O género roguelike continua a ser um dos mais populares do panorama independente, mas também um dos mais difíceis de inovar. Entre centenas de propostas que recorrem à mesma estrutura de progressão aleatória, melhorias temporárias e morte permanente, destacar-se exige mais do que apenas uma boa jogabilidade. É precisamente aqui que HYPERWIRED tenta encontrar a sua identidade.
Desenvolvido pela Sidral Games e publicado pela Selecta Play, HYPERWIRED apresenta-se como um shooter twin-stick de perspetiva superior onde controlamos uma pequena nave espacial equipada com um elemento pouco habitual: uma ficha elétrica presa por um cabo. O conceito parece estranho numa primeira impressão, mas rapidamente percebemos que toda a a mecânica principal gira em torno desta ideia. Em vez de simplesmente disparar contra tudo o que aparece no ecrã, a sobrevivência depende igualmente da gestão da energia e da utilização inteligente das tomadas espalhadas pelos níveis.
À primeira vista, HYPERWIRED parece seguir todas as regras habituais do género. Existem níveis gerados processualmente, desbloqueio de novas naves, melhorias temporárias, inimigos variados e uma dificuldade elevada. No entanto, a mecânica das ligações elétricas cria um ritmo muito próprio, obrigando o jogador a alternar constantemente entre momentos de mobilidade absoluta e períodos de vulnerabilidade enquanto permanece ligado a uma fonte de energia.
O resultado é uma experiência que consegue diferenciar-se da concorrência sem reinventar completamente o género, oferecendo uma abordagem curiosa e bastante desafiante para quem procura algo diferente dentro dos shooters arcade.
Jogabilidade
A jogabilidade representa claramente o ponto mais forte de HYPERWIRED. Sendo um twin-stick shooter clássico, os controlos são imediatamente familiares para quem já passou por jogos semelhantes. O analógico esquerdo controla o movimento da nave enquanto o direito permite apontar em qualquer direção, garantindo liberdade total para atacar inimigos enquanto nos deslocamos.
O disparo principal responde de forma imediata e precisa, sendo acompanhado por várias ferramentas adicionais que enriquecem o combate. Existe um poderoso laser carregável capaz de eliminar grupos inteiros de inimigos ou causar enormes quantidades de dano a adversários mais resistentes. As bombas funcionam como um recurso precioso para escapar de situações complicadas, limpando rapidamente grandes áreas do mapa quando somos cercados.
Uma das habilidades mais interessantes é a capacidade de abrandar temporariamente o tempo. Esta mecânica oferece alguns segundos preciosos para reposicionar a nave, evitar projéteis ou preparar ataques mais eficazes. Apesar de não ser uma novidade absoluta no género, encaixa muito bem no ritmo acelerado dos combates.
Contudo, o verdadeiro destaque surge através da gestão da energia. Ao contrário da maioria dos shooters, a nossa nave depende constantemente de recarregar energia através de tomadas espalhadas pelos mapas. Sempre que nos ligamos a uma delas, ficamos presos ao comprimento do cabo elétrico, podendo mover-nos apenas dentro do raio permitido.
Esta simples limitação altera completamente a forma como encaramos cada confronto. Em vez de circular livremente durante toda a batalha, passamos a avaliar cuidadosamente qual a melhor tomada para utilizar, quando devemos ligar-nos e quanto tempo conseguimos sobreviver presos a uma determinada posição.
Esta decisão constante cria momentos de enorme tensão. Permanecer ligado durante demasiado tempo deixa-nos vulneráveis, mas ignorar completamente as tomadas significa acabar inevitavelmente sem energia. O equilíbrio entre mobilidade e segurança torna-se uma das componentes estratégicas mais interessantes do jogo.
Existe ainda uma solução de emergência através dos chamados P.E.T.As, adaptadores portáteis que podem ser lançados instantaneamente para criar uma tomada improvisada. Trata-se de um recurso limitado, mas extremamente útil quando nos encontramos rodeados por inimigos e sem possibilidade de alcançar uma fonte de energia tradicional.
A estrutura roguelike também cumpre o seu papel. Cada nível é gerado processualmente, garantindo que os percursos, inimigos e oportunidades mudam constantemente entre tentativas. Embora não elimine totalmente a sensação de repetição ao longo de muitas horas, consegue manter cada partida suficientemente diferente para incentivar novas abordagens.
No final de cada nível somos recompensados com uma escolha entre várias melhorias temporárias. Algumas aumentam a velocidade da nave, outras reforçam o dano dos disparos, aceleram a regeneração de munições, fortalecem o laser ou restauram completamente a vida e os recursos disponíveis. Estas escolhas permitem adaptar cada partida ao estilo de jogo preferido pelo jogador.
Os chips largados pelos inimigos acrescentam outra camada de progressão temporária. Estes são armazenados ao longo do cabo da nave, o que significa que um cabo maior permite transportar mais chips simultaneamente. Os seus efeitos incluem melhorias na cadência de tiro, projéteis teleguiados, aumento de dano, reforço do laser e até reparação automática da nave.
Também as baterias desempenham um papel importante. Cada tomada pode receber até três baterias, alterando as propriedades dos disparos enquanto permanecemos ligados à mesma. Este pequeno sistema recompensa a exploração dos mapas e cria incentivos para regressar a determinadas posições durante o combate.
Fora das partidas, existe ainda progressão permanente através do desbloqueio de novas naves. Ao todo encontramos doze modelos diferentes, cada um especializado em atributos distintos como velocidade, energia, resistência, munições, potência do laser ou comprimento do cabo. Esta variedade permite experimentar estilos bastante diferentes e aumenta significativamente a longevidade do jogo.

Mundo e história
HYPERWIRED não pretende contar uma narrativa profundamente elaborada. A história existe sobretudo para justificar as mecânicas e o contexto da aventura, deixando a maior parte do protagonismo para a jogabilidade.
Ainda assim, existe alguma curiosidade em torno da própria premissa. Afinal, porque motivo uma nave espacial possui literalmente uma ficha elétrica pendurada? Esta pergunta acompanha o jogador desde os primeiros minutos e ajuda a criar uma identidade visual distinta para toda a experiência.
Ao longo da exploração encontramos aliados avariados a flutuar pelos cenários. Estes precisam de ser ligados às tomadas corretas para voltarem a funcionar e passarem a combater ao nosso lado. Cada aliado apresenta símbolos específicos que indicam exatamente que tipo de ligação necessita, introduzindo pequenos desafios adicionais durante a exploração.
Embora esta mecânica acrescente alguma personalidade ao universo do jogo, a narrativa permanece sempre em segundo plano. Não existem longas sequências de diálogo, personagens memoráveis ou acontecimentos que transformem verdadeiramente a aventura numa experiência narrativa.
O foco está claramente na ação, na progressão roguelike e na constante procura pela melhor combinação de melhorias para sobreviver mais alguns níveis. Quem procura uma história rica poderá sentir alguma desilusão, mas quem valoriza sobretudo uma boa jogabilidade dificilmente sentirá falta de um enredo mais complexo.
Grafismo
Visualmente, HYPERWIRED aposta numa estética retro bastante colorida que combina elementos futuristas com um estilo arcade muito marcado. A perspetiva superior facilita a leitura da ação, algo essencial num jogo onde dezenas de projéteis atravessam constantemente o ecrã.
Os efeitos de partículas contribuem significativamente para o impacto visual. Explosões, disparos laser, bombas e efeitos elétricos criam um espetáculo permanente de luzes sem comprometer demasiado a clareza da ação. Mesmo durante os momentos mais caóticos, continua relativamente fácil identificar a posição da nave e antecipar os movimentos inimigos.
Os diferentes tipos de inimigos apresentam silhuetas facilmente distinguíveis, permitindo adaptar rapidamente a estratégia conforme surgem novas ameaças. Também os efeitos visuais associados aos vários melhoramentos ajudam o jogador a perceber imediatamente quais os bónus atualmente ativos.
As doze naves disponíveis possuem características visuais distintas, reforçando a sensação de progressão à medida que vamos desbloqueando novas opções.
Naturalmente, não estamos perante uma produção tecnicamente impressionante. Os cenários acabam por apresentar alguma repetição visual e a simplicidade artística denuncia claramente o orçamento reduzido da produção. Ainda assim, tudo funciona de forma consistente, mantendo um bom equilíbrio entre funcionalidade e identidade artística.
O desempenho também merece destaque. A ação decorre de forma bastante fluida, algo fundamental num twin-stick shooter onde qualquer quebra de fluidez poderia comprometer seriamente a precisão dos controlos.

Som
A componente sonora acompanha adequadamente toda a experiência, apostando em temas eletrónicos que encaixam naturalmente no ambiente futurista de HYPERWIRED.
A banda sonora mantém um ritmo constante sem se tornar excessivamente intrusiva. As músicas ajudam a transmitir a intensidade dos combates, criando uma sensação permanente de urgência enquanto exploramos cada nível.
Os efeitos sonoros também cumprem eficazmente a sua função. Cada disparo, explosão, ativação do laser ou ligação às tomadas produz um feedback sonoro suficientemente distinto para reforçar as ações realizadas pelo jogador.
Particularmente satisfatórios são os efeitos associados ao poderoso laser e às bombas, transmitindo uma agradável sensação de impacto sempre que eliminamos grandes grupos de inimigos.
Não existe propriamente um trabalho sonoro memorável capaz de ficar na memória durante muito tempo após terminar o jogo, mas também não existem falhas relevantes. Trata-se de uma banda sonora funcional que complementa corretamente toda a experiência arcade.
Conclusão
HYPERWIRED consegue destacar-se num género extremamente competitivo graças a uma ideia simples mas muito bem executada. A mecânica das tomadas elétricas e da gestão constante da energia transforma aquilo que poderia ser apenas mais um twin-stick shooter competente numa experiência bastante diferente do habitual.
O combate é rápido, preciso e desafiante, existindo sempre múltiplas decisões estratégicas para tomar durante cada partida. A combinação entre melhorias temporárias, desbloqueio de novas naves, recolha de chips, utilização de baterias e gestão do comprimento do cabo cria uma profundidade surpreendente para um jogo aparentemente simples.
É verdade que a componente narrativa é bastante limitada e que a variedade visual poderia ser superior ao longo das muitas partidas necessárias para desbloquear todo o conteúdo. Ainda assim, estas limitações acabam por ter pouco impacto na experiência principal, uma vez que todo o foco está colocado na ação arcade e na repetição típica dos roguelikes.
Quem aprecia jogos como Enter the Gungeon, Nuclear Throne ou outros shooters twin-stick encontrará aqui uma proposta suficientemente diferente para justificar a atenção. O conceito da ficha elétrica poderia facilmente parecer apenas uma curiosidade visual, mas acaba por influenciar praticamente todas as decisões tomadas durante a jogabilidade.
Sem revolucionar o género, HYPERWIRED apresenta uma personalidade própria, um ritmo viciante e mecânicas inteligentes que tornam cada nova tentativa difícil de abandonar. É um indie competente que sabe exatamente aquilo que pretende oferecer e que consegue fazê-lo de forma divertida, desafiante e surpreendentemente original.