Análises

Análise: Fitness Boxing 3

Voltar ao ringue pela terceira vez acabou por ser uma experiência um pouco diferente do que estava à espera. Depois de quase cinco anos a treinar com alguma regularidade, 2024 acabou por me tirar o ritmo. Dormir pouco, acumular cansaço e simplesmente deixar de conseguir encaixar os treinos na rotina fez com que aquilo que já era um hábito desaparecesse aos poucos.

Foi por isso que a oportunidade de experimentar Fitness Boxing 3 apareceu numa altura interessante. A Switch já tinha servido várias vezes como uma forma bastante simples de me obrigar a mexer, e voltar a uma série que já conhecia parecia uma maneira relativamente fácil de recuperar esse hábito. Não estava à procura de um substituto para o ginásio. Queria, acima de tudo, voltar a fazer alguma coisa regularmente.

Desde que Ring Fit Adventure apareceu, os jogos de exercício na Switch acabaram por encontrar um espaço próprio. A ideia de transformar uma sessão de treino em algo que se parece mais com um videojogo resulta particularmente bem nos dias em que não apetece sair de casa. Fitness Boxing segue uma abordagem diferente, baseada sobretudo no ritmo, na música e nos movimentos de boxe.

Já tinha passado pelas duas primeiras versões, por isso sabia mais ou menos ao que ia. A diferença é que desta vez o jogo acabou por entrar numa rotina em que já existiam outras coisas pelo meio, como caminhadas, parkrun e yoga. Isso tornou-o menos uma obrigação e mais uma forma de variar o exercício. E, sinceramente, essa variedade acabou por ser uma das coisas que mais gostei nesta terceira edição.

Jogabilidade

No essencial, Fitness Boxing 3 continua a ser exatamente aquilo que se espera. A música marca o ritmo e os movimentos aparecem no ecrã para nos dizer quando devemos dar um jab, fazer um direto ou executar os restantes movimentos. É uma fórmula que funciona porque não é preciso perder muito tempo a aprender como tudo funciona. Pegamos nos Joy-Con, escolhemos um treino e começamos.

A maior novidade é provavelmente o Sit Fit. Como o próprio nome deixa perceber, permite fazer os exercícios sentado. É uma adição que pode parecer pequena para quem não precisa dela, mas abre o jogo a pessoas com mobilidade mais limitada ou simplesmente a quem não consegue fazer determinados exercícios de pé.

Também existem os Mitt Drills, que permitem escolher entre três níveis de dificuldade. É uma maneira simples de ajustar o esforço e evitar que todas as sessões tenham exatamente o mesmo ritmo. Dependendo da condição física do dia, podemos querer uma sessão mais leve ou algo que nos deixe realmente a suar.

O sistema de deteção dos movimentos continua, no entanto, a não ser perfeito. Há momentos em que existe um pequeno atraso entre aquilo que fazemos e a resposta do jogo. Não acontece constantemente e, na maioria das sessões, não chega a estragar o treino, mas é algo que se nota. Quando estamos a tentar acompanhar uma sequência rápida, basta uma pequena falha para ficarmos com a sensação de que o jogo não acompanhou aquilo que fizemos.

Felizmente, não é um problema que aconteça ao ponto de tornar as sessões frustrantes. A maior parte do tempo o ritmo mantém-se bem e rapidamente voltamos a entrar no exercício. Mas quem procura uma leitura absolutamente precisa de cada movimento provavelmente vai encontrar aqui algumas limitações.

Lin continua a ser a instrutora principal e, para quem já jogou os títulos anteriores, a sua presença é imediatamente familiar. Uma pequena novidade que achei engraçada é a forma como vai mudando de roupa. Não é uma alteração que mude a jogabilidade, obviamente, mas dá alguma vida às sessões. Há dias em que aparece com um chapéu de Natal, outros em que surge com um gorro de Ano Novo e até existem mudanças relacionadas com a altura do ano.

Parece um detalhe insignificante, mas estes pequenos elementos acabam por funcionar num jogo que depende bastante da motivação. Quando fazemos sessões repetidamente, qualquer coisa que quebre a sensação de estarmos sempre a fazer exatamente a mesma coisa ajuda.

As sessões estão organizadas de forma relativamente simples. O botão de quick workout permite começar rapidamente um treino diário, sem termos de andar a escolher demasiadas opções. Depois temos a lounge, onde encontramos outras possibilidades, desbloqueamos conteúdos e acompanhamos o progresso.

Gostei particularmente da forma como o jogo apresenta os conteúdos bloqueados. Em vez de simplesmente nos dizer que determinada sessão ainda não está disponível, conseguimos perceber o que é preciso fazer para a desbloquear. Não existe grande mistério e isso evita aquela sensação de estar a jogar sem saber muito bem o que falta.

Existe também um modo para dois jogadores, com o ecrã dividido entre ambos. É uma adição bastante simples, mas funciona bem para quem quer transformar o treino numa pequena competição. A pontuação ajuda a criar aquele incentivo extra de tentar fazer um pouco melhor do que a pessoa que está ao nosso lado.

Durante os testes, houve até um daqueles momentos que acabam por ser mais engraçados do que o próprio jogo. A estimativa de idade apresentada chegou a colocar uma das pessoas nos 21 anos e outra nos 42, o que obviamente deu direito a algumas gargalhadas. Colocar outra pessoa da família a experimentar acabou por mostrar que este modo é suficientemente simples para não exigir experiência anterior.

Mundo e história

Se estão à procura de uma história para acompanhar os treinos, este não é propriamente o jogo certo. Fitness Boxing 3 não tenta criar uma aventura à volta do exercício nem inventa uma narrativa para justificar aquilo que estamos a fazer. O cenário é essencialmente uma sala de treino virtual e é aí que passamos a maior parte do tempo.

E, neste caso, acho que funciona. O objetivo é fazer exercício e não andar a interromper uma sessão para seguir uma história. Quanto menos coisas estiverem a competir pela nossa atenção, mais fácil é simplesmente continuar a mexer.

Lin acaba por ocupar o papel mais próximo de uma personagem. A instrutora acompanha os treinos, dá indicações e tenta manter o jogador motivado. Nas sessões Box and Bond existe um pouco mais de interação, com conversas relacionadas com a importância de criar hábitos e manter alguma consistência.

Não é uma personagem com uma história particularmente profunda, nem precisava de o ser. Aqui funciona mais como aquela pessoa que está do outro lado a lembrar-nos de continuar quando já estamos a pensar em parar.

A possibilidade de alterar a roupa e alguns acessórios também ajuda a tornar Lin menos estática. É um pormenor pequeno, mas num jogo em que passamos bastante tempo a olhar para a mesma instrutora acaba por ter algum impacto.

Grafismo

Visualmente, Fitness Boxing 3 não tenta fazer nada de particularmente ambicioso. E também não precisa. A prioridade é garantir que conseguimos perceber rapidamente os movimentos, os indicadores e aquilo que está a acontecer durante o exercício.

O resultado é um jogo bastante limpo, com cores fortes e uma interface que não complica demasiado as coisas. Conseguimos perceber rapidamente qual é o próximo movimento e acompanhar a sessão sem ter de estar constantemente a procurar informação no ecrã.

As animações dos socos são suficientemente claras e a câmara mantém-se praticamente sempre no mesmo sítio. Esta escolha é importante porque qualquer movimento excessivo da câmara seria mais uma coisa a dificultar a leitura dos exercícios.

As marcas dos pés no chão também ajudam a perceber a posição que devemos assumir. Não são propriamente um detalhe gráfico impressionante, mas cumprem bem a função para a qual foram colocadas.

O pequeno problema volta a estar relacionado com a deteção. Em alguns momentos sentimos que existe um ligeiro atraso na resposta, sobretudo quando o jogo tem de interpretar vários movimentos em sequência. Não chega a criar quebras graves e nunca tive a sensação de que a sessão ficasse inutilizável por causa disso, mas é uma daquelas pequenas imperfeições que se tornam mais evidentes quanto mais vezes jogamos.

Som

A música é uma parte bastante importante de Fitness Boxing 3. A banda sonora aposta sobretudo em temas de dance e synth, sem tentar transformar cada música num grande acontecimento. São faixas feitas para acompanhar o exercício e marcar o ritmo, que acaba por ser precisamente aquilo que precisamos.

Também ajuda o facto de não estarmos constantemente a ouvir músicas com letras que nos chamem demasiado a atenção. Quando estamos a tentar acompanhar uma sequência rápida de movimentos, ter música a funcionar mais como acompanhamento acaba por ser uma vantagem.

Podemos escolher as faixas que queremos ouvir antes de começar a sessão, o que dá alguma liberdade para evitar aquelas músicas que simplesmente não nos dizem nada. Não parece uma grande funcionalidade, mas quando fazemos exercício regularmente começamos a valorizar estas pequenas possibilidades de escolha.

Os efeitos sonoros cumprem também o seu papel. Os socos têm sons suficientemente claros para percebermos que acertámos e os avisos relacionados com a pontuação não se tornam demasiado irritantes. A voz de Lin é igualmente importante, já que passa grande parte do treino a dar indicações e a tentar manter o ritmo.

Quando chegamos às partes mais rápidas das sessões, a música e as indicações acabam por ajudar a criar aquela sensação de que estamos realmente a aumentar o esforço. Não substitui um treino de alta intensidade, obviamente, mas depois de alguns minutos é perfeitamente possível começar a sentir o exercício.

Conclusão

Fitness Boxing 3 não vai revolucionar a forma como fazemos exercício na Switch. Também não precisa de o fazer. O maior mérito do jogo está precisamente em tornar relativamente fácil começar uma sessão, fazer algum exercício e voltar no dia seguinte.

Para quem está a tentar recuperar uma rotina que perdeu, isso pode valer bastante. No meu caso, foi uma maneira simples de voltar a introduzir algum movimento nos dias em que não havia vontade ou tempo para fazer um treino mais completo. Não substituiu a caminhada, a corrida, o yoga ou o ginásio, mas também nunca senti que tivesse de substituir essas coisas.

A possibilidade de treinar sentado é uma boa adição e torna o jogo mais acessível a quem não consegue fazer todas as sessões de pé. Os diferentes níveis de dificuldade, o modo para dois jogadores e a possibilidade de variar os treinos também ajudam a evitar que a experiência fique demasiado repetitiva.

Continuam a existir alguns problemas com a deteção dos movimentos. Não são suficientes para estragar a experiência, mas são suficientemente frequentes para serem mencionados, sobretudo para quem espera uma precisão absoluta.

No final, aquilo que mais gostei em Fitness Boxing 3 foi precisamente não sentir que estava perante uma obrigação. Podia fazer uma sessão curta, aumentar a intensidade quando tinha mais energia ou simplesmente parar quando já não dava para mais. A música, os pequenos desbloqueios e a presença de Lin ajudam a criar uma rotina sem tornar tudo demasiado sério.

Para quem quer começar a mexer-se mais, voltar ao exercício ou simplesmente ter uma opção rápida para aqueles dias em que não consegue ir treinar, Fitness Boxing 3 continua a ser uma boa escolha. Não faz milagres e não vai transformar uma sessão de vinte minutos numa preparação para os Jogos Olímpicos, mas cumpre aquilo a que se propõe.

E, às vezes, conseguir convencer-nos a fazer vinte minutos de exercício em vez de passar esse tempo sentado no sofá já é uma vitória bastante razoável.

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