O terror cósmico e as profundezas abissais do oceano partilham um elemento primordial comum que mexe com os nossos medos mais profundos: o medo do desconhecido. É precisamente nesta intersecção que se posiciona DIVE or DIE – Children of Rain, uma obra desenvolvida pela Drop Rate Studio e publicada pela Dear Villagers. O jogo transporta-nos para um cenário pós-apocalíptico húmido e implacável, onde a superfície da Terra foi devastada por uma chuva negra incessante e a única esperança de sobrevivência reside em mergulhar num abismo amaldiçoado e repleto de segredos antigos.
A premissa coloca o jogador no papel de Jack, um homem assombrado por um passado doloroso e fustigado por um propósito singular: salvar o que resta da humanidade. Para o fazer, terá de liderar um grupo de sobreviventes desesperados, gerir recursos escassos e enfrentar os horrores indizíveis que habitam no Abissal Pool, um labirinto subaquático composto por ruínas afogadas, ídolos perdidos e abominações mutantes. Cada descida a este abismo representa uma aposta mortal onde a margem para erro é praticamente nula.
A estrutura do jogo assenta num ciclo de jogabilidade tenso e altamente viciante que combina a exploração direta em ambientes bidimensionais com a gestão de um acampamento de sobreviventes à superfície. Esta união de mecânicas faz lembrar títulos aclamados, funcionando como uma espécie de fusão negra entre a exploração de Dave the Diver, a atmosfera portuária e misteriosa de Dredge e a impiedade tática e psicológica de Darkest Dungeon. O resultado é uma experiência de sobrevivência que testa não só a nossa destreza com o comando na mão, mas também a nossa capacidade de planeamento a longo prazo.
Jogabilidade
A jogabilidade de DIVE or DIE – Children of Rain divide-se de forma muito clara em duas vertentes complementares: a exploração ativa sob a água e a gestão estratégica do acampamento à superfície. Quando mergulhamos, o jogo assume uma perspetiva de exploração onde o controlo do oxigénio é o nosso recurso mais vital e limitador. No início da aventura, o tempo de permanência debaixo de água é extremamente reduzido, rondando pouco menos de dois minutos de ar disponível. Esta limitação inicial cria uma urgência tremenda, obrigando o jogador a correr contra o tempo para recolher recursos e regressar à superfície antes que os pulmões colapsem.
Esta pressão constante do oxigénio dita o ritmo das primeiras horas de jogo. Em vez de uma exploração calma e contemplativa, as primeiras descidas assemelham-se a autênticas corridas contra o relógio, onde saltamos de marcador em marcador na esperança de encontrar algo útil antes de iniciar a subida de emergência. À medida que recolhemos materiais e evoluímos o nosso equipamento, esta dinâmica altera-se de forma muito gratificante. Com a melhoria do fato de mergulho, a capacidade dos tanques de oxigénio aumenta e passamos a dispor de ferramentas mais avançadas, transformando o nosso outrora frágil mergulhador numa autêntica força da natureza capaz de cruzar as profundezas a alta velocidade.
Para além da gestão do oxigénio, o combate e a evasão desempenham papéis fundamentais na nossa sobrevivência. O Abissal Pool está infestado de criaturas mutantes e horrores lovecraftianos. Algumas destas ameaças podem ser combatidas diretamente, mas o jogo introduz também vários inimigos indestrutíveis que patrulham as zonas mais profundas. Estes encontros forçam o jogador a adotar uma postura furtiva e observadora. É necessário compreender o que atrai estas criaturas, o que as alerta e como usar o cenário para contornar a sua presença. O jogo premeia ativamente a cautela e a paciência em detrimento da agressividade desmedida.
De volta à superfície, o jogo transforma-se num simulador de gestão de colónias e sobrevivência. O nosso acampamento é o último refúgio da humanidade e cabe-nos a nós expandi-lo e torná-lo autossustentável. Aqui, gerimos os sobreviventes que recrutamos, atribuímos funções cruciais para a manutenção da comunidade, melhoramos as suas habilidades e fabricamos novas ferramentas. Há uma forte componente de gestão de tempo e recursos, com uma contagem decrescente que nos pressiona constantemente. Temos um limite inicial de quarenta dias para encontrar todas as relíquias sagradas antes que o Dilúvio final submerja o mundo por completo. Esta gestão de recursos e de pessoal, onde podemos inclusive personalizar os nomes dos nossos habitantes, adiciona uma camada extra de apego emocional e responsabilidade pelas vidas que temos nas mãos.

Mundo e história
O universo de DIVE or DIE – Children of Rain é profundamente melancólico, opressivo e banhado por uma forte influência da mitologia de H.P. Lovecraft. A narrativa é conduzida pela voz de Jack, que atua como o narrador e guia desta descida à loucura. Através dos seus monólogos e observações, somos gradualmente introduzidos à tragédia que assolou a Terra: a queda de uma misteriosa chuva negra que corrompe tudo o que toca e a ascensão de uma entidade conhecida como o Criador da Chuva, cuja tristeza ou fúria ameaça afogar o planeta inteiro nas suas lágrimas negras.
A exploração das ruínas subaquáticas serve não só para recolher sucata e comida, mas também para desvendar os mistérios do passado. Ao longo das profundezas, deparamo-nos com ídolos perdidos e relíquias sagradas que pertencem a civilizações esquecidas. Cada um destes artefactos oferece poderes especiais em troca de devoção, mas também revela fragmentos de histórias perturbadoras sobre a adoração destas entidades. A narrativa não se coíbe de abordar temas extremamente pesados e desconfortáveis, como o luto, a perda profunda, o suicídio e o infanticídio, tratando-os de forma subtil através do ambiente e de descrições textuais, sem nunca cair no grafismo gratuito.
O tom de desespero é constante e reflete-se na mecânica de sacrifício do jogo. Para atrasar a iminente contagem decrescente do dilúvio, o jogador é por vezes confrontado com escolhas morais difíceis, incluindo o sacrifício de membros do próprio acampamento para apaziguar as forças divinas que controlam a chuva. Esta inevitabilidade da perda e a fragilidade da mente humana face ao horror cósmico criam uma atmosfera densa, onde cada vitória parece temporária e cada descida ao abismo nos deixa um pouco mais perto da loucura coletiva.
Grafismo
Visualmente, o jogo apresenta uma direção artística bidimensional soberba que capta perfeitamente a essência de um pesadelo subaquático. O uso de paletas de cores escuras, tons de azul profundo, cinzentos e verdes lodosos acentua a sensação de isolamento e a falta de luz solar nas profundezas do oceano. O contraste visual é brilhantemente trabalhado através de elementos bioluminescentes, da luz fraca da lanterna do nosso fato de mergulho e dos marcadores brilhantes que pontuam a escuridão abissal, guiando o jogador através do labirinto de ruínas afogadas.
O design dos monstros e das mutações que habitam o Abissal Pool é um dos pontos altos do departamento visual. As criaturas exibem formas grotescas, apêndices desproporcionais e movimentos erráticos que perturbam o jogador logo ao primeiro contacto visual. As animações, embora simples, são extremamente eficazes a transmitir o peso da deslocação debaixo de água e a letalidade dos ataques inimigos. A interface de utilizador é limpa e funcional, mantendo visíveis apenas as informações estritamente necessárias, como o nível de oxigénio e o estado de saúde, para não quebrar a imersão do jogador.
Apesar do brilhantismo artístico geral, existem alguns aspetos na apresentação visual dos objetos que quebram ligeiramente a imersão no mundo de jogo. A colocação de itens colecionáveis, como latas de comida ou fotografias antigas, peca por parecer demasiado artificial, com estes objetos a flutuarem estáticos a meio da coluna de água em vez de estarem depositados no fundo arenoso ou presos em destroços de forma realista. Adicionalmente, os marcadores amarelos gigantescos que destacam o saque no cenário, embora úteis do ponto de vista prático, por vezes retiram algum do misticismo e do prazer da descoberta orgânica, transformando a exploração numa caça visual a ícones brilhantes.

Som
O departamento sonoro de DIVE or DIE – Children of Rain é absolutamente crucial para o estabelecimento da sua atmosfera sufocante. A sonoplastia subaquática é executada de forma exímia, com o som abafado das bolhas de ar, a respiração pesada e ofegante do protagonista dentro do capacete e o ranger do metal sob a imensa pressão hidrostática a criarem um ruído de fundo constante que gera uma ansiedade palpável. Cada som distante nas profundezas, seja o estalar de uma ruína ou o guincho de uma criatura invisível na escuridão, coloca o jogador em estado de alerta máximo.
A banda sonora complementa perfeitamente este ambiente de isolamento com melodias melancólicas, acordes de sintetizadores sombrios e composições minimalistas que aumentam de intensidade à medida que nos aproximamos do perigo ou que o nosso oxigénio começa a escassear. O trabalho de dobragem, em particular a interpretação do narrador Jack, merece um destaque muito especial. A voz rouca, cansada e carregada de sofrimento do ator de voz consegue transmitir perfeitamente o peso psicológico de liderar os últimos sobreviventes da humanidade, elevando a qualidade narrativa do jogo a cada nova intervenção.
Conclusão
DIVE or DIE – Children of Rain estabelece-se como uma proposta de sobrevivência extremamente sólida e viciante, conseguindo equilibrar com mestria a tensão da exploração subaquática com a responsabilidade da gestão de uma comunidade em vias de extinção. A curva de aprendizagem é muito satisfatória, permitindo ao jogador passar de um mergulhador vulnerável e aterrorizado para um explorador ágil e bem equipado que domina as profundezas. A sensação de progressão e a forma como as mecânicas se interligam criam um ciclo de jogo difícil de largar.
Embora o jogo possa apresentar algumas arestas por limar, como a colocação pouco natural de alguns objetos no cenário ou uma certa repetitividade no loop de exploração após compreendermos os padrões dos inimigos, estes pequenos pormenores não mancham a excelente experiência geral. A inclusão de diferentes modos de dificuldade, incluindo a exigente dificuldade Rain que se desbloqueia após a conclusão da campanha principal, oferece motivos adicionais para os jogadores mais dedicados regressarem ao abismo, mesmo que a estrutura geral da história permaneça idêntica.
Em suma, esta obra da Drop Rate Studio é uma recomendação obrigatória para todos os entusiastas de jogos de sobrevivência, gestão de recursos e terror psicológico de inspiração lovecraftiana. DIVE or DIE – Children of Rain não é um jogo de tons alegres ou finais fáceis; é uma viagem dura, melancólica e emocionalmente desgastante sobre a perda e a resiliência humana. Se têm coragem para enfrentar a escuridão do oceano e a iminência do dilúvio, preparem-se para mergulhar numa das experiências mais atmosféricas do ano.
