70s-style Robot Anime Geppy-X é um daqueles jogos cuja simples existência parece improvável. Lançado originalmente em 1999 para a primeira PlayStation, permaneceu durante décadas como uma curiosidade exclusiva do Japão, conhecido apenas pelos fãs mais dedicados de shooters, colecionadores e apaixonados pela cultura mecha. Enquanto muitos clássicos da época receberam várias reedições, este projeto desapareceu praticamente da memória coletiva, tornando-se numa verdadeira relíquia. Felizmente, essa situação mudou. Esta nova edição não se limita a traduzir o jogo para vários idiomas ou a torná-lo compatível com hardware moderno. Trata-se de um trabalho de preservação impressionante que procura recuperar toda a experiência original e apresentá-la com uma qualidade que, em muitos aspetos, supera aquilo que seria possível na consola para a qual nasceu.
Mas Geppy-X nunca foi um shooter convencional. Desde a sua conceção que o objetivo era recriar um anime japonês de super robots da década de 70, misturando referências claras a séries como Getter Robo, Mazinger Z e tantos outros gigantes da animação japonesa. Cada nível é apresentado como um episódio de televisão completo, com abertura, encerramento, anúncios publicitários fictícios, pré-visualização do episódio seguinte e uma quantidade absurda de animações desenhadas à mão.
O resultado é um jogo que tanto funciona como shooter horizontal como homenagem apaixonada a uma era específica da animação japonesa. É uma experiência profundamente nostálgica, mas que consegue manter interesse mesmo para quem nunca viu um único episódio desses animes clássicos. A paixão dos seus criadores está presente em cada detalhe e a remasterização demonstra um respeito enorme pela obra original, recuperando milhares de fotogramas diretamente das fitas Betacam originais e restaurando-os a 24 fotogramas por segundo.
Naturalmente, há um grande desafio para Geppy-X em 2026. O mercado atual está cheio de shooters modernos extremamente refinados, bullet hells de enorme precisão e experiências roguelike praticamente infinitas. Um jogo concebido há mais de vinte e cinco anos inevitavelmente apresenta algumas limitações mecânicas. A questão passa então por perceber se o seu valor histórico e artístico consegue compensar essas limitações.
Jogabilidade
Enquanto shooter horizontal, Geppy-X aposta numa fórmula relativamente simples, mas introduz algumas ideias bastante interessantes. O protagonista controla o robot GEPPY-X, capaz de alternar instantaneamente entre três formas distintas durante o combate. Cada transformação altera completamente o estilo de ataque e a forma como enfrentamos os inimigos.
Uma das formas privilegia disparos espalhados que limpam grandes áreas do ecrã. Outra aposta num poderoso raio concentrado capaz de atravessar vários inimigos. Finalmente existe uma forma focada em ataques corpo a corpo, muito mais arriscada, mas também diferente de tudo o resto presente no jogo. A troca entre estas configurações não serve apenas para variar o armamento. Durante a transformação, o robot perde temporariamente a sua hitbox, permitindo evitar projéteis ou atravessar situações que pareceriam impossíveis. É uma mecânica surpreendentemente inteligente que recompensa o domínio do sistema em vez da simples memorização dos níveis.
Apesar disso, nota-se claramente que Geppy-X pertence a outra geração de shooters. Os movimentos são relativamente pesados, a resposta dos comandos nem sempre é imediata e existe um ligeiro atraso entre determinadas ações. Jogadores habituados à rapidez extrema dos shmups modernos poderão estranhar esta abordagem mais lenta.
Outro aspeto pouco habitual é o enorme tamanho da hitbox do robot. Em vez da precisão milimétrica típica do género, Geppy-X aceita que o jogador seja atingido com alguma frequência. Felizmente, também abandona a filosofia da morte instantânea. O robot possui uma barra de resistência relativamente generosa, recebe reparações regularmente e oferece alguma margem para cometer erros. Isto torna a experiência bastante mais acessível para quem normalmente evita shooters demasiado exigentes.
A nova edição introduz ainda um conjunto muito bem-vindo de melhorias de qualidade de vida. Podemos utilizar rewind para corrigir erros, criar save states em qualquer momento, ativar disparo contínuo sem necessidade de pressionar constantemente os botões e aplicar diferentes filtros CRT para recriar a aparência das televisões antigas. São opções que não alteram a essência da experiência, mas tornam-na bastante mais confortável para o público moderno.
A campanha principal pode ser terminada relativamente depressa caso sejam ignoradas todas as sequências narrativas. No entanto, fazê-lo seria desperdiçar precisamente aquilo que torna Geppy-X especial. Além disso, existem vários finais, rotas alternativas, cenas escondidas e modos desbloqueáveis que incentivam várias partidas adicionais. Entre Boss Rush, variantes experimentais dos episódios e diferentes linhas temporais, existe bastante conteúdo para descobrir após os créditos finais.
Não é o shooter mais refinado do mercado, nem pretende sê-lo. O seu maior mérito está em conseguir transformar mecânicas relativamente simples numa experiência constantemente divertida graças ao contexto em que estão inseridas.

Mundo e história
A narrativa transporta-nos para um imaginário tipicamente japonês dos anos 70. A Terra é atacada pelo misterioso Império Demoníaco Cósmico, uma organização que invade o planeta utilizando gigantescas máquinas de guerra em forma de monstros espaciais. Como resposta, um laboratório secreto localizado no Extremo Oriente ativa o recém-desenvolvido robot combinável GEPPY-X, última esperança da humanidade perante a ameaça alienígena.
Esta premissa dificilmente poderia ser mais clássica. O interessante é a forma como o jogo decide apresentá-la. Em vez de simples diálogos entre missões, cada fase transforma-se literalmente num episódio de televisão. Antes da ação ouvimos uma música de abertura completa. Durante a missão surgem intervalos que simulam publicidade a brinquedos inspirados no próprio anime. No final aparece o encerramento e ainda existe uma prévia do episódio seguinte.
É uma estrutura completamente absurda e ao mesmo tempo incrivelmente convincente. Poucos jogos conseguem recriar tão bem uma época específica da cultura popular. Não estamos simplesmente a jogar um shooter inspirado em anime; estamos a assistir a uma série fictícia que por acaso também nos deixa controlar o protagonista durante as cenas de ação.
Os personagens seguem igualmente todos os arquétipos do género. O jovem piloto corajoso, os cientistas geniais, os vilões extravagantes e os monstros gigantes aparecem constantemente acompanhados por diálogos dramáticos e exagerados que encaixam perfeitamente na homenagem pretendida.
A própria progressão da campanha beneficia bastante desta estrutura episódica. Cada missão apresenta novos inimigos, novos desafios e novos acontecimentos, criando um ritmo muito semelhante ao de uma série televisiva semanal. Mesmo quando a narrativa não é particularmente profunda, mantém sempre um enorme sentido de espetáculo.
Existe ainda bastante conteúdo escondido associado às diferentes escolhas durante as batalhas contra bosses, incentivando novas partidas para desbloquear cenas exclusivas e preencher todas as coleções disponíveis.
Grafismo
É provavelmente no departamento visual que Geppy-X mais impressiona.
Os cenários propriamente ditos mantêm a estética típica dos shooters da PlayStation, mas aquilo que realmente distingue esta remasterização é todo o trabalho de recuperação das animações originais. Os cerca de oito mil fotogramas desenhados à mão foram restaurados diretamente das fitas Betacam utilizadas na produção original, permitindo que cada episódio seja apresentado numa qualidade muito superior à disponível em 1999.
As sequências animadas são surpreendentemente fluidas e detalhadas. Em vez dos 15 fotogramas por segundo da versão PlayStation, esta edição apresenta as animações restauradas a 24 fotogramas por segundo, aproximando-se muito mais da experiência pretendida pelos criadores. O resultado não transmite a sensação de uma simples ampliação por inteligência artificial, mas sim de uma recuperação cuidadosa do material original.
As próprias personagens exibem um charme enorme graças ao estilo artístico clássico dos super robots. Os designs dos mechas, monstros e veículos respiram anos 70 em todos os detalhes. As transformações do GEPPY-X continuam visualmente impressionantes e os ataques especiais mantêm um impacto digno das grandes produções televisivas da época.
Também merece destaque a enorme quantidade de pequenos detalhes espalhados ao longo dos episódios. Os anúncios fictícios, as transições entre segmentos, os logótipos, os genéricos e até os separadores antes das pausas publicitárias ajudam a construir uma ilusão extremamente convincente.
Para quem aprecia preservação histórica, esta edição representa um excelente exemplo de como recuperar videojogos antigos sem destruir a sua identidade visual. Em vez de reinventar o jogo, optou por apresentar o original da melhor forma possível.

Som
Se o grafismo impressiona, o som consegue elevar ainda mais toda a experiência.
Geppy-X reúne um elenco de vozes japonesas verdadeiramente lendário, incluindo atores conhecidos por participarem em inúmeras séries clássicas de anime. As interpretações mantêm toda a energia exagerada característica dos super robots, contribuindo para que cada episódio pareça genuinamente retirado da televisão japonesa das décadas de 70 e 80.
A banda sonora é igualmente extraordinária. Em vez de simples música de fundo, praticamente cada missão possui temas cantados, músicas de abertura, encerramentos e composições inspiradas diretamente nas produções televisivas da época. A participação de artistas lendários ligados ao universo anime ajuda a reforçar ainda mais essa autenticidade.
É difícil não sorrir quando começa mais uma abertura cheia de entusiasmo ou quando surge uma música heroica durante um combate particularmente intenso. Mesmo os anúncios publicitários falsos acabam por contribuir para o ambiente geral.
Os efeitos sonoros mantêm aquele toque clássico dos robots gigantes, com explosões exageradas, ataques energéticos estrondosos e transformações acompanhadas pelos inevitáveis gritos dos protagonistas.
O trabalho de localização também merece reconhecimento. Embora as vozes permaneçam em japonês, foram adicionadas legendas em vários idiomas, permitindo finalmente que um público muito mais vasto compreenda todos os diálogos desta curiosidade histórica.
Conclusão
70s-style Robot Anime Geppy-X não é um shooter perfeito. As suas mecânicas denunciam claramente a idade do projeto, alguns controlos exigem adaptação e dificilmente competirá com os melhores representantes modernos do género em termos de precisão ou profundidade mecânica.
No entanto, avaliar Geppy-X apenas como shooter seria profundamente injusto.
Este é simultaneamente videojogo, homenagem, cápsula temporal e trabalho de preservação histórica. Poucos títulos conseguem recriar com tanta autenticidade um período específico da cultura popular japonesa. Cada episódio transmite paixão pelos super robots clássicos, pela animação tradicional e pela própria história dos videojogos.
A remasterização demonstra igualmente um cuidado raro. Em vez de lançar uma conversão rápida, recupera animações, melhora a acessibilidade, acrescenta funcionalidades modernas e torna finalmente acessível ao resto do mundo um jogo que durante décadas permaneceu praticamente inalcançável.
É verdade que o preço poderá levantar algumas dúvidas para quem procura apenas um shooter de poucas horas. Porém, quem entrar nesta aventura com vontade de apreciar tudo aquilo que Geppy-X representa encontrará uma experiência absolutamente única, impossível de confundir com qualquer outro lançamento atual.
Mais do que um excelente remaster, 70s-style Robot Anime Geppy-X é um exemplo brilhante de como preservar videojogos e celebrar a história do meio sem comprometer aquilo que tornou a obra original tão especial. Para fãs de anime clássico, super robots ou simplesmente de videojogos que arriscam fazer algo diferente, esta viagem ao passado merece ser vivida.
