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Análise: High Times

Há algo de profundamente reconfortante e quase terapêutico nos videojogos que nos colocam no papel de servir clientes. Sejam simuladores de bar, de cafés acolhedores ou de restaurantes de beira de estrada, existe um nicho muito específico na indústria onde o nosso trabalho principal consiste em escutar as histórias de estranhos que entram pela nossa porta, prontos para descarregar as suas preocupações diárias enquanto lhes preparamos algo quente e reconfortante. É precisamente nesta categoria que se insere esta proposta da Yangyang Mobile, que decide trocar os cocktails e o café por donuts e coberturas açucaradas, criando uma premissa que, embora pareça bizarra ao início, rapidamente faz todo o sentido.

À medida que os dias passam por trás do balcão da Hotbox, a pastelaria situada na peculiar cidade de San Mazo, percebemos que o verdadeiro foco da experiência não reside na precisão técnica da culinária, mas sim nas pessoas que conhecemos e nas decisões que tomamos para as ajudar. O jogo convida-nos a gerir o negócio depois de o antigo proprietário ter ido de férias, tendo tomado a decisão incompreensível de vender quase todo o stock antes de partir. Para piorar a situação, a nossa personagem não é uma recém-chegada sem passado; temos uma história rica neste local e muitos dos clientes regulares são, na verdade, ex-companheiros com quem partilhámos relações no passado, ainda que a nossa memória sobre esses tempos pareça um pouco enevoada.

Com mais de trinta histórias secundárias e seis rotas principais de romance que se traduzem em múltiplos desfechos, o título revela-se um colosso inesperado dentro do género de romance visual. O que começa com uma apresentação fofa e descomprometida transforma-se rapidamente numa jornada emocional que pode facilmente ultrapassar as cinquenta horas de jogo para quem desejar ver e experimentar tudo o que este mundo tem para oferecer. A grande questão é perceber se esta mistura de pastelaria e drama interpessoal consegue manter o interesse do jogador durante tanto tempo ou se acaba por se perder no seu próprio ritmo.

Jogabilidade

No que diz respeito à rotina diária, o funcionamento da Hotbox segue uma estrutura que se pode tornar repetitiva ao fim de algumas horas. Cada turno de trabalho traz até três clientes à loja, cada um com exigências muito específicas que nem sempre são transmitidas de forma directa. Em vez de pedirem um donut específico, os clientes expressam frequentemente as suas necessidades através de estados emocionais ou desejos abstractos. Ouvir alguém dizer que sente saudades da família é a pista necessária para perceber que essa pessoa procura um donut de morango, associado à nostalgia, enquanto um cliente que peça algo amargo estará à procura de uma base de chocolate.

O processo de confecção dos donuts em si é extremamente simples e directo. O jogador escolhe o tipo de massa, coloca-a na fritadeira, aguarda escassos segundos até que esteja no ponto e, em seguida, aplica a cobertura e as decorações manualmente. O dinheiro obtido através das vendas e das gorjetas é depois reinvestido na compra de novos sabores e ingredientes decorativos, que são adicionados automaticamente ao livro de receitas. Este ciclo financeiro é fundamental, pois o progresso na narrativa de certas personagens está directamente bloqueado até que o jogador compre um ingrediente específico necessário para a sua história, tornando a gestão monetária e as compras acções obrigatórias para avançar.

Para além do trabalho de balcão, o dinheiro também pode ser utilizado para decorar o espaço de atendimento, o que teoricamente aumenta a probabilidade de certas personagens visitarem a loja. Após o fecho da pastelaria, o jogador pode explorar uma rede social virtual no telemóvel para acompanhar as publicações dos clientes, repleta de piadas internas e pequenos pormenores que enriquecem o universo do jogo. Há também um sistema de mensagens de texto que corre em paralelo com a história principal, permitindo aprofundar laços com as personagens preferidas, embora esta vertente seja totalmente opcional e não obrigatória para o desfecho básico.

O verdadeiro desafio do jogo não reside na destreza mecânica, mas sim na capacidade de ler as pessoas e interpretar as suas necessidades emocionais. Os clientes recordam-se das interacções passadas e das suas preferências individuais, pelo que errar repetidamente nas encomendas resulta em regressar a casa sem qualquer progresso ou gorjeta. A grande falha deste sistema é que a componente prática da culinária nunca evolui para além do que é apresentado na primeira hora de jogo. Se o jogador não encontrar prazer na decoração visual dos donuts, esta vertente transforma-se rapidamente num trabalho monótono e acessório que se estende por dezenas de horas.

Mundo e história

A narrativa começa de forma intrigante com uma sequência invulgar, onde uma mulher misteriosa nos questiona sobre os nossos desgostos amorosos passados, apresentando seis silhuetas e perguntando qual das separações nos magoou mais. Este momento inicial serve para definir, de forma subtil, as seis opções de romance disponíveis ao longo da aventura. Longe de ser uma história de fantasia épica onde o destino do mundo está em jogo, a narrativa foca-se em dramas pessoais, pequenos pormenores quotidianos e na resolução de conflitos internos de uma comunidade muito peculiar.

As personagens que habitam San Mazo são variadas e cheias de personalidade. Temos desde músicos de punk que acidentalmente incendeiam a loja no início da aventura, passando por clientes habituais mascarados de galinha, até influenciadores digitais obcecados por dança e artistas com vidas duplas na internet. O tom da escrita destaca-se pela sua honestidade e naturalidade ao abordar temas complexos relacionados com o corpo, a identidade e as relações humanas, tratando estes assuntos com a mesma leveza com que os habitantes comentariam o estado do tempo, sem rodeios ou tabus desnecessários.

O grande obstáculo no aproveitamento desta rica vertente narrativa reside na aleatoriedade com que os clientes visitam a loja. Como apenas três pessoas surgem por dia e o elenco total ronda as trinta personagens, a probabilidade de encontrar aquela pessoa específica cuja história queremos avançar torna-se frustrantemente baixa à medida que o jogo avança. Mesmo utilizando as decorações de loja para tentar influenciar a rotação dos clientes, o sistema de probabilidades pode ser implacável, fazendo com que passemos semanas virtuais sem ver uma determinada personagem, o que quebra o ritmo dramático da narrativa de forma desnecessária.

Grafismo

Visualmente, o jogo aposta numa direcção artística vibrante, muito colorida e expressiva. O desenho de cada personagem é suficientemente distinto para que o jogador consiga perceber a sua personalidade e estilo de vida escassos segundos após a sua entrada na pastelaria. O criador de personagens inicial oferece uma boa dose de liberdade, permitindo tons de pele irrealistas e uma selecção de vestuário que não está limitada por barreiras de género, garantindo que o avatar do utilizador seja verdadeiramente único e representativo.

O trabalho de ilustração é de elevada qualidade, sobressaindo os pequenos pormenores de animação, como as reacções físicas e de contentamento das personagens quando recebem exactamente o donut que desejavam. No entanto, o facto de estarmos confinados ao mesmo cenário de balcão durante dezenas de horas cria uma inevitável sensação de cansaço visual. As ilustrações especiais de ecrã inteiro, que costumam pontuar os momentos mais importantes nas novelas visuais, são aqui demasiado raras, fazendo com que o jogador sinta a sua ausência ao longo das várias rotas.

Existem também algumas arestas por limpar no departamento técnico e de interface. O utilizador irá deparar-se ocasionalmente com pequenos erros de digitação, falhas na capitalização de letras e, em casos mais raros, instruções de formatação de texto que escaparam para a versão final. Mais grave é a presença ocasional de textos provisórios de programação em vez das instruções reais para avançar na história de uma personagem, o que pode deixar o jogador confuso sobre o ingrediente que necessita de comprar para progredir, obrigando a adivinhar por tentativa e erro.

Som

No campo sonoro, a grande surpresa reside no facto de o jogo contar com uma dobragem de vozes completa para quase todas as falas. A produtora conseguiu reunir um elenco de vozes de renome dentro do panorama independente da internet, cujas prestações emprestam uma enorme camada de carisma e personalidade aos diálogos. Os actores compreenderam perfeitamente o tom por vezes exagerado e dramático das suas personagens, entregando interpretações que elevam consideravelmente a qualidade da escrita e ajudam a criar uma ligação forte com o utilizador.

Apesar do excelente trabalho dos actores, existem algumas inconsistências técnicas na implementação do áudio. Há momentos em que o trabalho de voz desaparece subitamente a meio de uma conversa, deixando algumas cenas em completo silêncio sem qualquer justificação aparente. Esta falha é particularmente notória na rota de uma personagem específica, onde as falas falham com maior frequência do que nas restantes. Embora individualmente pareçam pormenores de menor importância, num título com esta longevidade estas quebras de imersão acabam por se fazer notar com demasiada regularidade.

Conclusão

Esta criação da Yangyang Mobile é uma proposta singular que exige paciência e dedicação por parte do utilizador. Se procuras um jogo com um ritmo acelerado, mecânicas de culinária profundas e desafios mecânicos constantes, esta pastelaria poderá não ser o local ideal para ti. O ciclo de jogo focado na preparação dos donuts não evolui substancialmente ao longo da aventura, funcionando mais como um pretexto interactivo para justificar o avanço das relações do que como um simulador de culinária robusto.

Por outro lado, se o teu objectivo for desfrutar de uma longa e madura viagem focada no desenvolvimento de personagens humanas, imperfeitas e com vidas que parecem continuar mesmo quando não estamos a olhar para elas, este título cumpre com distinção o seu papel. A escrita honesta e desprovida de preconceitos compensa largamente as falhas técnicas e a frustração causada pela rotação aleatória dos clientes, proporcionando momentos de genuína ligação emocional.

Com mais de oitenta ranhuras de gravação disponíveis para facilitar a exploração de todas as rotas e decisões, o jogo assume-se como uma experiência maciça e recompensadora para os amantes de novelas visuais. Apesar das suas arestas por limpar no que toca à interface e à consistência da dobragem de vozes, a Hotbox estabelece-se como um porto de abrigo virtual onde a doçura dos donuts serve de remédio para as dores da alma e para as segundas oportunidades da vida.

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