Análises

Análise: Taival

O panorama dos RPG de aventura de aspeto voxel tem uma história rica em promessas audazes e, por vezes, desilusões marcantes. É impossível olhar para Taival, o novo projeto em acesso antecipado desenvolvido pela Bonobo Software e publicado pela Level Up Gaming, sem recordar os tempos áureos e as promessas por cumprir de títulos que marcaram este nicho de mercado. Contudo, Taival tenta trilhar o seu próprio caminho ao focar-se não apenas na exploração pura, mas também numa forte componente cooperativa e na relação simbiótica entre o jogador e uma criatura mítica capaz de mudar de forma. É uma proposta que equilibra a pacatez dos mundos abertos acolhedores com a vertente clássica dos jogos de acção e interpretação de papéis.

Nesta fase inicial de desenvolvimento, o título apresenta-se como uma tela em constante evolução, demonstrando que a equipa de produção está empenhada em recolher o feedback dos jogadores para moldar a versão final. Lançado numa altura em que os jogadores procuram experiências para partilhar no sofá ou através da internet, o jogo tenta apelar tanto a famílias que querem uma experiência relaxada como a aventureiros que procuram explorar cada canto de um mapa desenhado à mão. O ponto de partida é bastante sólido, estabelecendo bases para o que poderá vir a ser uma referência no género, desde que os problemas técnicos inerentes a esta fase sejam devidamente resolvidos.

A premissa de Taival assenta na cooperação mútua e na descoberta, oferecendo uma experiência que tenta ser acessível sem descurar a profundidade dos seus sistemas centrais. Ao longo das primeiras horas, fica claro que a Bonobo Software quis criar um ambiente propício à descontração, onde o ritmo é ditado pelo utilizador. No entanto, como acontece frequentemente com lançamentos em acesso antecipado, os jogadores vão deparar-se com um misto de deslumbramento e frustração, à medida que alternam entre a beleza das paisagens e as arestas por limar que ainda povoam o código do jogo.

Jogabilidade

A jogabilidade de Taival divide-se em dois eixos fundamentais que crescem em paralelo: o desenvolvimento do próprio herói e a evolução do companheiro Henki. No controlo do nosso personagem, encontramos uma estrutura tradicional de acção e aventura, onde o combate se apresenta de forma simples e direta, ideal para jogadores casuais ou para partilhar com os mais novos. O sistema de combate assenta em esquivas, ataques básicos e na utilização de diferentes tipos de armas, existindo até uma mecânica de rolamento que pode ser melhorada através de uma árvore de habilidades para garantir momentos de invulnerabilidade temporária, conferindo aos confrontos um ritmo que pisca ligeiramente o olho a dinâmicas mais exigentes.

A grande estrela do jogo é, sem dúvida, o Henki. Esta criatura metamórfica funciona como o núcleo mecânico de toda a exploração. Ao derrotar ou interagir com a fauna local, o Henki pode absorver a essência dessas criaturas e transformar-se nelas, herdando as suas capacidades únicas. Isto traduz-se em mecânicas de travessia e combate extremamente variadas, permitindo-nos invocar uma besta pesada para absorver danos em combates intensos, uma montada veloz para escalar montanhas íngremes de forma rápida, ou um predador furtivo para atacar a partir das sombras. Esta versatilidade incentiva o jogador a experimentar diferentes combinações para encontrar o estilo que melhor se adapta à sua forma de jogar ou às necessidades do grupo.

Apesar destas excelentes bases, a jogabilidade ainda ressente-se do seu estado prematuro de desenvolvimento. O sistema de progressão de equipamento, por exemplo, carece de profundidade nesta fase, uma vez que as armas e armaduras recolhidas não apresentam atributos complexos além do dano básico, defesa e peso, o que retira algum do entusiasmo na procura por saques raros. As profissões e o sistema de fabrico de itens também se encontram num estado muito inicial, oferecendo bónus passivos simples, como a probabilidade de poupar minério durante a fundição, em vez de permitirem uma verdadeira especialização do personagem. Além disso, a inteligência artificial dos inimigos por vezes falha, com monstros a surgirem presos no cenário ou a reagirem de forma errática durante as patrulhas.

O ritmo de jogo é altamente influenciado pela forma como decidimos abordar a aventura. A solo, a travessia por um mapa vasto pode por vezes parecer solitária e lenta, especialmente quando nos deparamos com missões que exigem longas caminhadas de ida e volta para falar com personagens não jogáveis. No entanto, é no modo cooperativo para até quatro jogadores que Taival brilha verdadeiramente. A integração inovadora que permite misturar jogadores em ecrã dividido local com jogadores online na mesma sessão funciona de forma exemplar, tornando a experiência de exploração em grupo extremamente divertida e dinâmica. O sistema de votação e seleção de opções de diálogo em conjunto garante que todos os membros do grupo se sintam envolvidos nas decisões narrativas.

Mundo e história

O enredo de Taival coloca-nos no papel de um herói que descobre o último Henki, uma criatura lendária responsável por manter o equilíbrio do mundo. A nossa missão principal consiste em descobrir quem destruiu o Coração de Pedra do Henki, recuperar os seus fragmentos perdidos espalhados pelo mapa e restaurar a criatura ao seu devido lugar. É uma narrativa clássica de fantasia que serve perfeitamente para justificar a nossa jornada por múltiplos biomas interligados, embora o foco do jogo esteja claramente na descoberta orgânica e nas pequenas histórias que encontramos pelo caminho.

O mundo de Taival foi desenhado à mão e isso nota-se na disposição dos seus pontos de interesse, que vão desde montanhas verdejantes a florestas densas e ruínas antigas repletas de segredos. A exploração é pontuada por uma enorme quantidade de missões secundárias que variam significativamente de tom. Num momento estamos a ajudar um agricultor local a descobrir quem lhe roubou um barril de plantas, descobrindo que o culpado foi um pequeno roedor, e no momento seguinte estamos a mediar uma disputa de propriedade de uma casa entre dois goblins teimosos. Esta alternância entre tarefas cómicas e combates mais sérios contra bandidos ou pragas de insetos gigantes confere ao mundo uma atmosfera muito própria e cativante.

Contudo, a estrutura das missões ainda sofre de alguma repetitividade e de problemas de design típicos de acesso antecipado. Há situações em que a falta de direções claras obriga o jogador a subir montanhas imensas apenas para ser reenviado para a base da mesma, criando momentos de frustração desnecessários. Além disso, a densidade do mundo pode parecer inconsistente, com zonas altamente detalhadas e cheias de vida a contrastar com planícies algo desprovidas de pontos de interesse significativos. Ainda assim, a sensação de mistério que envolve o passado do Henki e a beleza das paisagens artesanais conseguem manter o interesse na exploração vivo.

Grafismo

Visualmente, Taival adota uma direção artística baseada em voxels que transborda charme e personalidade. O aspeto em blocos, longe de parecer genérico, foi trabalhado de forma a criar cenários calorosos e convidativos. A iluminação desempenha um papel crucial na atmosfera do jogo, com pores do sol que banham as colinas em tons quentes e florestas misteriosas onde a luz do dia mal consegue penetrar entre a folhagem geométrica. É um estilo visual que remete imediatamente para a nostalgia dos mundos de fantasia pixelizados, mas com uma suavidade e modernidade na paleta de cores que o tornam muito agradável à vista.

As animações dos personagens e, especialmente, do Henki nas suas diversas formas são expressivas e cheias de vida, complementando a atmosfera relaxante do título. É possível acariciar o nosso companheiro, um pequeno detalhe que demonstra o carinho colocado no desenvolvimento destas interações. No entanto, o departamento técnico do grafismo é onde o jogo mais demonstra a sua juventude. Há relatos frequentes de quebras acentuadas na taxa de fotogramas, especialmente ao transitar entre o jogo ativo e as cenas de transição, ou quando o motor tenta carregar elementos do cenário situados a grandes distâncias.

Alguns elementos do cenário também sofrem com problemas de alinhamento de texturas e modelos tridimensionais desalinhados, como vigas de telhados que não se encaixam corretamente ou estruturas que surgem e desaparecem do campo de visão abruptamente. Estes problemas de otimização exigem uma máquina razoavelmente moderna para correr o jogo com total fluidez, o que pode afastar jogadores com configurações mais modestas. A interface do utilizador, embora limpa, também necessita de melhorias urgentes, carecendo de funcionalidades básicas como a ordenação automática do inventário, o que torna a gestão de recursos desnecessariamente confusa.

Som

A sonoplastia de Taival desempenha um papel fundamental na criação da sua atmosfera relaxante e acolhedora. A banda sonora é composta por melodias suaves e acústicas que acompanham o jogador durante as suas caminhadas pelo mundo aberto, adaptando-se de forma subtil às diferentes regiões e momentos do dia. A música nunca se torna intrusiva, funcionando antes como um cobertor sonoro que convida à exploração sem pressas, tornando a ação de simplesmente correr e rebolar pelas colinas uma experiência terapêutica.

Os efeitos sonoros apoiam bem a jogabilidade, com sons ambientais que dão vida à natureza voxelizada, desde o farfalhar das folhas ao vento até aos ruídos característicos das criaturas que habitam cada bioma. O combate beneficia de impactos sonoros satisfatórios, embora alguns feitiços e ataques ainda careçam de um pouco mais de peso acústico para dar maior feedback ao jogador. No geral, o trabalho de áudio cumpre com distinção o seu papel de transportar o jogador para um universo de fantasia pacífico, ajudando a mitigar a frustração causada pelos pequenos problemas técnicos que se encontram no caminho.

Conclusão

Taival apresenta-se nesta fase de acesso antecipado como um projeto de enorme potencial que aponta na direção certa, mas que ainda tem uma longa caminhada pela frente. A Bonobo Software conseguiu criar uma fundação extremamente sólida, assente na maravilhosa mecânica do companheiro metamórfico Henki e num sistema cooperativo exemplar que devia servir de lição para muitos títulos de maior orçamento na indústria. A capacidade de juntar amigos no sofá e online na mesma partida de forma descomplicada é um dos maiores trunfos deste lançamento.

Por outro lado, é inegável que a experiência atual é marcada por várias arestas técnicas que precisam de ser limadas. Os problemas de otimização, as quebras de desempenho em zonas mais densas, os erros na geração de cenários e a falta de profundidade em sistemas cruciais como o fabrico de itens e as estatísticas dos equipamentos mostram que o jogo precisa de tempo para amadurecer. A receção inicial da comunidade tem sido maioritariamente positiva, em grande parte devido à postura exemplar dos produtores, que têm demonstrado uma enorme rapidez na resposta a falhas e no lançamento de atualizações de correção.

Para quem procura uma aventura cooperativa leve, charmosa e focada na exploração para partilhar com amigos ou familiares, Taival já oferece motivos de diversão suficientes que justificam a entrada no seu mundo, especialmente se houver paciência para lidar com os problemas típicos de um acesso antecipado. Se preferem uma experiência totalmente polida, sem falhas técnicas e com sistemas de progressão complexos e finalizados, talvez seja mais prudente aguardar pelos próximos meses de desenvolvimento. O potencial para se tornar um clássico do género voxel está lá, restando agora aos produtores continuar o excelente trabalho de proximidade com a comunidade para guiar esta jornada até ao seu destino final.

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