Análise: Starbites

Starbites é um daqueles jogos que facilmente poderia passar despercebido no meio da avalanche de RPGs independentes lançados todos os anos. À primeira vista, não parece particularmente revolucionário nem procura reinventar os fundamentos do género. No entanto, à medida que as horas passam, torna-se evidente que existe aqui uma ambição considerável por parte da Ikinagames, um pequeno estúdio que procurou criar uma experiência muito maior do que aquilo que os seus recursos aparentam permitir.

A aventura acompanha Lukida, uma jovem sucateira que vive no planeta desértico Bitter. Presa numa cidade chamada Delight, vê-se constantemente explorada por Fennec, a figura responsável pela administração local, que mantém sobre ela uma dívida impossível de liquidar. Cansada desta existência, Lukida consegue finalmente obter um bilhete para abandonar o planeta e começar uma nova vida. Porém, os seus planos são interrompidos quando é atacada por um misterioso mech e acorda novamente em Delight sem qualquer sinal do tão desejado bilhete.

O que começa como uma simples busca por um objeto perdido rapidamente evolui para algo muito maior. Embora os primeiros capítulos não sejam particularmente marcantes, a narrativa cresce de forma significativa ao longo da aventura, introduzindo reviravoltas e revelações que conseguem manter o interesse até ao final. Starbites é um daqueles jogos que demora algum tempo a encontrar o seu ritmo, mas quando o faz transforma-se numa experiência surpreendentemente envolvente.

Jogabilidade

O coração de Starbites encontra-se no seu sistema de combate por turnos. Apesar de recorrer a conceitos familiares para qualquer fã de RPGs japoneses, a execução apresenta profundidade suficiente para tornar os confrontos interessantes durante toda a campanha.

Cada combate coloca até três membros da equipa em campo, com barras de vida, energia para habilidades e um sistema denominado Driver’s High. Esta mecânica funciona como uma espécie de modo especial que é carregado através de ataques e dano recebido. Quando a barra fica completa, a personagem pode agir imediatamente, independentemente da ordem dos turnos, recebendo ainda melhorias nas suas capacidades ofensivas e efeitos adicionais dependendo da forma como foi desenvolvida.

A influência de RPGs modernos é evidente, particularmente no sistema de fraquezas dos inimigos. Cada adversário possui vulnerabilidades associadas a determinados atributos, como corte, calor ou plasma. Inicialmente estas fraquezas são desconhecidas, obrigando o jogador a experimentar diferentes ataques até descobrir quais os elementos mais eficazes. Sempre que uma fraqueza é explorada, a defesa do inimigo é reduzida através de um sistema de escudos. Quando essa resistência chega a zero, o adversário entra num estado vulnerável, sofre mais dano e perde posições na ordem dos turnos.

Embora esta mecânica não seja propriamente original, funciona extremamente bem. Os combates incentivam a observação e o planeamento em vez da simples repetição dos ataques mais fortes. Algumas habilidades atingem múltiplas vezes, permitindo destruir escudos rapidamente, enquanto outras podem adquirir atributos adicionais através da progressão das personagens.

Outro elemento interessante está na disposição dos inimigos em combate. Nem todos aparecem alinhados de forma convencional. Existem formações divididas em grupos separados ou adversários espalhados pelo campo de batalha, o que obriga a pensar cuidadosamente na utilização de ataques de área. Esta abordagem impede que as habilidades que atingem vários alvos sejam sempre a solução ideal.

À medida que a aventura avança, os confrontos contra bosses tornam-se significativamente mais complexos. Alguns apresentam mecânicas que quase funcionam como pequenos puzzles, obrigando o jogador a compreender e explorar todos os sistemas disponíveis. O contraste entre a relativa facilidade dos combates normais e a exigência destes encontros cria momentos bastante satisfatórios.

A progressão das personagens constitui provavelmente o maior destaque de toda a experiência. Cada nível atribui pontos que podem ser investidos em árvores de habilidades bastante flexíveis. Melhorias de atributos, novas capacidades, alterações ao funcionamento do Driver’s High e reforços específicos permitem construir personagens muito diferentes.

A liberdade é reforçada pela possibilidade de redistribuir todos os pontos gratuitamente a qualquer momento. Esta decisão elimina qualquer receio de experimentar estratégias diferentes e incentiva constantemente a adaptação da equipa.

Além disso, cada personagem combate dentro do seu próprio mech, equipado com armas, estruturas superiores e inferiores, motores e núcleos especializados. Estes elementos introduzem uma camada adicional de personalização extremamente agradável. Certas combinações podem transformar completamente a função de uma personagem dentro do grupo, tornando-a mais ofensiva, defensiva ou focada em suporte.

Quando todos os membros da equipa ficam disponíveis, Starbites atinge o seu melhor momento. A quantidade de combinações possíveis cria um ciclo de progressão viciante que recompensa a experimentação e o domínio dos sistemas.

Mundo e história

O planeta Bitter apresenta-se como um vasto deserto pontuado por pequenas comunidades que sobrevivem através da sucata e da tecnologia recuperada. Apesar da sua aparência árida, existe personalidade suficiente para tornar o mundo memorável.

A história começa de forma relativamente modesta, focando-se nos problemas pessoais de Lukida e no seu desejo de escapar à exploração constante. Contudo, a narrativa expande-se gradualmente, revelando segredos que alteram completamente a percepção inicial dos acontecimentos.

Sem entrar em detalhes que possam estragar as surpresas, é justo dizer que a aventura consegue ultrapassar largamente as expectativas criadas pela sua premissa inicial. Algumas revelações surgem em momentos particularmente eficazes e contribuem para fortalecer o envolvimento emocional com as personagens.

O elenco principal também desempenha um papel importante neste sucesso. Lukida é uma protagonista fácil de apreciar, enquanto os seus companheiros acrescentam diferentes perspectivas e personalidades à jornada. As interações entre eles ajudam a construir uma sensação genuína de camaradagem.

Infelizmente, a narrativa sofre devido a um problema recorrente: o excesso de backtracking. Grande parte da campanha obriga o jogador a regressar repetidamente às mesmas zonas para completar objetivos principais e secundários. A escassez de pontos de viagem rápida agrava ainda mais esta situação.

Embora existam vários locais para guardar o progresso, apenas algumas cidades funcionam como pontos de deslocação instantânea. Como consequência, muitas horas acabam por ser gastas a percorrer áreas já exploradas anteriormente. Este problema não destrói a experiência, mas prejudica claramente o ritmo da aventura.

Ainda assim, a presença de masmorras tradicionais merece elogios. Numa época em que muitos RPGs abandonam este tipo de design, Starbites oferece áreas dedicadas à exploração com pequenos puzzles e desafios ambientais. Algumas poderiam ser mais curtas, especialmente na fase final do jogo, mas continuam a ser uma adição bem-vinda.

Grafismo

Visualmente, Starbites apresenta uma dualidade constante entre momentos impressionantes e outros claramente limitados pelo orçamento disponível.

A arte bidimensional é excelente. Os retratos das personagens possuem enorme personalidade e combinam influências de anime com elementos inspirados na banda desenhada ocidental. Esta identidade visual ajuda a destacar o jogo da concorrência e confere-lhe um charme muito próprio.

O problema surge na transição para os modelos tridimensionais utilizados durante a exploração e os combates. Apesar de cumprirem a sua função, apresentam um nível de detalhe e refinamento bastante inferior ao da arte conceptual. A diferença entre ambas as representações é frequentemente difícil de ignorar.

Ainda assim, existe um certo encanto na apresentação geral. Os modelos recordam produções de animação computorizada do final dos anos 90 e início dos anos 2000, transmitindo uma sensação nostálgica que acaba por funcionar a favor da experiência.

Os cenários cumprem adequadamente o seu papel, retratando as paisagens desérticas de Bitter e os pequenos aglomerados populacionais espalhados pelo planeta. Embora não sejam tecnicamente impressionantes, conseguem estabelecer uma atmosfera coerente.

Durante a análise na PlayStation 5, o desempenho revelou-se bastante sólido, mantendo uma fluidez consistente próxima dos 60 fotogramas por segundo.

No entanto, alguns problemas técnicos tornam-se evidentes. Certos efeitos visuais, como a profundidade de campo, são demasiado agressivos e acabam por prejudicar a clareza da imagem. Também são visíveis alguns artefactos gráficos e serrilhados em determinadas situações.

Som

A componente sonora de Starbites complementa adequadamente a aventura, ainda que raramente alcance níveis verdadeiramente memoráveis.

A banda sonora acompanha eficazmente os diferentes momentos da narrativa, alternando entre temas mais descontraídos durante a exploração e composições mais energéticas nos combates. As músicas conseguem criar a atmosfera apropriada sem se tornarem intrusivas.

Os efeitos sonoros cumprem igualmente a sua função, transmitindo impacto suficiente aos ataques, habilidades especiais e movimentos dos mechs. Embora não existam momentos particularmente marcantes do ponto de vista auditivo, também não há falhas significativas a apontar.

Um dos aspetos mais curiosos do pacote é a inclusão completa de The Ramsey, um jogo anterior da Ikinagames, como atividade opcional dentro de Starbites. Trata-se de uma surpresa agradável que demonstra o carinho do estúdio pelo seu próprio catálogo e oferece conteúdo adicional para quem desejar explorar tudo o que o jogo tem para oferecer.

Conclusão

Starbites é um RPG por turnos que cresce significativamente ao longo da sua duração. Os primeiros capítulos podem não causar grande impacto, mas a experiência melhora constantemente à medida que novas personagens, mecânicas e elementos narrativos são introduzidos.

O sistema de combate apresenta profundidade suficiente para permanecer interessante durante dezenas de horas, enquanto a personalização dos mechs e das personagens oferece um nível de flexibilidade surpreendente. É precisamente nesta progressão e experimentação que o jogo encontra a sua maior força.

Nem tudo é perfeito. O excesso de deslocações repetidas, a escassez de pontos de viagem rápida, alguns problemas técnicos e a discrepância visual entre os modelos 2D e 3D impedem que alcance patamares mais elevados. Ainda assim, estes defeitos nunca conseguem apagar completamente aquilo que funciona bem.

A Ikinagames demonstrou uma ambição admirável ao criar um RPG desta dimensão. Apesar das limitações evidentes, o estúdio conseguiu construir uma aventura sólida, divertida e capaz de recompensar quem lhe der tempo para revelar todo o seu potencial.

Para os fãs de RPGs por turnos que valorizam sistemas de progressão profundos e gostam de experimentar diferentes combinações de equipa, Starbites é uma proposta que merece atenção. Pode não impressionar imediatamente, mas aqueles que persistirem descobrirão uma aventura surpreendentemente satisfatória.

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