Quando Besiege chegou ao mercado conquistou rapidamente um lugar especial entre os fãs de jogos de construção graças à sua combinação de criatividade, física e destruição. Em vez de limitar os jogadores a resolver problemas através de soluções pré-definidas, o título da Spiderling Studios sempre incentivou a experimentação. Cada máquina criada podia ser um triunfo da engenharia ou um desastre hilariante, e ambas as situações eram igualmente divertidas. Depois da expansão The Splintered Sea ter levado esta fórmula para os oceanos, Besiege: The Broken Beyond decide apontar ainda mais alto. Literalmente.
Esta expansão abandona os campos de batalha medievais tradicionais para transportar os jogadores para um sistema planetário onde a física orbital, a gravidade e a gestão de combustível passam a desempenhar um papel central. Continua a ser Besiege na sua essência, mas agora os desafios já não passam apenas por atravessar muralhas ou destruir fortalezas. O objetivo é construir naves capazes de escapar à gravidade de um planeta, viajar entre corpos celestes, combater frotas alienígenas e sobreviver às exigências de um ambiente espacial.
A mudança de cenário poderia facilmente parecer deslocada num jogo originalmente inspirado na Idade Média, mas surpreendentemente tudo encaixa de forma natural. A expansão mantém o ADN da série enquanto introduz conceitos completamente novos que obrigam até os veteranos a reaprender muitas das mecânicas fundamentais. Ao mesmo tempo, procura tornar a exploração espacial suficientemente acessível para que qualquer jogador possa criar uma nave funcional sem possuir conhecimentos de engenharia aeroespacial.
O resultado é um DLC bastante ambicioso. Não só acrescenta novos níveis e blocos de construção, como também altera profundamente a forma como pensamos cada projeto. O peso deixa de ser apenas um detalhe. O combustível transforma-se num recurso precioso. A gravidade já não é uma constante. Cada decisão tomada durante a construção influencia diretamente a capacidade da máquina cumprir a sua missão.
Apesar da enorme criatividade demonstrada pela Spiderling Studios, The Broken Beyond chega também acompanhado de algumas limitações que impediram muitos jogadores de o considerarem uma evolução tão consistente quanto a expansão anterior. Ainda assim, representa uma das maiores mudanças que Besiege recebeu desde o seu lançamento.
Jogabilidade
O grande destaque desta expansão está naturalmente nas novas mecânicas relacionadas com o espaço. Pela primeira vez, Besiege introduz um verdadeiro sistema de combustível. Até agora bastava ligar motores ou hélices e observar a máquina ganhar vida. Agora existe um equilíbrio delicado entre autonomia, potência e peso.
Cada depósito de combustível acrescenta massa à construção, tornando mais difícil levantar voo. Em contrapartida, levar pouco combustível pode significar ficar preso a meio da viagem ou não possuir energia suficiente para utilizar armas e propulsores. Este simples sistema muda completamente a filosofia de construção, obrigando o jogador a planear cuidadosamente cada componente instalada.
Os treze novos blocos disponibilizados ajudam precisamente nesta nova abordagem. Entre propulsores espaciais, rodas de reação, sistemas de controlo inercial, depósitos de combustível, mangueiras de abastecimento e novas armas energéticas, existe um conjunto bastante diversificado de ferramentas para experimentar.
Os propulsores destacam-se imediatamente pelo excelente equilíbrio entre potência e controlo. São extremamente satisfatórios de utilizar e permitem construir desde pequenos satélites até enormes naves capazes de atravessar o sistema planetário. Já as rodas de reação facilitam bastante a estabilização das construções durante o voo, oferecendo movimentos muito mais precisos do que seria possível apenas recorrendo a motores convencionais.
O sistema gravitacional é outro enorme salto qualitativo. Cada planeta, lua ou asteroide possui o seu próprio campo gravitacional. Isto significa que a nave muda constantemente de comportamento conforme atravessa diferentes regiões do espaço. Em alguns momentos basta um pequeno impulso para entrar em órbita. Noutras situações será necessário contrariar a atração de um planeta inteiro para evitar uma colisão inevitável.
As atmosferas também desempenham um papel importante. Dentro delas continuam a funcionar asas, hélices e balões, enquanto fora da atmosfera apenas os motores espaciais conseguem gerar movimento. Além disso, a resistência do ar pode ser utilizada para reduzir velocidade durante a reentrada atmosférica, evitando que uma nave demasiado rápida se desintegre.
Toda esta simulação aproxima Besiege de jogos focados em exploração espacial, embora mantenha sempre uma abordagem bastante mais acessível. Não pretende competir com simuladores extremamente complexos. Em vez disso, utiliza conceitos reais de física para enriquecer os puzzles e abrir novas possibilidades criativas.
A campanha inclui onze níveis que exploram praticamente todas estas novidades. Algumas missões focam-se em combates contra enxames de naves alienígenas. Outras desafiam o jogador a realizar aterragens precisas, atravessar campos de asteroides ou destruir gigantescas fortalezas construídas sobre rochas flutuantes. Existem ainda momentos particularmente memoráveis, como provocar a queda de uma lua inteira contra um planeta.
Infelizmente, um dos aspetos mais criticados pelos jogadores prende-se precisamente com a duração desta campanha. Onze níveis sabem a pouco para uma expansão que introduz tantas mecânicas novas. Muitas ideias parecem apenas ser apresentadas antes de o conteúdo terminar, deixando a sensação de que existia espaço para muito mais desafios.
Algumas missões também pecam pela falta de dificuldade. Certos objetivos sugerem operações complexas, mas acabam por ser resolvidos com soluções bastante simples. Em vários casos nem sequer é necessário utilizar todas as ferramentas disponibilizadas pela expansão, reduzindo a necessidade de experimentar novas construções.
Outro problema apontado pela comunidade prende-se com a escala do próprio sistema planetário. Apesar da simulação orbital ser bastante convincente, as distâncias entre planetas acabam por ser demasiado reduzidas. Em poucos segundos é possível abandonar a superfície de um planeta e atingir o espaço, diminuindo um pouco a sensação de grandeza que normalmente associamos às viagens espaciais.
Ainda assim, a vertente sandbox continua a ser um dos maiores trunfos de Besiege. Depois de terminada a campanha, os jogadores podem explorar livremente o sistema solar criado para esta expansão, testar máquinas absurdas, destruir estruturas gigantescas ou simplesmente experimentar novas formas de utilizar a física em seu benefício.
O editor de níveis também recebe novos objetos relacionados com o espaço, permitindo criar planetas personalizados, alterar gravidades ou desenvolver cenários completamente diferentes daqueles presentes na campanha oficial. Como seria de esperar, isto deverá alimentar durante muito tempo a criatividade da comunidade através da Steam Workshop.
O modo multijogador também beneficia destas novidades, disponibilizando mapas espaciais onde vários jogadores podem colocar as suas criações à prova em batalhas imprevisíveis.

Mundo e história
Embora Besiege nunca tenha dado grande importância à narrativa, The Broken Beyond apresenta um enquadramento suficientemente interessante para justificar a mudança radical de cenário.
Tudo começa no planeta Ipsilon, de onde partimos rumo ao sistema Aranea, habitado por uma civilização espacial conhecida como Void Drifters. Estes misteriosos habitantes dominam tecnologias muito mais avançadas do que qualquer coisa anteriormente vista em Besiege, obrigando o jogador a adaptar rapidamente as suas máquinas para enfrentar novas ameaças.
Ao longo da campanha visitamos diferentes corpos celestes, desertos gigantescos, fortalezas escavadas em asteroides e ambientes que contrastam fortemente com os tradicionais castelos medievais da série.
Apesar da narrativa continuar extremamente discreta, o simples contexto da exploração espacial ajuda a criar uma sensação constante de descoberta. Cada novo planeta apresenta condições gravitacionais próprias e desafios específicos, funcionando quase como um novo puzzle de engenharia.
A mistura entre elementos medievais e ficção científica poderia facilmente parecer absurda, mas Besiege sempre viveu da sua capacidade para abraçar o caos. Ver uma máquina construída com aparência rudimentar equipada com motores espaciais, canhões energéticos e sistemas de navegação orbital acaba por ser apenas mais uma evolução natural da criatividade sem limites proposta pelo jogo.
Grafismo
Visualmente, The Broken Beyond consegue surpreender. Embora Besiege nunca tenha procurado realismo fotográfico, o novo cenário espacial oferece alguns dos ambientes mais bonitos alguma vez vistos no jogo.
Os planetas surgem iluminados por estrelas distantes, os campos de asteroides criam panoramas impressionantes e o vazio do espaço transmite uma sensação de escala muito superior àquela presente nas campanhas anteriores.
Os efeitos associados aos novos propulsores são particularmente conseguidos. As chamas dos motores, os rastos luminosos e as explosões contribuem para tornar cada lançamento extremamente satisfatório.
Também as fortalezas espaciais possuem um excelente nível artístico. As suas enormes estruturas metálicas contrastam eficazmente com o ambiente natural dos asteroides onde se encontram instaladas.
A física continua naturalmente a ser a verdadeira protagonista. Ver destroços a colidir entre si, fragmentos de rocha alterarem trajetórias devido à gravidade ou luas inteiras saírem da sua órbita mantém aquele espetáculo caótico que sempre definiu Besiege.
O desempenho também merece elogios. Muitos jogadores referem uma otimização bastante competente, permitindo desfrutar dos novos efeitos visuais sem comprometer significativamente a fluidez, mesmo em computadores mais modestos.
Contudo, nem tudo corre na perfeição. Vários utilizadores reportaram bugs que afetam diretamente a experiência. Existem problemas ocasionais na progressão dos níveis, falhas no sistema de construção, objetos que recusam ligar-se corretamente e missões que apresentam comportamentos inesperados. Alguns jogadores chegaram mesmo a perder progresso ou encontraram níveis inacessíveis.
Estas situações não são permanentes nem afetam todos os utilizadores, mas tornam evidente que a expansão ainda necessita de algumas atualizações para atingir todo o seu potencial.

Som
A componente sonora mantém a qualidade habitual da série. Os novos motores espaciais produzem sons potentes e convincentes, transmitindo verdadeiramente a sensação de enorme força necessária para abandonar a gravidade de um planeta.
As explosões continuam extremamente satisfatórias, enquanto os efeitos associados às armas energéticas ajudam a distinguir claramente esta expansão das campanhas anteriores.
A banda sonora aposta numa atmosfera mais misteriosa, procurando reforçar o ambiente de exploração espacial. Algumas faixas apresentam um tom quase inquietante que acompanha bem a solidão do espaço profundo, embora nem todos os jogadores tenham apreciado esta mudança de estilo.
Felizmente, como acontece no restante jogo, os efeitos sonoros nunca se sobrepõem ao verdadeiro espetáculo criado pelas máquinas do jogador. O caos provocado pelas colisões, destruições e falhas mecânicas continua a ser acompanhado por um design sonoro competente que reforça constantemente o impacto físico de cada acontecimento.
Conclusão
Besiege: The Broken Beyond representa uma das expansões mais ambiciosas lançadas para o jogo da Spiderling Studios. A introdução de física orbital, gravidade dinâmica, combustível e exploração espacial altera profundamente a experiência sem destruir aquilo que sempre tornou Besiege especial: a liberdade absoluta para construir máquinas absurdas e encontrar soluções criativas para qualquer problema.
As novas ferramentas expandem significativamente as possibilidades disponíveis para a comunidade, tanto na campanha como no sandbox e no editor de níveis. O simples facto de podermos construir foguetões, satélites, naves de combate ou veículos capazes de atravessar vários planetas abre portas praticamente infinitas à imaginação.
No entanto, também é difícil ignorar algumas das críticas feitas pela comunidade. A campanha termina demasiado depressa, certas missões poderiam explorar melhor as novas mecânicas e existem bugs que retiram algum brilho ao conjunto. A própria escala reduzida do sistema espacial faz com que algumas viagens pareçam demasiado curtas para transmitir toda a grandiosidade prometida.
Ainda assim, mesmo com estas limitações, The Broken Beyond continua a ser uma excelente expansão para quem já aprecia Besiege. Não procura transformar o jogo num simulador espacial rigoroso, mas sim utilizar conceitos reais da física para enriquecer a criatividade dos jogadores. E nisso é claramente bem-sucedido.
Se a Spiderling Studios continuar a corrigir os problemas técnicos e acrescentar conteúdo através de futuras atualizações, esta expansão tem tudo para se tornar uma das favoritas da comunidade. Até lá, permanece como um DLC repleto de ideias brilhantes, momentos memoráveis e inúmeras oportunidades para construir algumas das máquinas mais loucas que Besiege alguma vez permitiu criar.