A série Splatoon sempre foi conhecida pelo seu ritmo frenético, pelas disputas territoriais de tinta e por uma estética urbana e irreverente que conquistou milhões de jogadores em todo o mundo. No entanto, ao longo dos anos, um modo cooperativo específico começou a ganhar uma tração quase tão forte como as próprias batalhas competitivas. Falamos de Salmon Run, a caótica modalidade introduzida no segundo capítulo que colocava os jogadores a trabalhar em equipa contra hordas de criaturas marinhas bizarras. Splatoon Raiders surge precisamente deste conceito, apresentando-se não apenas como um mero derivado, mas sim como uma evolução tão massiva e detalhada que quase parece um modo secundário de um futuro Splatoon 4 que simplesmente cresceu fora de controlo e ganhou uma vida independente.
Para quem não está familiarizado com a premissa de Salmon Run, a ideia geral passa por enfrentar os Salmonids, um grupo de inimigos cujas formas físicas variadas e comportamentos bizarros desafiam qualquer lógica biológica real. Em vez de pintarmos o cenário para derrotar outros Inklings ou Octolings em arenas simétricas, aqui o foco é a sobrevivência pura e a recolha de recursos preciosos. Splatoon Raiders pega nesta fundação e transporta-a para uma estrutura muito mais próxima das campanhas tradicionais da série, trocando as arenas fechadas por um sistema de masmorras estruturadas. Esta transição muda por completo a dinâmica da experiência, oferecendo uma progressão muito mais recompensadora e focada no progresso individual ou cooperativo.
O resultado é um título surpreendentemente robusto que, apesar de ser vendido a um preço mais acessível, esconde uma quantidade massiva de conteúdo e uma profundidade mecânica que rivaliza com os jogos principais da franquia. Ao longo de dezenas de masmorras, o jogador é constantemente desafiado a adaptar-se, a evoluir o seu equipamento e a dominar novas formas de mobilidade. A transição para a nova plataforma da Nintendo faz-se sentir na escala e na fluidez da ação, tornando esta jornada contra a ameaça escamosa uma das experiências mais viciantes e bem desenhadas que a série já viu nascer.
Jogabilidade
A jogabilidade de Splatoon Raiders afasta-se da estrutura clássica de arena de Salmon Run para abraçar um design baseado em níveis, aqui carinhosamente apelidados de masmorras. Cada uma destas masmorras apresenta objetivos e desafios distintos, dividindo-se em várias categorias bem definidas. Temos os percursos tradicionais onde o único objetivo é alcançar a meta, zonas mais abertas e não lineares onde somos incumbidos de recolher uma quantidade específica de Power Eggs deixados pelos Salmonids derrotados, arenas claustrofóbicas onde as hordas de inimigos surgem sem qualquer piedade, e pequenos circuitos de treino desenhados especificamente para ensinar o funcionamento de novos utensílios. Esta variedade impede que o ciclo de jogo se torne monótono, quebrando constantemente as expectativas do jogador com variações inteligentes no design dos níveis.
A grande novidade no arsenal do jogador é a substituição das tradicionais armas secundárias, como as bombas de tinta ou os aspersores, por um sistema inovador de engenhocas. Estas engenhocas estão diretamente associadas a tipos específicos de tanques de tinta, o que impede combinações aleatórias e exige planeamento na personalização da personagem. Cada engenhoca oferece uma abordagem tática única e pode ser melhorada a níveis absurdos utilizando peças encontradas nas masmorras. Um exemplo perfeito são os Splatellites, pequenos satélites orbitais que inicialmente apenas espalham tinta e causam danos ligeiros ao rodarem em nosso redor, mas que após várias melhorias podem ser personalizados para atacar alvos aéreos, incendiar os Salmonids ou permanecer fixos numa área estratégica. Este nível de personalização é tão profundo que permite criar estilos de jogo completamente distintos de jogador para jogador.
Esta ausência de bombas obrigatórias forçou uma reestruturação na forma como enfrentamos os Boss Salmonids clássicos. Inimigos como Maws ou Flyfish, que anteriormente exigiam o arremesso preciso de bombas para os pontos vulneráveis, agora podem ser derrotados com disparos convencionais de armas principais. Embora isto possa parecer uma facilitação numa fase inicial, a verdade é que o jogo compensa esta alteração ao colocar o jogador perante situações de pura sobrecarga sensorial nas dificuldades mais elevadas. Tentar alvejar diretamente o piloto de um Flyfish enquanto somos perseguidos por trinta inimigos comuns numa masmorra apertada revela-se uma tarefa hercúlea e altamente tensa. Além disso, os novos Seasoned Salmonids elevam a fasquia da dificuldade a níveis inacreditáveis, funcionando quase como versões saídas de um jogo de extrema dificuldade, com Stingers gigantescos de três canhões e Steel Eels incrivelmente longos que testam os limites dos nossos reflexos.
Para navegar por este caos, contamos ainda com a ajuda de um pequeno robô de exploração pilotado por um dos membros do grupo Deep Cut. Este companheiro mecânico não só dispara contra as ameaças mais próximas e nos concede acesso a uma habilidade especial única, como também funciona como uma plataforma de salto portátil. Esta mecânica de salto vertical permite ganhar uma vantagem de altura crucial para escapar de situações de aperto ou para alvejar inimigos por cima de barreiras de tinta. Para os jogadores que procuram o desafio máximo, o nível de dificuldade Survivalist oferece uma experiência punitiva mas justa, existindo ainda opções mais acessíveis e a possibilidade de repetir masmorras anteriores para subir de nível e melhorar os atributos da personagem. O fator de rejogabilidade é ainda expandido com o modo Spicy, desbloqueado após completarmos os níveis originais, que altera a disposição dos inimigos, aumenta a sua agressividade e oferece recompensas muito mais valiosas.

Mundo e história
O universo de Splatoon Raiders continua a transbordar aquele charme pós-apocalíptico e marinho que define a identidade da propriedade intelectual da Nintendo. Desta vez, a narrativa foca-se mais detalhadamente nos membros do trio Deep Cut, permitindo aos jogadores conhecer novas facetas de Shiver, Frye e Big Man que nunca tinham sido exploradas nos jogos principais. Embora a história não pretenda revolucionar a narrativa nos videojogos, funciona perfeitamente como um fio condutor leve e humorístico, justificando a nossa incursão pelas masmorras perigosas e a nossa aliança com estes carismáticos ídolos da cultura Inkling.
A atmosfera do jogo oscila de forma brilhante entre a descontração colorida típica da série e a tensão quase sufocante de estarmos isolados em território inimigo. Os cenários, embora por vezes pequem por alguma repetição visual entre as diferentes ilhas de um mesmo bioma, transmitem perfeitamente a sensação de estarmos a explorar instalações industriais abandonadas, recifes de coral secos e postos avançados decrépitos que foram tomados pela maré implacável dos Salmonids. O tom humorístico mantém-se presente através dos constantes trocadilhos infames relacionados com peixe e culinária, uma imagem de marca que a equipa de localização refinou ao pormenor.
O que realmente dá vida a este mundo são os pequenos detalhes de construção ecológica. É fascinante notar como os Salmonids não são apenas inimigos genéricos, mas criaturas com uma cultura visual própria, que se adaptam ao ambiente hostil onde vivem. A atenção ao detalhe é visível na forma como o próprio aspeto físico destas criaturas muda consoante o seu nível de poder nas masmorras mais avançadas, mostrando corpos cada vez mais desgastados e incrustados de sal. Estes pormenores fazem com que o mundo de Splatoon Raiders pareça vivo, coerente e incrivelmente detalhado, mesmo tratando-se de um título focado principalmente na ação cooperativa.
Grafismo
No departamento visual, Splatoon Raiders apresenta-se com uma qualidade gráfica impressionante na nova plataforma da Nintendo, demonstrando uma solidez técnica digna de registo. Correndo a uma resolução que aparenta ser uns muito sólidos 1440p quando a consola está colocada na base, o jogo destaca-se pela nitidez de imagem e pela inclusão de técnicas de suavização de arestas que eliminam quase por completo o aspeto serrilhado comum em títulos da geração anterior. Em modo portátil, a apresentação mantém-se impecável a 1080p nativos, garantindo que toda a ação rápida e a explosão de cores da tinta no ecrã permaneçam perfeitamente definidas na palma das mãos do jogador.
A direção artística opta por manter a legibilidade da ação acima de tudo, evitando efeitos de iluminação excessivamente complexos que pudessem criar ruído visual desnecessário no meio do caos das batalhas. Ainda assim, o jogo é visualmente apelativo, com texturas detalhadas para a tinta viscosa, reflexos realistas nas superfícies molhadas e uma excelente modelação de todas as personagens e criaturas. O grande destaque técnico vai inteiramente para a estabilidade do desempenho, que mantém uma taxa de atualização de 60 fotogramas por segundo extremamente estável, mesmo quando o ecrã está completamente inundado de tinta, explosões e dezenas de inimigos a correr na nossa direção.
Os pormenores visuais estendem-se à interface de utilizador, que continua incrivelmente estilizada e intuitiva, facilitando a navegação pelos menus complexos de personalização de engenhocas. A atenção ao detalhe brilha também nas animações fluidas e expressivas dos inimigos, que comunicam de forma clara os seus ataques iminentes através de pistas visuais bem desenhadas. Ver a forma desajeitada mas ameaçadora como os novos inimigos como os Smokers ou os Salivators se movem pelo cenário acrescenta uma camada extra de personalidade ao conjunto visual do jogo.

Som
A componente sonora de Splatoon Raiders é, sem qualquer surpresa, fenomenal. A banda sonora do jogo mantém a tradição de misturar géneros musicais improváveis, oferecendo temas que vão desde o rock progressivo até ritmos eletrónicos caóticos que combinam perfeitamente com a urgência de combater hordas de peixes mutantes. A música adapta-se de forma dinâmica à intensidade do combate, elevando o ritmo cardíaco do jogador nos momentos em que as masmorras atingem o pico de dificuldade e as hordas se tornam quase impossíveis de conter.
Um dos aspetos mais deliciosos do design de som é a forma como o tema de vitória tocado no final de cada masmorra bem-sucedida se altera dinamicamente dependendo do membro dos Deep Cut que está a pilotar o nosso robô auxiliar naquele momento, ou da composição da equipa se estivermos a jogar em modo multijogador online. Cada versão do tema reflete o estilo vocal e instrumental único de Shiver, Frye ou Big Man, o que demonstra um cuidado extremo na produção áudio. Os efeitos sonoros das armas, o rebentar das bolhas de tinta e os gritos característicos dos Salmonids são nítidos e fáceis de identificar no meio da ação, ajudando o jogador a situar-se espacialmente apenas através da audição.
Conclusão
Splatoon Raiders é uma das propostas mais surpreendentes e refrescantes que a Nintendo lançou nos últimos tempos. Ao pegar num modo de jogo secundário extremamente popular e expandi-lo com uma estrutura de masmorras, um sistema profundo de progressão e opções de personalização quase ilimitadas, a equipa de desenvolvimento conseguiu criar uma experiência que se sustenta perfeitamente pelas suas próprias pernas. É um título incrivelmente generoso no seu conteúdo, oferecendo dezenas de horas de jogo tanto para quem prefere jogar sozinho como para quem quer partilhar a aventura com amigos através de um modo multijogador cooperativo exemplarmente desenhado.
O jogo brilha particularmente na forma como consegue ser acolhedor para os recém-chegados, graças a sistemas de progressão que permitem mitigar a dificuldade através do melhoramento de atributos, ao mesmo tempo que oferece um desafio brutal e sem concessões para os veteranos da franquia através das dificuldades mais elevadas e do modo Spicy. A jogabilidade é extremamente polida, o desempenho técnico é irrepreensível a 60 fotogramas por segundo e a apresentação audiovisual transborda estilo e personalidade por todos os poros, tornando cada masmorra num verdadeiro deleite para os sentidos.
Embora se possa argumentar que o jogo não revoluciona por completo as fundações mecânicas da série e que alguns biomas poderiam apresentar uma maior variedade visual, estas pequenas queixas empalidecem perante a imensa diversão e o vício saudável que este ciclo de jogo proporciona. Splatoon Raiders é um título obrigatório para qualquer detentor da consola e uma prova inequívoca de que o universo de Splatoon ainda tem muito espaço para crescer e surpreender em novas direções.
