O género roguelike continua a conquistar jogadores graças à sua capacidade de oferecer desafios imprevisíveis, progressão constante e uma elevada rejogabilidade. Phantom Tower surge precisamente nesse espaço, apresentando-se como um RPG de ação offline desenvolvido por um estúdio independente que procura combinar exploração, combate rápido, pilhagem abundante e um sistema de progressão suficientemente profundo para manter os jogadores envolvidos durante dezenas de horas.
À primeira vista, Phantom Tower pode parecer apenas mais uma aventura onde o objetivo é subir ou descer uma torre repleta de inimigos. No entanto, rapidamente demonstra existir muito mais por detrás da sua estrutura aparentemente simples. Entre equipamento para recolher, sistemas de criação de objetos, melhoramentos permanentes, bênçãos aleatórias e uma gestão cuidada do inventário, existe uma camada estratégica bastante superior àquela que normalmente encontramos em títulos semelhantes para dispositivos móveis.
Apesar de ainda apresentar algumas arestas por limar, sobretudo no equilíbrio inicial e em pequenos detalhes da interface, Phantom Tower revela uma base extremamente sólida. É um daqueles jogos que demonstram claramente ter sido criados por alguém apaixonado pelo género, compreendendo aquilo que torna um roguelike verdadeiramente viciante: a sensação permanente de progresso, a procura constante pelo próximo equipamento lendário e a vontade quase irresistível de avançar apenas mais um piso.
Jogabilidade
A estrutura principal de Phantom Tower é bastante simples de compreender. O jogador inicia a aventura na pele de um guerreiro e tem como objetivo ultrapassar cem andares gerados aleatoriamente, cada um recheado de monstros, recursos, baús e desafios próprios. Esta geração procedural garante que dificilmente duas expedições serão exatamente iguais, aumentando significativamente a longevidade da experiência.
Cada piso apresenta grupos de inimigos que precisam de ser eliminados antes de avançarmos para o seguinte. Pelo caminho encontramos caixas com poções de vida e mana, materiais de criação, equipamento de diferentes raridades e, ocasionalmente, salas onde enfrentamos bosses bastante mais exigentes que colocam verdadeiramente à prova tudo aquilo que fomos aprendendo.
O combate é um dos maiores pontos fortes de Phantom Tower. Os movimentos são fluidos, as animações respondem rapidamente aos comandos e existe uma sensação constante de controlo sobre todas as ações. Os ataques sucedem-se de forma natural, as habilidades especiais integram-se perfeitamente no ritmo dos confrontos e cada vitória transmite uma agradável sensação de recompensa.
À medida que derrotamos inimigos, acumulamos experiência que permite subir de nível. Em vez de simplesmente aumentar atributos de forma automática, cada subida de nível apresenta três melhorias aleatórias para uma das habilidades disponíveis. Esta abordagem acrescenta uma camada estratégica bastante interessante, já que cada decisão influencia significativamente o rumo da partida.
O mais curioso é que muitas destas melhorias não representam apenas vantagens absolutas. Frequentemente oferecem benefícios acompanhados de desvantagens, obrigando o jogador a pensar cuidadosamente antes de escolher. Uma habilidade pode reduzir drasticamente o tempo de recarga, mas em troca perde parte do seu dano base. Outra poderá aumentar a área de efeito enquanto reduz a velocidade de execução. Estas decisões tornam cada construção única e incentivam a experimentar diferentes estilos de jogo.
Outro elemento bastante importante são as estátuas espalhadas pelos andares. Sempre que encontramos uma delas, podemos escolher entre várias bênçãos aleatórias. Algumas aumentam atributos básicos como força, velocidade ou resistência, enquanto outras oferecem efeitos automáticos extremamente poderosos que entram em ação durante o combate. Esta componente introduz mais uma camada de imprevisibilidade, obrigando-nos a adaptar constantemente a estratégia às opções que o jogo disponibiliza.
Mas Phantom Tower não vive apenas dos combates. Um dos seus sistemas mais importantes é a gestão do inventário. O espaço disponível é limitado, obrigando o jogador a decidir constantemente quais os objetos que pretende guardar e quais devem ser abandonados. Entre armas, armaduras, acessórios, materiais de fabrico e consumíveis, rapidamente o inventário começa a encher, transformando cada escolha numa pequena decisão estratégica.
Este sistema poderá dividir opiniões. Quem aprecia RPGs mais tradicionais provavelmente irá gostar da necessidade de analisar cuidadosamente cada peça de equipamento. Já quem prefere uma experiência mais imediata poderá considerar esta gestão algo cansativa, especialmente durante expedições mais longas.
Felizmente, o jogo permite regressar à cidade praticamente a qualquer momento. Esta decisão elimina parte da frustração normalmente associada ao género, permitindo guardar todo o saque obtido antes de continuar a aventura. Não existe aquela pressão constante de perder horas de progresso apenas porque decidimos arriscar mais um piso.
Na cidade encontramos praticamente toda a vertente de progressão permanente. Podemos melhorar atributos do personagem, fabricar novo equipamento utilizando os materiais recolhidos durante a exploração ou fortalecer armas e armaduras já existentes. Esta componente faz com que cada expedição tenha sempre utilidade, mesmo quando não conseguimos avançar muitos pisos.
O sistema de crafting apresenta uma profundidade bastante agradável. Em vez de simplesmente recolher armas melhores, somos incentivados a investir tempo na criação e evolução do nosso próprio equipamento. Esta abordagem faz com que praticamente todos os materiais encontrados tenham algum valor, alimentando o ciclo constante de exploração, combate, recolha e melhoramento.
Os controlos táteis revelam-se surpreendentemente competentes. A movimentação responde bem, as habilidades são fáceis de utilizar e raramente sentimos que uma derrota aconteceu devido às limitações da interface. Para quem prefere uma experiência mais próxima das consolas, existe ainda suporte completo para comandos físicos.

Mundo e história
Phantom Tower não procura contar uma narrativa complexa nem construir um universo recheado de personagens memoráveis. A história funciona sobretudo como um enquadramento para a progressão dentro da torre, colocando toda a atenção na exploração e no ciclo viciante de combate e evolução.
O verdadeiro protagonista acaba por ser a própria torre. Cada andar representa um novo desafio, oferecendo diferentes grupos de monstros, oportunidades para recolher equipamento mais poderoso e novas possibilidades para fortalecer o personagem. Existe uma curiosidade constante em descobrir o que nos espera no próximo piso, sobretudo quando nos aproximamos das inevitáveis batalhas contra bosses.
Esta simplicidade narrativa acaba por funcionar relativamente bem dentro da proposta roguelike. O foco nunca deixa de estar na jogabilidade e na evolução constante do personagem, evitando longas sequências de diálogo ou interrupções frequentes do ritmo de jogo.
A cidade funciona como o único verdadeiro ponto seguro da aventura. É ali que consolidamos todo o progresso realizado, investimos recursos nas melhorias permanentes e preparamos cuidadosamente a próxima incursão. Esta alternância entre exploração intensa e momentos de gestão cria um ciclo bastante satisfatório que rapidamente se torna viciante.
Mesmo sem recorrer a uma narrativa elaborada, Phantom Tower consegue transmitir uma agradável sensação de progressão. Cada conjunto de pisos ultrapassado representa mais experiência, melhor equipamento e novas possibilidades de construção da personagem, mantendo sempre presente aquela vontade de descobrir até onde conseguimos chegar.
Grafismo
Visualmente, Phantom Tower opta por uma direção artística simples mas bastante eficaz. Em vez de tentar impressionar com efeitos extremamente complexos, aposta numa apresentação limpa, clara e funcional, privilegiando sempre a legibilidade durante o combate.
Os cenários apresentam um nível de detalhe adequado sem sobrecarregar o ecrã, permitindo identificar facilmente inimigos, projéteis e objetos importantes. Esta clareza visual é particularmente importante num jogo onde vários efeitos especiais podem ocorrer em simultâneo.
As animações são fluidas e ajudam bastante a transmitir impacto aos ataques. As habilidades especiais possuem efeitos suficientemente distintos para serem facilmente reconhecidos, permitindo ao jogador perceber rapidamente tudo aquilo que está a acontecer durante os confrontos mais intensos.
Os diferentes equipamentos ajudam igualmente a criar uma agradável sensação de progressão visual. Sempre que encontramos uma nova arma ou armadura sentimos que existe uma recompensa tangível pelo tempo investido na exploração.
Nem tudo é perfeito, contudo. Um dos problemas mais evidentes está no tamanho de alguns elementos da interface. Certos textos surgem demasiado pequenos, dificultando a leitura em ecrãs de menores dimensões. Trata-se de um problema relativamente simples de corrigir através de futuras atualizações, mas que pode afetar a experiência de alguns jogadores.
Outro aspeto menos conseguido prende-se com o equilíbrio visual das primeiras horas. Como o nível de dificuldade inicial é relativamente baixo, existe uma sensação de repetição durante os primeiros dez a quinze pisos, demorando algum tempo até que o jogo revele verdadeiramente toda a profundidade dos seus sistemas.
Ainda assim, considerando tratar-se de um projeto independente, o resultado final é bastante competente e demonstra um cuidado evidente na construção de uma identidade visual própria.

Som
O departamento sonoro acompanha de forma competente toda a ação, contribuindo para manter um ritmo constante durante as longas sessões de exploração.
Os efeitos sonoros dos ataques transmitem impacto suficiente para tornar o combate satisfatório, enquanto as habilidades especiais possuem sons distintos que ajudam o jogador a identificar rapidamente aquilo que está a acontecer durante as batalhas mais caóticas.
Os inimigos também apresentam efeitos próprios, facilitando a leitura dos confrontos e reforçando a resposta imediata às ações do jogador.
A banda sonora mantém um perfil relativamente discreto, funcionando sobretudo como complemento à ação sem tentar assumir demasiado protagonismo. Este tipo de abordagem acaba por resultar bem num jogo pensado para dezenas de horas de exploração contínua, evitando que as músicas se tornem excessivamente repetitivas ou cansativas.
Embora não apresente composições particularmente memoráveis, todo o conjunto sonoro cumpre eficazmente a sua função de criar ambiente e acompanhar o ritmo acelerado da jogabilidade.
Conclusão
Phantom Tower é um excelente exemplo de como uma ideia relativamente simples pode transformar-se numa experiência extremamente envolvente quando acompanhada por sistemas de jogo bem construídos. A combinação entre combate fluido, progressão constante, enorme quantidade de equipamento, crafting aprofundado e geração aleatória de níveis cria um ciclo viciante que incentiva sempre a realizar apenas mais uma expedição.
A profundidade das escolhas durante a evolução das habilidades, as bênçãos aleatórias encontradas ao longo da torre e a necessidade de gerir cuidadosamente o inventário fazem com que exista muito mais estratégia do que inicialmente aparenta. Cada tentativa acaba por construir uma personagem diferente, incentivando novas experiências e aumentando significativamente a longevidade.
Naturalmente, ainda existem aspetos que podem ser melhorados. A dificuldade inicial demora demasiado tempo a tornar-se verdadeiramente desafiante, alguns elementos da interface necessitam de maior legibilidade e certas funcionalidades de qualidade de vida encontram-se associadas às opções premium. Ainda assim, a experiência gratuita continua perfeitamente agradável, permitindo aproveitar grande parte daquilo que o jogo tem para oferecer.
O facto de continuar a receber atualizações regulares demonstra igualmente um compromisso por parte dos seus criadores em continuar a melhorar a experiência, algo bastante importante para um título deste género.
Sem reinventar completamente a fórmula dos roguelikes, Phantom Tower consegue executar praticamente todos os seus elementos com competência. É um RPG de ação sólido, profundo e bastante viciante, especialmente recomendado para jogadores que apreciam sessões prolongadas de grind, otimização de equipamento e evolução constante da personagem. Com algum polimento adicional, poderá facilmente tornar-se uma das referências entre os roguelikes independentes disponíveis para dispositivos móveis.
