Análises

Análise: Agent 64: Spies Never Die

Passámos os últimos trinta anos a ver os jogos de tiros na primeira pessoa a tornarem-se complexos, cinemáticos e ultra-realistas. De repente, surge alguém que decide ignorar por completo essa evolução e trazer de volta os polígonos afiados, as texturas repetidas e aquela jogabilidade muito específica que ditou regras no final dos anos noventa. Agent 64: Spies Never Die não quer saber das tendências modernas para nada. O jogo, desenvolvido quase na totalidade por uma única pessoa que assina com o pseudónimo Replicant D6, funciona como uma máquina do tempo directa para a era dourada da Rare na Nintendo 64. É um projecto que vive despudoradamente da nostalgia, mas que consegue entregar momentos de genuína diversão a quem partilhou o sofá com amigos a disparar contra ecrãs divididos.

Não há cá orçamentos milionários, vozes gravadas por actores de renome ou efeitos visuais de última geração. O que encontras aqui é um trabalho de amor que recria os moldes de GoldenEye 007 e Perfect Dark com uma precisão quase assustadora. Os inimigos têm cabeças em forma de diamante, dão cambalhotas dramáticas para fugir dos teus disparos e exibem rostos digitalizados que parecem fotografias achatadas de pessoas reais. Existe até o clássico modo de cabeças gigantes para quem quiser facilitar a pontaria ou simplesmente rir um bocado com o ridículo da situação. É uma proposta simples, directa e sem floreados.

Jogabilidade

A forma como controlas o agente John Walter é o ponto onde a nostalgia e a frustração moderna mais chocam. O criador decidiu manter o esquema de controlo clássico das consolas antigas, uma decisão algo bizarra quando hoje em dia temos comandos com dois manípulos analógicos perfeitamente funcionais e ratos de alta precisão. Quando tentas usar a mira de precisão para fazer pontaria manual, a sensibilidade é estranha e desajeitada. Logo no primeiro nível, deparas-te com dois cadeados que precisas de destruir a tiro para avançar. Controlar a mira para acertar naqueles pequenos pedaços de metal consegue ser mais difícil do que derrotar qualquer inimigo que te apareça pela frente.

A melhor solução é mesmo esquecer a mira manual e abraçar o ritmo veloz do correr e disparar. O sistema de mira automática é bastante generoso e faz quase todo o trabalho por ti. Às vezes decide focar-se num alvo que não era bem o que querias prioritizar, mas este método permite manter uma velocidade de acção frenética que acaba por ser o maior trunfo do jogo. Correr pelos cenários a despachar capangas sem parar para apontar devolve aquela sensação de agilidade que se perdeu nos shooters mais realistas.

O jogo brilha verdadeiramente quando decides partilhar a experiência. O modo multijogador em ecrã dividido recupera aquela diversão caótica de juntar pessoas na mesma sala, especialmente quando alteras as regras da partida para permitir apenas minas de proximidade ou golpes físicos. Embora exista a opção de jogar online, a verdade é que a piada disto está no confronto direto, nas cotoveladas no sofá e nas reações imediatas de quem está ao teu lado. Para além disso, a campanha principal pode ser jogada a solo ou em modo cooperativo com um amigo, o que ajuda a mitigar algumas das frustrações do design dos níveis.

Mundo e história

Esquece as narrativas densas ou as reviravoltas complexas dos jogos actuais. A história serve apenas como pretexto para te colocar em vários cantos do mundo a cumprir objectivos simples de espionagem. Todo o enredo é apresentado através de caixas de texto com legendas, sem qualquer linha de diálogo falada, o que reforça o ambiente de meados de noventa. Os níveis são autênticos labirintos de corredores cinzentos e salas que parecem todas iguais, ignorando por completo três décadas de evolução no desenho de níveis.

Perderes-te em becos sem saída ou andares às voltas à procura daquela porta que deixaste passar é um acontecimento frequente. Se morreres, tens de recomeçar o nível do início, o que pode ser bastante irritante nas primeiras tentativas devido à estrutura confusa dos cenários. No entanto, as missões são curtas. A maioria pode ser terminada em menos de cinco minutos assim que conheces o caminho. O jogo desafia-te constantemente com tempos de referência que muitas vezes exigem terminar o nível em menos de dois minutos, transformando estas missões em autênticas pistas de obstáculos onde o objectivo passa a ser desviar dos inimigos em vez de os combater.

Grafismo

Visualmente, Agent 64: Spies Never Die é uma homenagem visual muito específica e sem vergonha de o ser. Os cenários são compostos por blocos geométricos evidentes e as texturas repetem-se pelas paredes de forma despudorada. Os polígonos são tão vincados que podes contá-los um a um nos objectos e nas personagens. Não há efeitos de luz complexos ou sombras dinâmicas de última geração.

Esta simplicidade visual funciona a favor do jogo, permitindo que a acção corra sempre de forma fluida e sem quebras de desempenho. O estilo retro é consistente do princípio ao fim e mostra que o criador percebeu exactamente o que tornava aqueles jogos visualmente distintos na sua época. A estética rústica tem o seu charme e serve na perfeição o propósito de nos fazer sentir que estamos a jogar num monitor de tubo catódico.

Som

A componente sonora segue a mesma linha minimalista do resto do pacote. A ausência de vozes para as personagens é compensada por efeitos sonoros secos e característicos da era de 64 bits. O barulho dos tiros, as explosões e o som dos passos têm aquele eco abafado que nos transporta imediatamente para as tardes passadas em frente à televisão nos anos noventa.

A banda sonora tenta replicar o estilo de composição da altura, com batidas sintetizadas e melodias simples que acompanham a urgência das missões. Não se trata de uma produção orquestral épica, mas sim de um conjunto de faixas electrónicas que assentam que nem uma luva no ambiente de espionagem de baixo orçamento que o jogo propõe. Cumpre o seu papel de ditar o ritmo da acção sem nunca se tornar demasiado intrusiva.

Conclusão

Agent 64: Spies Never Die não tenta apelar ao público moderno que procura a última novidade tecnológica ou mecânicas de jogo revolucionárias. O seu público-alvo é muito específico: aqueles que sentem falta de explorar níveis labirínticos e de disparar contra bonecos de faces achatadas com controlos ligeiramente teimosos. A insistência em manter o esquema de mira manual antiquado é um obstáculo desnecessário, mas o ritmo rápido que consegues atingir ao confiar na mira automática compensa essa teimosia técnica.

A estrutura curta dos níveis e os desafios de tempo extra tornam a experiência bastante viciante para quem gosta de repetir cenários até atingir a perfeição. No fundo, a grande vitória deste título não é fazer-te sentir como o James Bond, mas sim devolver-te aquela sensação de infância em que passavas as férias de Verão a espremer cada segredo de um único cartucho de jogo.

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