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Análise: Plungeez

A exploração das profundezas da terra tem sido uma das premissas mais recorrentes no panorama dos videojogos independentes. No entanto, raras vezes somos convidados a descer a este submundo não para combater criaturas ancestrais ou salvar civilizações perdidas, mas sim para lidar com a dura realidade do saneamento básico. Plungeez, desenvolvido pela Team Zeroth e publicado pela QUByte Interactive, coloca o jogador precisamente neste cenário mundano, ainda que estilizado de forma brilhante sob a forma de um labirinto pixelizado de dezasseis bits. O pretexto é simples, mas a execução revela-se um exercício refrescante de desenho de níveis focado inteiramente na lógica espacial.

Assumimos o papel de Boni, uma jovem canalizadora que, num dia de trabalho que corre manifestamente mal, cai de forma acidental no sistema de esgotos da cidade. Sem uma saída imediata à vista, a única solução é progredir através das condutas subterrâneas, desentupindo caminhos e resolvendo os problemas estruturais de uma rede de escoamento verdadeiramente labiríntica. O que se segue não é um teste aos nossos reflexos de combate, mas sim um desafio à nossa paciência e capacidade de decifrar o ambiente que nos rodeia, onde a água e o fogo travam um duelo constante.

Longe de querer ser um título intimidante ou excessivamente punitivo, o jogo opta por uma abordagem que privilegia a descoberta ao ritmo do próprio jogador. Sem barras de vida, inimigos a patrulhar os corredores ou ecrãs de fim de jogo que nos forcem a repetir secções inteiras devido a um salto falhado, a experiência ganha um tom contemplativo. É um jogo sobre perceber como as peças de um mecanismo gigante se ligam, transformando a frustração habitual do género das plataformas num constante processo de aprendizagem.

Jogabilidade

A jogabilidade de Plungeez assenta numa estrutura que pisca o olho ao formato metroidvania, embora a sua alma pertença inteiramente aos jogos de puzzles de ecrã estático ou salas auto-contidas. Controlamos Boni com comandos básicos de corrida e salto, complementados por uma mecânica muito bem-vinda de agarrar as arestas das plataformas de forma automática. Isto significa que o jogo não exige uma precisão milimétrica nos saltos, permitindo que o foco se mantenha na resolução dos enigmas e não na destreza mecânica dos dedos.

O grande elemento diferenciador surge com a introdução do desentupidor de canos. Esta ferramenta indispensável de canalizador funciona, na prática, como uma espécie de salto duplo condicionado. Boni só o pode utilizar quando se encontra encostada a uma parede vertical ou a uma superfície plana. No início, dispomos apenas de uma utilização por escalada, o que impede o jogador de subir qualquer parede de forma indiscriminada. É necessário planear o salto, apoiar o desentupidor no local correcto e impulsionar a personagem para a plataforma seguinte. Ao longo da jornada, a descoberta de mais três desentupidores adicionais expande esta capacidade, permitindo realizar até quatro impulsos consecutivos na vertical, com o contador a reiniciar assim que os pés de Boni voltam a tocar em solo firme.

O progresso em cada uma das salas do esgoto exige que liguemos uma fornalha que alimenta a grelha de saída, abrindo o caminho para a secção seguinte. Para tal, o jogador tem de encontrar uma lâmpada escondida no nível, transportá-la até uma grande lanterna para a acender e, posteriormente, levar a chama até à fornalha. O grande obstáculo a esta tarefa é o elemento mais comum de qualquer cano: a água. Com cascatas a cair do tecto, poças profundas e fugas de água constantes, carregar uma chama acesa torna-se um exercício de planeamento de rotas. Felizmente, existem tochas intermédias que se acendem quando passamos por elas, servindo como pontos de salvaguarda para reacender a nossa lâmpada sem termos de voltar ao início da sala.

A água, contudo, não é apenas um obstáculo a evitar. Numa fase posterior, após obtermos o fato de mergulho, passamos a conseguir submergir e explorar as profundezas inundadas. O desenho dos níveis aproveita esta dualidade de forma exemplar, obrigando-nos a interagir com alavancas para subir ou descer o nível da água, reparar canos danificados para restabelecer a energia eléctrica e direccionar fluxos de água. Há ainda jactos de água verticais que servem de elevadores improvisados, embora a detecção de colisão ao tentar aterrar exactamente no topo destes jactos se revele, por vezes, ligeiramente imprecisa e frustrante.

Mundo e história

A narrativa de Plungeez é minimalista e não pretende de forma alguma roubar o protagonismo às mecânicas de jogo. A premissa de Boni perdida nos esgotos serve apenas de pano de fundo para justificar a progressão pelas quatro grandes áreas subterrâneas. O único elo de ligação com a superfície e com a normalidade é o rádio comunicador que Boni transporta consigo. Através dele, a jovem vai mantendo o contacto com um colega de profissão mais velho e experiente, partilhando as suas descobertas e as situações bizarras que encontra no subsolo.

Estes diálogos acrescentam uma camada de humor tipicamente operário que funciona muito bem. As conversas são curtas, directas e nunca se alongam mais do que o necessário, servindo para dar alguma personalidade à dupla sem quebrar o ritmo da exploração. Há uma certa leveza e honestidade na forma como a vida de canalizador é retratada, despida de pretensões heróicas e focada na satisfação simples de resolver um problema prático de engenharia caseira.

O mundo em si, apesar de ser um complexo de esgotos, consegue transmitir uma sensação de espaço vivo e interconectado. Não estamos perante uma sucessão de níveis independentes sem ligação entre si. O mapa é aberto e permite o regresso a áreas anteriores a qualquer momento. Para facilitar a navegação e evitar caminhadas desnecessárias, existem canos de teletransporte espalhados pelos cenários que, uma vez activados, criam uma rede de viagem rápida muito útil para quem decide explorar todos os cantos deste labirinto industrial.

Grafismo

Visualmente, a produção da Team Zeroth abraça a estética de dezasseis bits com enorme orgulho. O pixel art de Plungeez é detalhado, limpo e extremamente eficaz a transmitir a atmosfera húmida e industrial dos esgotos. Longe de ser apenas uma mistura cinzenta e castanha de tijolos, o jogo apresenta uma paleta de cores surpreendentemente rica, onde os verdes fluorescentes de lamas tóxicas contrastam com o azul da água limpa e os tons alaranjados do fogo das fornalhas.

As animações de Boni são fluidas e expressivas, reflectindo o esforço físico de saltar com desentupidores ou o peso de carregar a lâmpada acesa. Os cenários estão repletos de pequenos detalhes que dão vida ao ambiente, como pequenas gotas de água a pingar dos canos no fundo, engrenagens a rodar lentamente e vapor a sair das juntas da tubagem. A interface do utilizador é igualmente minimalista, mantendo o ecrã limpo de elementos desnecessários para que o jogador se foque inteiramente na arquitectura dos puzzles.

O mapa do jogo merece um destaque especial pela sua clareza e funcionalidade. Embora não mostre os detalhes internos de cada sala, exibe a ligação entre as diferentes secções, indicando claramente quais as salas que já foram concluídas e onde se encontram os doze tesouros escondidos. É um auxílio visual excelente que evita que o jogador se sinta perdido num emaranhado de tubos idênticos, embora algumas secções mais avançadas, navegadas em condições de visibilidade reduzida devido a lamas verdes, possam testar a paciência de quem tem pior orientação espacial.

Som

A componente sonora desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera opressiva, mas simultaneamente relaxante, de Plungeez. A banda sonora opta por melodias calmas e sintetizadas, que remetem imediatamente para a era dourada das consolas de quarta geração. Os temas musicais nunca se tornam intrusivos ou repetitivos, mesmo quando passamos vários minutos a olhar para o mesmo ecrã a tentar perceber como levar a chama até à fornalha.

Os efeitos sonoros são igualmente competentes e ajudam a dar peso às acções de Boni. O som característico do desentupidor a fixar-se na parede é extremamente satisfatório, tal como o eco das passagens de água pelos canos e o chiar das engrenagens a moverem-se. A água, sendo o elemento central do jogo, tem uma presença acústica constante, variando entre o som suave de um gotejar distante e o ruído ensurdecedor de uma descarga de alta pressão.

Não há vozes gravadas para os diálogos, optando-se pelo clássico som de texto a ser escrito no ecrã, o que se enquadra perfeitamente na estética retro pretendida. O resultado final é um ambiente sonoro coeso que ajuda a isolar o jogador no interior daquela rede de esgotos, tornando a experiência de jogo muito mais focada e envolvente.

Conclusão

Plungeez é uma proposta honesta e extremamente bem executada que sabe exactamente o que quer ser. Ao abdicar de mecânicas de combate e focar-se inteiramente na resolução de puzzles ambientais através da exploração e do uso inteligente de ferramentas de canalização, a Team Zeroth conseguiu criar uma aventura curta, mas altamente memorável. A progressão de dificuldade está muito bem calibrada, introduzindo novos conceitos e ferramentas a um ritmo que mantém o interesse do jogador do princípio ao fim.

Com uma longevidade estimada entre as duas e as três horas, mesmo para aqueles que decidem procurar todos os tesouros escondidos no mapa, o jogo não se alonga mais do que o necessário. É a duração ideal para um conceito deste género, evitando o desgaste que muitas vezes surge em títulos que tentam esticar as suas mecânicas de forma artificial. A inclusão de viagem rápida e a impossibilidade de ficar preso permanentemente num puzzle demonstram um enorme respeito pelo tempo e pela inteligência do utilizador.

Apesar de pequenas arestas por limpar, como a colisão ocasionalmente errática nos jactos de água verticais e algumas quebras de fluidez raras em secções específicas de lama, o balanço final é extremamente positivo. Para quem procura um jogo de puzzles inteligente, com um visual retro cuidado e uma atmosfera industrial relaxante, este mergulho pelos esgotos é uma excelente recomendação.

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