importante. Funcionam como modificadores permanentes para cada tentativa, oferecendo bónus variados que podem potenciar estilos de jogo completamente diferentes. Algumas reforçam ataques elementais específicos, enquanto outras aumentam sobrevivência, mobilidade ou capacidade ofensiva.

Durante cada mapa surgem igualmente eventos especiais que quebram a monotonia da sobrevivência contínua. Existem desafios temporários, objetivos opcionais e encontros com bosses particularmente exigentes que oferecem recompensas especiais caso sejam ultrapassados.

Os bosses assumem um papel bastante mais relevante do que é habitual no género. Para além de exigirem maior domínio das mecânicas de esquiva, derrotá-los permite recrutar novas criaturas para a equipa, expandindo gradualmente as possibilidades de construção.

A progressão permanente também merece destaque. As moedas obtidas durante as partidas podem ser utilizadas para adquirir melhorias globais que tornam futuras tentativas ligeiramente mais acessíveis. Existe algum grinding necessário para desbloquear tudo, especialmente para quem procura completar todos os conteúdos, mas a sensação de evolução mantém-se praticamente constante durante dezenas de horas.

Nem tudo é perfeito. Algumas escolhas de evolução consistem apenas em aumentos estatísticos relativamente simples, tornando certos níveis menos entusiasmantes do que poderiam ser. Além disso, o equilíbrio entre criaturas nem sempre parece totalmente conseguido, existindo Shards claramente mais eficazes do que outros em determinadas fases da aventura.

Também a velocidade de movimento do protagonista poderá dividir opiniões. Comparativamente a outros Bullet Heaven, o ritmo é ligeiramente mais lento, obrigando a antecipar movimentos e posicionamentos em vez de confiar apenas na rapidez dos reflexos.

Ainda assim, a enorme variedade de combinações possíveis acaba por compensar estas pequenas limitações.

Mundo e história

Shard Squad decorre em Mellunia, um mundo que enfrenta uma crise de enormes proporções. O protagonista inicia a aventura à procura dos seus amigos desaparecidos, embarcando numa viagem que rapidamente o coloca perante uma ameaça muito maior do que inicialmente imaginava.

A narrativa nunca tenta assumir o protagonismo da experiência. O foco principal continua claramente direcionado para a jogabilidade, mas isso não significa que o universo tenha sido negligenciado.

Cada nova criatura desbloqueada acrescenta pequenos fragmentos de contexto ao mundo, ajudando lentamente a construir a identidade de Mellunia e dos seus habitantes. Em vez de recorrer a longas sequências narrativas, o jogo prefere espalhar pequenas informações ao longo da progressão, permitindo ao jogador descobrir a história de forma gradual.

As diferentes regiões visitadas apresentam identidades distintas e reforçam a ideia de um mundo diversificado que está lentamente a sucumbir perante a invasão inimiga.

Os próprios Shards acabam por funcionar como personagens carismáticas. Embora não possuam diálogos extensos, os seus visuais, animações e ataques conferem-lhes personalidade suficiente para criar ligação com o jogador. É fácil desenvolver favoritos e construir equipas em torno deles, não apenas pela eficácia em combate, mas também pelo seu design.

O desfecho da campanha oferece uma conclusão satisfatória e deixa uma sensação positiva, funcionando como recompensa adicional para quem investe tempo suficiente até alcançar o confronto final.

Não é uma narrativa memorável nem particularmente complexa, mas cumpre perfeitamente a função de contextualizar toda a ação sem interromper constantemente o ritmo das partidas.

Grafismo

Visualmente, Shard Squad aposta numa direção artística extremamente colorida e cheia de personalidade. O pixel art apresenta um excelente nível de detalhe, oferecendo criaturas bastante distintas entre si e cenários suficientemente variados para manter o interesse ao longo da campanha.

Cada Shard possui animações próprias que reforçam imediatamente a sua identidade. Os efeitos associados aos diferentes elementos também ajudam a distinguir rapidamente cada ataque, tornando relativamente fácil perceber o que está a acontecer durante as fases iniciais das partidas.

O problema surge precisamente quando o número de inimigos, projéteis e efeitos especiais aumenta significativamente.

Nas fases finais de cada mapa, o ecrã transforma-se num verdadeiro espetáculo visual onde centenas de ataques acontecem em simultâneo. Apesar do impacto visual impressionante, esta abundância de informação pode dificultar a leitura da ação e provocar alguma confusão.

Felizmente, os produtores incluíram opções que permitem aumentar a transparência das criaturas aliadas e dos seus efeitos, melhorando bastante a visibilidade durante os momentos mais caóticos.

Os bosses apresentam designs particularmente inspirados e conseguem destacar-se facilmente no meio do caos, transmitindo sempre uma sensação de ameaça real.

Os ambientes não são excessivamente complexos, mas cumprem bem a sua função sem sobrecarregar ainda mais um ecrã que já se encontra naturalmente preenchido por dezenas ou centenas de inimigos.

No geral, trata-se de uma apresentação bastante competente que privilegia personalidade e legibilidade, ainda que ocasionalmente seja vítima do próprio espetáculo visual que cria.

Som

A componente sonora acompanha eficazmente toda a experiência.

A banda sonora apresenta temas bastante energéticos que encaixam perfeitamente no ritmo acelerado da ação. As músicas acompanham a evolução das partidas sem se tornarem repetitivas, mantendo sempre um bom nível de intensidade.

Um dos maiores destaques surge precisamente no confronto final, onde a música muda completamente de registo e aposta numa sonoridade muito mais intensa, surpreendendo positivamente e ajudando a elevar a dimensão épica do último desafio.

Os efeitos sonoros cumprem igualmente bem o seu papel. Cada ataque possui identidade suficiente para transmitir impacto, enquanto explosões, habilidades especiais e derrotas dos inimigos ajudam a reforçar constantemente a sensação de progresso durante as partidas.

Mesmo quando o ecrã se encontra repleto de acontecimentos, o áudio consegue manter-se relativamente limpo, evitando transformar toda a ação numa confusão sonora.

Embora não seja uma banda sonora particularmente memorável fora do contexto do jogo, desempenha muito bem a função de manter o ritmo elevado e reforçar toda a intensidade característica do género.

Conclusão

Shard Squad consegue destacar-se num mercado onde surgem constantemente novos Bullet Heaven. Em vez de tentar competir apenas através da quantidade de armas ou personagens, aposta numa construção de equipas profundamente estratégica baseada em sinergias, traços e combinações que oferecem muito mais liberdade ao jogador.

A enorme variedade de criaturas, o sistema de desbloqueios inteligente, a progressão permanente e a constante sensação de descoberta tornam cada nova partida apelativa. Existe sempre mais uma combinação para experimentar, mais uma relíquia para desbloquear ou mais uma estratégia para otimizar.

Naturalmente, nem tudo é irrepreensível. Alguns problemas de equilíbrio entre personagens, escolhas de evolução algo simplistas e o excesso de informação visual nos momentos mais caóticos impedem que atinja um nível de excelência absoluto. Ainda assim, são limitações relativamente pequenas perante aquilo que o jogo oferece.

Para fãs do género, Shard Squad representa uma excelente alternativa aos nomes mais conhecidos, trazendo ideias suficientemente diferentes para justificar plenamente a atenção. Para quem procura dezenas de horas de conteúdo, elevada rejogabilidade e um sistema de progressão constantemente recompensador, esta é uma aventura que merece claramente um lugar na biblioteca.

Sem reinventar completamente os Bullet Heaven, consegue provar que ainda existe espaço para inovar através de boas ideias de design. É precisamente essa combinação entre acessibilidade, profundidade estratégica e enorme vontade de experimentar novas equipas que faz de Shard Squad uma das propostas mais interessantes do género.

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